O Brasil, do ponto de vista da indústria cultural, é um País concentrador. Como a França, que tem Paris como epicentro cultural e político, a capital cultural do Brasil é o Rio de Janeiro, embora a cidade maravilhosa não mais exerça influência política. Para o bem e para o mal assim se formou o nosso País. Há, é claro, a presença de São Paulo, a província mais rica da América do Sul maior mercado de consumidores culturais do Brasil, e que por isso se outorga parte de um eixo Rio/São Paulo. A verdade é que o Rio de Janeiro ainda é a capital cultural do Brasil, o lugar em que os talentos se tornam nacionais e as carreiras ele sucesso são referendadas. E os outros estados, há vida inteligente? Os estados brasileiros sempre contribuíram para as artes nacionais. Na literatura, nas artes visuais, no Cinema, na arquitetura, nas artes cênicas, em todos os campos, artistas de todos os estados se afirmaram como talentos nacionais e ajudaram a construir a cultura nacional. O que não quer dizer que a produção cultural não enfrente problemas sérios, e cada um desses artistas não tenham sido obrigados a superar grandes obstáculos. Porque tudo depende do grau de desenvolvimento das políticas culturais de cada estado. Especialmente num país em que não há uma atribuição de responsabilidades entre autoridades municipais, estaduais e federais.

Um dos problemas mais graves, que acomete a maioria dos estados brasileiros, é que seus programas culturais são escravizados pelos interesses políticos mesquinhos, quase sempre dominados pelo populismo, escoando os recursos em eventos que não deixam nada.

Essas secretarias de cultura gastam suas verbas contratando trios elétricos e cantores bregas, na ilusão de estarem saciando o gosto popular. No fundo, estão refletindo o baixo nível de nossa administração públicas e perpetuando a precariedade de nosso sistema educacional. Como todos esses percalços, poucos são os estados, como o Amazonas, que mantêm há mais de três décadas uma política cultural clara, diversificada, que se esforça para ser plural, atende aos artistas e grupos culturais, mas tem como alvo o público amazonense. Os investimentos alocados pelo governo amazonense não caíram no vazio, e nem desapareceram no sumidouro dos eventos. Em uma geração o Amazonas ganhou uma orquestra de grande expressividade, a Amazonas Filarmônica, e mais três orquestras sinfônicas, além de uma orquestra de Jazz e conjuntos de câmara.

Provavelmente a cidade de Manaus hoje seja o maior centro musical do País, com uma nova geração de instrumentistas, cantores e regentes, que vão se formando e crescendo junto com Festival de Amazonas de Ópera, que já vai para o seu décimo sétimo ano. E não apenas na música, mas em outros campos, como a literatura, em que os autores são incentivados com bolsas de trabalho. É claro que nenhum estado está livre das mazelas nacionais, como o baixo índice de escolaridade, o dilaceramento cultural provocado pela migração interna das massas miseráveis e o alto índice de analfabetismo. Se de um lado há uma crescente consciência profissional por parte dos artistas, que cada vez mais entendem que o fazer artístico é um trabalho, que exige formação, investimentos e mercado, as políticas culturais oficiais das prefeituras do interior do estado continuam em grande parte indigentes. Por isso mesmo é que grandes eventos internacionais, como o Congresso Mundial de Teatro, que poderá transformar Manaus na Capital Mundial das Artes Cênicas em 2016, poderá ajudar a abrir as cabeças das autoridades e desprovincianizar a produção artística, pela troca de experiências e o encontro com a diversidade cultural do mundo. Manaus é uma prova de que há vida inteligente bem distante do Rio e São Paulo, e talvez assim seja por estarmos longe do sul, mas não distantes ou isolados de nada.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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