Um dos ditados populares para mim dos mais enigmáticos é aquele que diz que há males que em para o bem. A realização de quatro jogos da Copa do Mundo em Manaus provou que a sabedoria popular é imbatível.

Aqui o mal nos salvou. A gula dos políticos pelos borbotões de dinheiro que o evento movimentaria aliada à incompetência proverbial dessa gente salvou Manaus de vários desastres urbanos. Alguns gozadores alfinetaram os administradores públicos anunciando uma fictícia inauguração do monotrilho. Na verdade deveríamos comemorar a não construção do monotrilho, que não aconteceu por pura incompetência dos interessados. A luta de alguns cidadãos conscientes conseguiu promover o tombamento do centro histórico da cidade, que seria dizimado para dar passagem ao mostrengo bilionário. Só a dinheirama que seria desviada com as desapropriações, estratégia semelhante à demolição do Vivaldão, já faria a alegria de muita caixinha dois de futuras campanhas eleitorais. Mas não pensem que o tombamento pelo IPHAN foto que impediu a negociata e entravou os interesses mais medonhos, começando pela empresa mala que quebrou antes de concluir o projeto em Kuala Lumpur, e andou procurando pelo planeta políticos capazes de se interessar por uma boa negociata. A soma de Brasil, Copa e tradição de maracutaias caíram como sopa do mel. Entrou em campo, também, representantes da honorável máfia italiana com naturalidade napolitana, e tudo parecia voarem céu azul de brigadeiro. Apesar de haver melhores opções de transporte público de massas, por razões tão óbvias que só os interesses mais escusos não enxergavam, insistiu-se no monotrilho. Para início de conversa, o nó da questão de qualquer grande sistema público de transporte, sem exceção, é a necessidade de plataformas de embarque. Quem é condenado a usar o transporte público que a máfia paranaense oferece, sabe dos problemas que essas paradas apresentam. Cada uma delas precisaria dar acesso aos deficientes e pessoas como problemas de locomoção, famílias com carrinhos de bebé, gente com muitas sacolas e pacotes de compras, escadas rolantes e elevadores para dar conforto ao usuário. Ou seja, uma malha de transporte público é algo muito caro, o que limita o seu número frequência. Essa realidade já poria abaixo a suposta vantagem do monotrilho de correr mais rápido por não ter nenhuma barreira de engarrafamento, correndo em velocidade constante no seu trilho.

Apenas no percurso proposto pelo projeto da versão baré do monotrilho, o número de estações igualaria a qualquer outro sistema em uso nas grandes cidades do mundo. Para completar, as estações do monotrilho seriam uns trambolhos pavorosos, enfeando ainda mais a paisagem urbana de nossa sofrida capital. Outro mito oferecido pelos empresários é o da vantagem de rodar nu m nível alto, mas as linhas elevadas hoje são repudiadas pelos urbanistas por degradarem irremediavelmente por onde passam, como as vias aéreas do metrô de Nova lorque, ou o Minhocão em São Paulo, que desvalorizaram brutalmente os imóveis e a degradação resiste a qualquer programa social. E a quatro metros de altura uma evacuação de emergência seria um prenúncio de tragédias. Pior, quem ficaria com a concessão do equipamento aqui em Manaus? O mesmo grupelho que mantém a cidade refém de suas ambições de lucro? O certo é que nos livramos de tudo isso, pelo menos por enquanto, mas precisamos ficar alerta. Pelo momento a incompetência de elaborar um projeto consistente, capaz de convencer os cautelosos técnicos dos bancos financiadores em pleno escândalo do mensalão, nos livrou dessa calamidade. Porém a cidade ganhou apenas uma batalha. Se monotrilho é bom para zoológicos onde a cadeia alimentar é levada a sério, a brutal fome voraz desses políticos ainda não foi saciada.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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