*Silas Martí

Famosa por documentar a vida dos índios nos anos 1970 e 1980, Claudia Andujar volta à floresta para criar série que será exposta em novo pavilhão no Inhotim

Quando Claudia Andujar primeiro teve contato com uma tribo de índios na Amazônia, a fotógrafa conta que nunca tinham visto uma mulher branca. “Eles não sabiam se eu era homem ou mulher, queriam me apalpar”, lembra. “Mas não eram desconfiados. Isso era espontâneo, acontecia com gentileza.”

Mais de quatro décadas depois da primeira visita à selva, Andujar, 82, acaba de voltar à reserva dos ianomâmi, um território que se estende por Roraima e Amazonas na fronteira com a Venezuela.

Nas terras que ajudou a demarcar, deu de cara com índios hiperorganizados, que viajam de táxi aéreo e armam enormes assembleias para defender seus interesses.

“Fiquei muito surpresa com isso”, conta Andujar, que não voltava à Amazônia havia dez anos. “Nunca vi tantos ianomâmis juntos.”

Nem havia fotografado a face moderna da tribo. Andujar agora pretende mostrar suas novas imagens, em cores, ao lado dos já clássicos retratos em preto e branco da tribo, num novo pavilhão dedicado à sua obra, que o Instituto Inhotim, no interior mineiro, inaugura em setembro.

Será o maior conjunto de sua obra já exibido, com mais de cem imagens de “Marcados”, sua série mais célebre, em que retratou os ianomâmi com números de identificação para uma campanha de vacinação nos anos 1980.

“Naquela época, eu nem pensava em mostrar isso como arte”, diz Andujar. “Esse projeto começou porque tínhamos de ir de aldeia em aldeia para para pegar os dados das pessoas, e eu fui fazendo os retratos delas.”

HOLOCAUSTO DOS ÍNDIOS

Só mais de 20 anos depois é que os “Marcados” ganharam a relevância atual, quando a série foi exposta na Bienal de São Paulo em 2006. Foi então que Andujar, suíça de família judia que fugiu do Holocausto e se radicou no Brasil em 1955, fez a leitura mais contundente desses retratos.

“Quando mandavam os judeus para os guetos, também marcavam todos eles com números. Minha família paterna, que era toda de judeus, foi parar nos campos de concentração”, lembra. “Não sobrou ninguém. Só eu, porque minha mãe não era judia.”

No caso dos índios, o horror era outro, mas tão assombroso para ela quanto o genocídio comandado pelos nazistas. Andujar estava na Amazônia quando a construção da Perimetral Norte, estrada iniciada em 1971 e nunca concluída, levou brancos e suas enfermidades a tribos antes intocadas, sem imunidade a doenças comuns.

“Aldeias inteiras foram dizimadas”, diz Andujar. “Fiquei chocada. Isso me atingiu de um jeito tão profundo que decidi lutar para defender os índios dessa agressão.”

Mas três anos antes de fotografar os “Marcados” ao mesmo tempo em que vacinavam os índios, Andujar sofreu uma das maiores derrotas nessa briga. “Numa dessas viagens, depois de andar cinco dias a pé em Roirama, encontramos um desastre, uma aldeia onde a maioria dos índios já estava morta.”

Logo depois, Andujar conta que os militares no poder deram ordens para que ela fosse expulsa da Amazônia. Segundo a artista, tinham medo que uma “gringa” denunciasse o país por violações de direitos humanos.

“Fui muito perseguida. Deixei de lado meu trabalho porque estava fora de mim”, conta. “Não sabia mais o que fazer com a minha vida.”

Nesse tempo longe da selva, Andujar conseguiu mobilizar a opinião pública a favor da causa dos índios, um esforço que culminou na demarcação da reserva ianomâmi em 1992, que só foi possível pelos mapas da região que ela havia feito nas viagens.

“Ninguém na época conhecia esse território. Foi às escondidas que elaborei esse projeto”, diz Andujar. “Então o governo me pediu os dados para que pudessem estabelecer os limites do território.”

Seu retorno à Amazônia agora parece fechar um ciclo que começou com o encanto de uma estrangeira diante de um território virgem e terminou com uma história de ativismo que durou uma vida.

*Articulista da Folha de São Paulo. Artigo na Edição de 11/02/2014.
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