“O ‘Ganso do Capitólio’, como Plínio era chamado, esmiuçou sua vida financeira para prestar contas sob o título de ‘0 Povo Amazonense’.

Nos últimos anos tenho dedicado as minhas horas mais ou menos feriadas para pesquisar a vida e a obra de personalidades da história do Amazonas. Eduardo Ribeiro, Jonas da Silva, e Adriano Jorge já renderam três livros; Álvaro Maia está em fase de pesquisa praticamente concluída; Trabalhismo no Amazonas, em ajustes e revisão; Plínio Coelho em tempo de leitura, e penso seguir incluindo’ Arthur Reis e outras figuras igualmente exponenciais. Será minha contribuição nesse importante campo do conhecimento.

E foi exatamente na pesquisa sobre o ex-governador, professor, advogado, político e procurador fazendário Plinio Ramos Coelho que constatei a prática de uma conduta audaciosa, corajosa e definitiva de prestar contas de sua vida pessoal diante da opinião pública, bastante, apropriada, para esmagar qualquer suspeita de corrupção ou prática delituosa, especialmente em tempos nos quais os sistemas de controle da Administração Pública eram modestos ou praticamente inexistentes. Havia feito a mesma coisa em 1954 ao assumir o cargo de governador.

Muito bem avaliado pela população, realizando um governo moderno, diferente, imprimindo ritmo frenético na Administração, firme em seus propósitos, diante do cenário da época fez com que o Estado se transformasse no grande impulsionador da economia local criando companhias com capital público para a prestação de serviços inadiáveis como transporte coletivo, olaria, banco público, alimentos, distribuição de energia, fábrica de papel e celulose, estradas e rodagem, etc…

Corria o ano de 1957 e o governador caminhava para o desfecho de sua gestão, indicação de substituto e possível candidatura a outro cargo eleito, visto não haver reeleição.

Líder carismático, orador fluente, mobilizador das massas, responsável por mudança radical no governo e na seara político-partidária, comandante do trabalhismo, Plínio passou a sofrer ataques por setores da imprensa quanto à aquisição de bens para sua propriedade e de sua família.

Não contou conversa, fez publicar carta pessoal, datada e assinada, com detalhamento minucioso das aquisições que fizera, a forma de pagamento, valores, origem dos recursos e linhas de financiamento bancário de que se utilizara para tais compras.

Contestou uma a uma as acusações é suspeições que vinham sendo alardeadas como favorecimento pessoal.

O “Ganso do Capitólio”, corno Plínio era chamado, esmiuçou sua vida financeira para prestar contas sob o título de “Ao Povo Amazonense”, em nota publicada na primeira página do Jornal do Comércio de 18 de maio de 1957 na qual afirmou:

“Entendo que o homem público deve prestar contas ao povo não somente de seus atos públicos …, mas também, e por igual, dos atos particulares respeitantes aos bens que possui ou vier a possuir …”.

Prosseguindo, explicou que a aquisição da casa da Av. Sete de Setembro, antiga sede da emissora de rádio “Voz da Bariceia”, de propriedade de Lizardo Rodrigues, por um milhão e duzentos mil cruzeiros, o fez por empréstimo ao Banco da Lavoura dando como garantia uma casa na Av. Getúlio Vargas, 811, um carro Austin e um terreno no Retiro dos Bandeirantes, bens já declarados antes de 1954; o terreno que adquiriu de Florípedes Rodrigues Cardoso, com barracão de madeira coberto de zinco no Parque 10 de Novembro, por 30 mil cruzeiros, o fez com saldo do mesmo empréstimo do Banco da Lavoura, e o que guardara de reservas para pintura da casa; e a compra da biblioteca do escritor João Leda, por 80 mil cruzeiros, quando valia muito mais, para pagar com aumento de seu salário de governador.

E concluiu: “fique o povo, pois, informado de que todas as compras que eu fizer serão levadas por mim mesmo ao seu conhecimento e as que não forem por mim declaradas publicamente, mas que forem cochichadas nas esquinas, bares, salões ou cinemas, não serão verdadeiras”.

Não poderia haver desafio mais corajoso, naturalmente porque nada temia.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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