Fabiano Maisonnave
*Fabiano Maisonnave

Vídeo que promove mineração e cassinos na região mostra Joenia Wapichana (Rede-RR) sem autorização; deputado amazonense pede desculpas.

Dois deputados da Assembleia Legislativa do Amazonas usaram indevidamente a imagem da deputada federal Joenia Wapichana (Rede-RR) em vídeo que promove propostas bolsonaristas para a Amazônia, como a mineração em terras indígenas e cassinos. A parlamentar indígena é uma das principais opositoras à agenda do Planalto para a área.

Com o mote de “desenvolver e preservar”, a peça publicitária encampa a agenda do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para a região, como a expansão do agronegócio, a exploração do nióbio e a pavimentação da BR-319 (Manaus-Porto Velho), tida como uma das principais ameaças à floresta amazônica por pesquisadores e ambientalistas e sem o licenciamento ambiental concluído.

“Bolsonaro defende um desenvolvimento que não é a realidade da Amazônia”, afirmou Joenia, após ser informada pela Folha sobre o vídeo. “Meu trabalho é para a proteção dos direitos humanos, do direito ambiental e dos povos amazônicos. Não autorizei a minha imagem para qualquer propaganda de governo, uma vez que eu tenho clara e pública a minha posição em relação ao governo Bolsonaro.”

Uma das propostas defendidas pelo vídeo, que tem subtítulos em inglês e circula em grupos de WhatsApp, é a legalização de cassinos com o objetivo de “desenvolver a região e expandir o turismo no país”. Enquanto o narrador fala, aparecem indígenas dançando em trajes tradicionais.

A legalização dos cassinos na Amazônia tem sido articulada por dois filhos de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo (PSL-SP) e o senador Flávio (Republicanos-RJ). Em setembro, os dois estiveram em Manaus e trataram do tema.

“O que nós ouvimos em Las Vegas é que há um grande interesse que esses grandes players do turismo invistam pesado nessa área em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas”, disse Flávio, em evento para a “retomada turística” no estado.

Ao abordar a BR-174 (Manaus-Boa Vista), o vídeo dá uma informação falsa ao afirmar que “há restrições para o tráfego no trecho que corta a reserva indígena [waimiri-atroari], o que impede a circulação de mercadorias pela rodovia”.

Na verdade, a restrição ao tráfego automotivo ocorre entre as 18h e as 6h para proteger animais de hábitos noturnos e reduzir os impactos ambientais socioambientais no povo waimiri-atroari, quase dizimados durante a construção da rodovia pela ditadura militar, nos anos 1970. Mas não há qualquer regulamentação sobre o tipo de mercadoria transportada.

A peça ressuscita a exploração de nióbio na Terra Indígena Balaio, no noroeste do Amazonas. O tema era uma obsessão de Bolsonaro na época de deputado federal e durante a campanha de 2018, mas ele o deixou de lado após eleito. Há um consenso entre especialistas de que o nível de produção atual de nióbio é capaz de suprir a demanda mundial por alguns séculos, sem a necessidade de novas jazidas.

Há também um pronunciamento de Bolsonaro sobre a região: “Para proteger a Amazônia, não bastam operações de fiscalização, comando e controle. É preciso dar oportunidade a toda essa população para que se desenvolva junto com o restante do país”, diz o presidente.

Mineração ilegal na Amazônia

Atividade ilícita em La Pampa, na Amazônia peruana Oscar Mujica

A imagem de Joenia aparece associada ao Programa Mais Luz para a Amazônia (MLA), do governo federal, que prevê o uso de energia solar em lugares remotos.

Ela não é identificada por nome ou cargo. O vídeo original, intitulado “Floresta Iluminada”, foi produzido pelo Instituto Socioambiental (ISA) na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Desde 2019, essa região sofre com uma onda de garimpos ilegais surgidos em meio a promessas de Bolsonaro de legalizá-los.

TRÊS GERAÇÕES

A peça publicitária traz o nome do ex-presidente da Assembleia Josué Neto (Patriota), que deixou o comando do Parlamento estadual em 1º de fevereiro. Em abril, ele assumirá o lugar do pai, Josué Filho, que está se aposentando como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Amazonas. Seu avô também foi parlamentar e conselheiro do órgão. O cargo é vitalício.

Em 2019, Josué Neto trabalhou para a criação do Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro tentou fundar após a sua desfiliação do PSL.

O outro deputado que subscreve o vídeo é Fausto Júnior (MDB). O parlamentar também tem um dos pais no TCE, a conselheira Yara Lins dos Santos.

Via mensagem de celular, Josué Neto afirmou que o vídeo “é de minha 100% e total responsabilidade” e que não conhecia a deputada indígena até ser procurado pela reportagem da Folha. “Estou sabendo disso nesse momento. Devo um pedido de desculpas a ela.”

Sobre o teor do vídeo, o parlamentar afirmou: “Nós precisamos procurar desenvolver nossas riquezas e levar emprego e cidadania aos povos da Amazônia: interioranos, ribeirinhos e quando da vontade dos povos indígenas, que têm suas necessidades individualizadas a partir de cada região e etnia”.

Ele afirmou que não defende a mineração em área indígena. “A defesa é a mineração na Amazônia de forma sustentável.”​

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 02/03/2021.
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