Reinaldo José Lopes*Reinaldo José Lopes

Graças aos meses de chuva dá para plantar soja, colhê-la e ainda obter uma colheita de milho.

Um dos motivos que transformaram a agricultura praticada no sul da Amazônia numa potência nacional e internacional é a possibilidade de colher e plantar duas safras, no mesmo ano e no mesmo local, durante a estação chuvosa da região. Uma beleza, não é? Seria, se o desmatamento não estivesse encolhendo a janela de tempo na qual é possível plantar.

Essa é a principal conclusão de dois estudos publicados por pesquisadores da UFV (Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais), junto com colegas de outras instituições do Brasil e do exterior. As análises se somam a uma massa cada vez maior de dados que mostram que existe um elo importantíssimo entre a presença da floresta e a robustez das chuvas que viabilizam boa parte do agronegócio do país.

Hoje, regiões como o sul do Amazonas, Rondônia e grande parte de Mato Grosso se valem dos sistemas conhecidos como safra-safrinha, ou dupla safra, para conseguir produzir quantidades cavalares de soja e milho. Graças aos meses de chuva dessa região, que chegam a durar mais de sete meses, começando por volta de outubro, dá para plantar soja, colhê-la e, na sequência, ainda obter mais uma colheita, só que de milho.

A má notícia, entretanto, é que esse longo período chuvoso vem se contraindo nas últimas décadas. O processo está descrito em artigo na revista científica InternationalJournalofClimatology, assinado por Marcos Heil Costa, da UFV, e Argemiro Leite Filho, da UFMG. Segundo eles, nos 15 anos que vão de 1998 a 2012, a estação das chuvas passou a começar seis dias mais tarde e a terminar 20 dias mais cedo.

Isso é o que mostram os dados de satélite. Parte do processo é, claro, influenciada por variabilidades climáticas naturais; outra fração deve ter a ver com as mudanças climáticas globais; e uma última fatia, ao que tudo indica, está relacionada com o desmatamento local.

Cada 10% de vegetação original derrubada numa área faz com que se perca um dia da estação chuvosa, mesmo quando outros fatores são levados em conta, calculam os pesquisadores. O efeito em trechos muito desmatados, portanto, é substancial.

Ninguém deveria ficar surpreso com esse fato. Sabe-se há muito que a intensa “transpiração” das florestas alimenta o ciclo das chuvas. Além disso, as árvores emitem moléculas orgânicas e outros pequenos fragmentos de vegetação que servem de núcleos em torno dos quais as gotas d’água condensam e as nuvens se formam. Sem mata, há menos nuvens e menos chuva. Não é à toa que Costa e outros colegas, em artigo no periódico Frontiers in EcologyandtheEnvironment, argumentam que é do interesse do agronegócio reforçar a proteção às matas da região.

Enquanto isso, porém, representantes da banda mais bovina do setor assistem enlevados a palestras de um dos mais notórios negacionistas do clima do Brasil, segundo o qual não haveria relação alguma entre florestas e chuva. (Recuso-me a mencionar o nome do esconjurado neste espaço, nem que seja pelo princípio de que diminuem as chances de o Capeta aparecer quando evitamos chamá-lo.)

É humano, demasiado humano desejar que as consequências por esse ato lunático de autoengano recaiam sobre as cabeças de quem anda ingerindo negacionismo, e sobre as dos seus filhos e netos. No entanto, como os filhos e netos de muito mais gente também estão sob a mesma ameaça, convém engolir quaisquer desejos de vingança e fazer de tudo para que a mensagem trazida pelos dados científicos seja enfim levada em conta.

Amazônia

Gado anda em meio a região desmatada da Amazônia Nacho Doce/Reuters

Gado em pasto de fazenda próxima a Alta Floresta, em Mato Grosso Lalo de Almeida/Folhapress

Gado anda em meio a região desmatada da Amazônia Nacho Doce/Reuters

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de12/01/2020.
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