*Mario Sabino

No balanço parcial das manifestações juvenis que varrem as ruas brasileiras, uma das boas baixas foi a mentira que prosperava no exterior, por causa da visão preguiçosa dos correspondentes estrangeiros — a de que o país estava às portas do Primeiro Mundo, não mais na condição de pedinte. Era com espanto que os (poucos) curiosos em relação ao Brasil recebiam, na Europa, a informação de que não era exata aquela história do Cristo Redentor decolando como foguete, para ficar na capa famosa da revista inglesa The Economist. O Brasil avançara? Sem dúvida. Mas menos pelas nossas qualidades do que pela conjuntura favorável e pela inércia natural que faz com que o amanhã seja melhor do que ontem nas latitudes onde tudo já esteve pior do que nunca.

As manifestações puseram óculos nos jornalistas internacionais. Enxerga-se, agora, que o nosso crescimento não passa de transtorno dismórfico coletivo. Que o tamanho absoluto do PIB é produto de uma ficção cambial. Que a escalada da “nova classe média” acontece de dez em dez prestações.

Que nosso nível educacional só seria piada se fôssemos capazes de enten-dê-la. Que os miseráveis ascenderam socialmente — mas à condição de pobres alimentados por programas de esmola com dinheiro público. Que as nossas cidades são de uma esqualidez vergonhosa. Que a frase do historiador latino Tácito nos cai à perfeição: em uma República muito corrupta, numerosas são as leis.

Eles não queriam ver e nós custamos a crer. A perda de contato com a realidade paralisou as consciências no Brasil, de maneira patológica, mesmo se se descontar a perturbada psicologia nacional. Chegamos a esse ponto através da substituição da propaganda da política pela propaganda política. Por propaganda da política, entenda-se a divulgação de ideários que exigem a tomada de posições, os conflitos e a negociação no âmbito institucional — compreendida como a busca de consensos que permitam à nação progredir na totalidade. Esse fundamento, nunca inteiramente assimilado pelos brasileiros, foi subvertido pela propaganda política, cuja essência é o discurso que só prevê a supressão do que lhe é contrário. Os mais adestrados no recurso, está óbvio, são os ditadores. No Brasil, a presença de um líder deletério, embora não tenha sido suficiente para deletar as instituições, enfraqueceu-as tanto que hoje elas se acham quase sem peso específico. O fenômeno ocorreu com o concurso do marketing personalista e a troca da negociação pela negociata. Os eventuais oponentes também se autoanularam. por motivos que apontam na direção do raquitismo das convicções e da falta de responsabilidade, o que inclui desonestidade. A oposição só renasce fugazmente durante as campanhas eleitorais.

Quando escasseia a propaganda da política e sobra a propaganda política, o vácuo se instaura — um tipo de vácuo em que, à diferença do espacial, a combustão é possível. Longe de ser colusão com a tentativa de ninjas, najas, jibóias e cascavéis de instrumentalizá-las, constate-se que as manifestações espocaram nesse contexto. Acusam-se os participantes de rejeitar a política. Aplicam-lhes o rótulo de “fascistas”, corno se houvesse uma agenda autoritária a dirigir a maioria. A verdade, no entanto, é que as suas demonstrações são fruto da refutação da política pelos próprios políticos. Como exigir de jovens crescidos na audiência de disputas por butins que façam o elogio da representação democrática? As indignações antipolíticas não explodiram por excesso de política, mas por ausência dela. ainda que isso soe paradoxal.

A juventude brasileira não sabe o que é política, e outra vez a culpa é dos políticos. Eles transpuseram todas as fronteiras da decência. Agora, diante da exposição das nossas fragilidades, não conseguem simular dedicação a interesses que ultrapassem o comprimento das hélices dos seus helicópteros. Desconhecem que. até nos regimes absolutos, um governante tem de evitar o ódio do povo — e o melhor modo de fazê-lo é abster-se de apropriar-se da propriedade alheia. Surpreendidos pelas ondas de choque juvenis, correm para aprovar leis demagógicas, ignorando que não há legislação capaz de frear a corrupção se ela não é precedida pelos bons costumes.

Os políticos brasileiros desconhecem e ignoram, enfim, o que escreveu Niccolò Machiavelli, no século XVI, muito antes do nascimento da democracia moderna, no rastro das fúrias populares do seu tempo e da Antiguidade do historiador Tácito. Em meio ao tumulto, ninguém faz ideia de por onde começar a pôr a casa em ordem. Mas começar logo é imperativo. Para que a decolagem do Brasil não dê chabu, seja mais do que um truque gráfico, e os correspondentes estrangeiros tirem os óculos e voltem a relaxar, a propaganda política precisa dar lugar, com urgência, à propaganda da política. Das ruas às urnas, das urnas às ruas.

 * Jornalista. Articulista da Revista Veja, edição de 12/08/2013.
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