Durante a propaganda eleitoral, o nome de Deus foi tomado em vão, por quase todos os candidatos que, por falta de propostas concretas e viáveis, apelaram para um “apoio divino”, principalmente de igrejas evangélicas. Essa mistura de “religião” e “poder político” (no mau sentido) é uma distorção provocada por ambição e medíocre falta de cultura e de neurônios funcionais. Esse abusivo e inaceitável uso do nome de Deus (ou do Senhor Jesus) para ganho de vantagens pessoais me leva a perguntar: afinal, que Deus é esse? Que Jesus é esse?. Essa exploração da boa fé, na realidade, passa muito longe da religiosidade que é um sentimento que une as pessoas, para se aproximar da esfera das “religiões” que são instrumentos de separação dos seres humanos. Vejo, com pesar, que a mistura de pequenas igrejas com grandes negócios se tornou moda na política (no mau sentido) brasileira.

Religião e Ciência
A mistura de religião com poder público já trouxe muito atraso para o mundo intelectual. Como argumento histórico, uso um texto do Prof. Dr. Walmir de Albuquerque Barbosa – “A função cientifica e social da Universidade” – para lembrar que na antiguidade os sábios reuniam seus discípulos para desenvolver o gosto pela Filosofia, Matemática, Retórica, Geometria, Direito, História e Artes e quando a Igreja católica tornou-se a religião oficial do Império Romano os estudos sobre Teologia Cristã ganharam destaque. E foi sob o controle da igreja que se formaram as Escolas Monacais, Episcopais, Palatinas e, na Idade Média, o estudo passou a ser incentivado pela igreja que tinha rigoroso controle sobre o conteúdo das disciplinas ministradas.

A primeira Universidade do mundo ocidental foi a de Bolonha (Itália – 1088), seguindo-se a de Paris (1215) e, na América do Sul, a primeira foi a de São Marcos (Peru, 1551), seguindo-se a de Santa Fé (Colômbia – 1573), de Córdoba (Argentina – 1613) e de Caracas (Venezuela – 1721).

A função das Universidades
No século XIII existiam dois tipos de Universidades – Universitas magistrorum (sob a autoridade da igreja católica) e as Universitas scholarium (com função laica). Só com a perda da hegemonia papal é que as Universidades conquistaram a denominação de Universitas studiorum (com função definida por alunos e professores).

A universidade no Brasil
O governo colonial português proibiu estudos superiores no Brasil, temeroso da contribuição do ensino superior para a formação de pessoas que pudessem promover anseios libertários, uma diretriz oposta à politica colonialista da Espanha que incentivou a criação de universidades em Santo Domingo (1538) e México (1551). No Brasil, a primeira universidade foi a de Manaus (1908) cuja carteira de identidade foi tomada pela Ufam, que é sua herdeira legal, mas não sua sucessora, com esse ato se configurando como uma distorção histórica provocada pelo grupo político (no mau sentido) que domina a Universidade Federal (de longa data) e a Estadual (em duas gestões).

No Brasil, a finalidade da universidade pública é o desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da extensão, entendendo-se que ela deve criar e socializar o conhecimento científico para embasar políticas públicas que beneficiem a sociedade como um todo. Tudo o resto é engodo, é misturar conhecimento científico com política (no mau sentido). Hoje no Brasil, a política (no mau sentido) é uma atividade ligada ao conhecimento popular (eu acho) e, lamentavelmente, ao conhecimento religioso (eu creio), não mais da igreja católica. Induzir os fiéis a terem coração generoso e mente sadia, é dever das religiões que não deveriam formar bem se aliar à grupos políticos (no mau sentido) para tomar o poder e direcionar o conteúdo das escolas e o rumo da sociedade, como na Idade Média.

Aprendi, muito cedo, que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e quando vejo Deus tão isolado nesse mundo de insanidades, penso que sua imagem e semelhança estão muito mais próximas do caboclo do beiradão amazônico do que de Lula, Dirceu, Genoíno, Delúbio, Marcos Valério, seus pares e comparsas.

O retrato 3×4 dessa realidade me foi revelado na segunda-feira, dia 08/12/2012, em uma loja da Floriano Peixoto onde um grupo aliado a um candidato derrotado, conversava sobre apoios no segundo turno e um deles declarou: “Se a mala tiver menos de um metro, nós nem conversamos”. E esse candidato tinha o apoio de um Deus e de um Senhor Jesus. Que Deus? Que Jesus?

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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