Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Às vezes, fico com a sensação de que estou preso na cela em que atendo.

Já passava das 14h quando Maria das Dores entrou. Era a quinta paciente que vinha para consulta sem estar agendada.

Dia de atendimento na cadeia é feito coração de mãe. Às vezes, fico com a sensação de que estou preso na cela em que atendo, na Penitenciária Feminina de São Paulo.

A robustez envelhecida do prontuário médico deixava claro que se tratava de uma prisioneira da categoria “patrimônio público”. Num ambiente em que condenações de cinco ou seis anos são consideradas “cadeia de poeta”, para ser enquadrada no grupo “patrimônio” é preciso receber penas superiores a 20 anos ou ter múltiplas passagens.

Eu estava com fome e de mau humor, estado de espírito que ela desarmou com um sorriso delicado e o pedido de desculpas pela intromissão, motivada por uma amigdalite que diagnostiquei em menos de cinco minutos.

Quando terminei de preencher a prescrição, ela levantou para sair. Estranhei. Carentes de atenção, mulheres na cadeia costumam ser poli-queixosas, mal o médico acaba de resolver um problema, vem uma enxurrada de outros – dores nas costas, enxaqueca, queda de cabelo, manchas na pele, irregularidades menstruais, insônia, vista cansada, vácuo no estômago e uma infinidade de achaques não descritos nos livros de medicina.

Perguntei há quantos anos estava na prisão. Respondeu que havia cumprido 12 de uma pena de 36. Pedi que sentasse.

Contou que o nome lhe foi dado em pagamento à promessa que a mãe fizera para Nossa Senhora do Bom Parto aliviar as dores horríveis ao dá-la à luz, num vilarejo próximo a Quixadá, no sertão cearense.

Considerava inútil o nome Maria, jamais utilizado pela família ou pelas pessoas que veio a conhecer.

Aos 11 anos, foi mandada para a casa de uma tia, em São Paulo, para afastá-la do escândalo familiar causado pelo avô paterno, que a estuprou.

Na zona leste, com a tia e duas primas, pôde estudar até conseguir emprego num escritório de advocacia que, anos mais tarde, possibilitaria a compra de uma casa vizinha à das primas, quando se casaram. Ela continuou solteira: “Pra mim, homem sempre foi coisa meio nojenta, quando chegavam perto eu me sentia mal”.

As primas tiveram três filhas que fizeram a felicidade da “tia” Das Dores, sempre disposta a vê-las e a ficar com elas, quando os pais saíam. “Tinha paixão por aquelas crianças, mais do que se fossem minhas filhas. Queria me ver feliz, era me deixar com elas.”

A tragédia aconteceu no dia em que uma das primas pediu para Das Dores voltar mais cedo do trabalho, para fazer companhia à filha de nove anos que estava para chegar da escola.

A casa da prima estava fechada. Ela achou que a menina ainda não tinha chegado. Enquanto procurava a chave na bolsa, ouviu um choro abafado que vinha do quarto.

Encontrou a sobrinha encolhida na cama com os lençóis revirados e as mãos entre as pernas, sobre uma poça de sangue.

“A hemorragia foi tanta que quando ficou em pé, desmaiou.”

Desesperada, ligou para o resgate, que levou a criança para o pronto-socorro. Depois de duas horas de cirurgia e uma transfusão de sangue, a menina contou que fora violentada por dois irmãos que moravam no caminho da escola. Das Dores fez a criança jurar que não revelaria a identidade dos dois para mais ninguém, nem para os pais.

No mesmo dia, ela se apresentou a um traficante da vizinhança, para comprar um revólver.

Vigiou a casa dos agressores durante horas. Viu o primeiro homem chegar do trabalho, e esperou pelo segundo, que não tardou.

No portão, interpelou-o com voz doce. Disse que o observava havia algum tempo e que se sentia atraída por ele. Conversaram por alguns minutos, até ser convidada para entrar. “Homem é bicho idiota, cai na primeira conversa de mulher.”

O amigo estava no fogão. Foram apresentados. Ela tem certeza de que viu uma calça manchada de sangue num balde com água, atrás da porta do banheiro. Pediu um copo de cerveja. O primeiro caiu sobre o fogão; o outro, junto à porta da geladeira.

Na manhã seguinte, Das Dores foi ao Instituto Médico Legal. Identificou-se como uma parente encarregada de reconhecer os mortos. O funcionário retirou-os da geladeira e se afastou, em respeito. Ela abriu a bolsa, pegou o vidro com gasolina, esparramou sobre os corpos e ateou fogo, antes que o funcionário estupefato pudesse impedir.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 24/11/2019.
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