Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

O ethos linguístico das redes sociais deixou o debate público burro e covarde.

Há muito que a atividade do pensamento é uma atividade de risco. Existe uma pauta que paira sobre nossa cabeça: pensar de modo correto, apoiar as causas corretas, do contrário você será objeto de cancelamento, linchamento, perda de espaço profissional e de amigos.

De todos os vícios, o mais adaptativo é a covardia. A fúria pra se provar “corretx” nunca foi tão furiosa. Com as redes sociais, o mundo do pensamento ficou mais burro, tecnicamente falando: o ethos das redes é ter uma linguagem agressiva, infantil, pobre e polarizada. Isso engaja.

Para emitir uma opinião que não apresente tais características, você tem que ter um pouquinho da coragem de um Churchill, um Colombo, um Stálin ou um Borba Gato. Mas, figuras como essas são de difícil compreensão para uma mente cunhada numa linguagem agressiva, infantil, pobre e polarizada. Diga-me como falas e te direi quem és. Dizendo numa linguagem técnica: o ethos linguístico das redes sociais deixou o debate público burro e covarde.

Exemplos claros desse tipo de linguagem do ethos de redes sociais (que contaminou o jornalismo, a política e a gestão pública). Se você critica o inapto governo Bolsonaro você é “comunista!” (de todos os xingamentos atuais, o mais chique, afinal, Lênin, Stálin e Trotsky tinham charme no seu estilo de massacrar pessoas em nome da causa do bem social); “fascista!”, se você critica a gangue do PT; “racista!” (hoje o xingamento mais mortal), se você critica, em nome do patrimônio histórico, o ato de derrubar estátuas.

Mas, a irracionalidade corretamente motivada está nas ruas. Se você quer abrir o comércio, algum cientista de ocasião dirá que você é ganancioso. Se você se aglomerar no mundo inteiro aos milhares por uma causa justa (combater o racismo e a violência policial é uma causa justa), o cientista de ocasião dirá que nesse caso pode. O gestor público dará autorização oficial e a mídia, sua bênção moral. Afinal, só escrotos não são contra o racismo hoje.

O que alguém minimamente normal pensará no silêncio de sua solidão confinada? A epidemia é, afinal de contas, mais política do que viral. Por quê? Óbvio: ganancioso passa vírus e mata o outro, bem-intencionado politicamente não passa vírus e não mata o outro.

Ou: entendi! Existem causas pelas quais vale morrer! Mesmo que seja matando alguém que nada tinha a ver com ela. A velha ética das guerras. Que os cientistas de ocasião cessem os pedidos universais por confinamento e determinem de uma vez o que vale acima da epidemia.

O que faz o coitado do jornalista ou do intelectual público? Trai a contradição epidemiológica clara do cientista de ocasião, do gestor público e da mídia? Diz que destruir estátuas (patrimônio histórico) é coisa de gente ignorante? Ou põe o rabo entre as pernas e repete as frases, análises e julgamentos adaptados ao mercado das profissões e eleições?

O rabo entre as pernas deveria ser objeto de algum escultor que fizesse uma estátua em homenagem a essa atitude que é a mais adaptada da história do mundo.

Em 1918, na Filadélfia, creio, uma manifestação em meio à Espanhola para motivar os jovens americanos que iam lutar contra os cruéis alemães ampliou o número de mortos pela gripe na semana seguinte.

Pergunta: será que alguns dos cientistas de ocasião terão um pouquinho da coragem do Churchill, do Colombo, do Stálin e do Borba Gato para investigar em que medida as manifestações contra o racismo (sem dúvida justificáveis politicamente) espalharam mais o coronavírus? Duvido. O ethos hoje é covarde em sua essência.

Que tal queimar os livros do Rousseau ou Voltaire, já que eles, aparentemente, investiram, em algum momento, no tráfico de escravos? Ou mesmo derrubar o Coliseu porque ali escravos gladiadores se matavam enquanto o “povo” entrava em êxtase? Ou queimar os livros de Marx, já que ele, ainda que judeu, fosse um antissemita convicto? Ou destruir todas as estátuas gregas e as pirâmides do Egito, já que ali todos os ricos viviam às custas dos escravos? O que nos dizem os historiadores de ocasião?

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 14/06/2020.
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