II

Aqui vai o testemunho referido no tópico anterior. Nasci e passei a primeira infância na beira do rio, à margem esquerda do Paraná de Serpa, onde meu pai era comerciante, vizinho à cidade amazonense de Itacoatiara. Quando viajava para visitar os seus fregueses e amigos, de canoa a remo ou à vela, algumas vezes eu ia com ele. Não eram viagens longas porque não saíamos do paraná. Não era, também, aquele paraná, um lugar assim tão selvagem que metesse medo nas pessoas. Ali ele flui, alimentando e servindo de estrada, às comunidades vizinhas à mui nobre e sereníssima cidade de Itacoatiara, antiga Serpa, nome emprestado à portuguesa Vila de Serpa, província do Alentejo que visitei quando estive em Portugal por volta dos anos 1980. A cidade de Itacoatiara fica perto da entrada de cima desse paraná.

Esse nome foi legado, também, a um lago e é uma palavra popular por aquela redondeza. O velho paraná é geralmente muito habitado na margem esquerda. Do outro lado, na margem direita, fica a Ilha do Risco, nesga de várzea baixa que forma o Paraná de Serpa, pois os paranás são uns acidentes geográficos típicos da Amazônia, braços de rios que nascem e deságuam no mesmo rio, formando uma ilha, geralmente de várzea baixa, sujeita a alagações periódicas. A Ilha do Risco, por ser muito baixa, é invadida pelas águas todos os anos, quer sejam grandes, quer sejam pequenas as enchentes do rio.

A Ilha do Risco demorou a ser habitado como está hoje, porque além das enchentes anuais, as suas barrancas sofrem, no fim das secas, quando as águas já estão subindo, o fenômeno das terras caídas. As terras caídas acontecem com estrondos assustadores e levam, em roldão, árvores, casas e benfeitorias, alagando no porto as pequenas embarcações. De noite, seu terror é maior. Os alincornes que são aves diurnas acordam e soltam o canto metálico e muito mais lúgubre na solidão das noites, assustados com o barulho do desmoronamento das ribanceiras.

Saíamos do Paraná de Serpa, nos tempos da seca, para ir à praia que se exibia na calha central do rio Amazonas, do outro lado da ilha, formando um tabuleiro de tartarugas que o comerciante Elesbão Farias, meu pai, administrou durante alguns anos, nomeado pelo Ministério da Agricultura, função definida como serviços relevantes, isto é, sem remuneração de qualquer espécie.

As tartarugas são diferentes dos outros quelônios, dos iaçás ou pitius ou tracajás. Estes bichos de casco desovam em qualquer beirada de rio, no barro ou na areia. Ali eles cavam os buracos e lhes depositam os ovos com a maior displicência do mundo. As tartarugas, não. Estas só desovam nos tabuleiros.

Conta o povo, na sua inefável sabedoria, que, ao saírem as praias, o macho da tartaruga, chamado capitari, escolhe a mais bonita e larga, e ali faz a demarcação do tabuleiro, geralmente nas pontas de areia. Sobe d’água e sai riscando com o rabo os limites da praia onde as suas companheiras devem desovar. O capitari é menor que as tartarugas, mas possui o rabo mais longo, para permitir-lhe desde o exercício eficiente da função de agente reprodutor, até a execução a contento do serviço de demarcador de tabuleiros…

Os comandantes de praia eram nomeados para proteger e fiscalizar os tabuleiros, impedindo que se colhessem os ovos das tartarugas ou se praticassem os atos de viração, quando elas subissem do rio ainda para desovar. Era-se tolerante com a viração na hora da descida às águas, quando já estavam devidamente desovadas.

Na viração precisa-se ter experiência. Após desovar, a tartaruga fecha a cova, alisa com o peito a areia em cima e sai correndo para dentro d’água. Se o caçador tentar agarrá-la à unha, fica sujeito a ganhar golpes profundos nas mãos, porque são afiadas as abas das carapaças que os amazônidas chamamos de cascos. Como proceder, então, para capturar uma tartaruga? Se pega uma tábua e se lhe coloca franchada na frente para atropelar a tartaruga. O ideal é que esta operação seja realizada por duas pessoas. A tartaruga tropeça e vira de peito para cima. Aí o caboclo corre para pegar outra. Mas enquanto se ocupa com uma, as outras muitas já alcançaram a beira da praia e mergulharam no rio. Nessas horas elas são muito velozes.

Depois é só pegar as cascudas viradas com jeito, peiar-lhes as patas com enviras, deixando-as imobilizadas, e carregá-las para dentro das canoas.

A nomeação de um comandante de praia, investido das funções de ordenador do movimento dos tabuleiros de tartaruga, constituía uma política preservacionista do governo mantida por algum tempo, antes dos estímulos aos criatórios de tartaruga hoje correntes na Região.

Nessas viagens, além dos nossos pareceiros caboclos e dos nossos parentes, meu pai desembarcava no porto de um espanhol e de um português. O espanhol era agricultor, plantava cacau; o português, comerciante. Na inocência dos meus cinco anos, nada me falava aquela realidade, afinal, minha preocupação maior era não ser perseguido pelos cachorros que dormiam enrolados nos buracos rasos, cavados nos terreiros daquelas casas. Os cachorros do interior gostam de correr atrás dos meninos, como se fossem dotados do humor dos implicantes, nem tanto para morder, mas no simples intuito de meter medo às crianças. Corri feito doido inúmeras vezes, perseguido por esses bichos dados a brincadeiras de mau gosto…

Sucede que ao ficar taludo, passei a me preocupar com as questões da expressão literária. Senti necessidade de interpretar aquela realidade, inquietando-me com reflexões sobre a vida daqueles homens. Suscitaram-me algumas perguntas. Por exemplo, que força poderosa teria impulsionado aquele espanhol e aquele português, a se instalarem às margens do Paraná de Serpa, um verdadeiro fim de mundo, consideradas as distâncias que os separavam das suas pátrias de origem no outro lado do Atlântico? A casa do espanhol guardava traços de uma arquitetura ancestral, construída de madeira, os esteios e os assoalhos lavrados a machado e a enxó, a cobertura de palha de babaçu. Nas paredes de taipa um relógio de pêndulo pendia marcando as horas, solenemente, sob a música dos carrilhões.

Mas nem todos eram solares sofisticados. Existiam moradias humildes que eram as habitações dos nossos pareceiros caboclos, com paredes e pisos de paxiúba, cobertas de palha de babaçu, cachorros magros que pareciam não ter ânimo nem de latir. Sovinavam alimentos a esses cães, não tanto por falta de comida, mas pelo entendimento dos seus donos de que cachorro magro é que é bom para a caça. Afirmavam eles que cachorro gordo é preguiçoso, não presta para caçar.  Por isso não existiam, naqueles rincões das moradas humildes, nem cachorros gordos nem relógio na parede, nem em lugar algum. As horas eram medidas pela posição do sol, durante o dia, e, de noite, pela situação da lua e das estrelas, observadas a olho nu.

Para mim eram vastos aqueles estirões de viagem. Remavam-se horas seguidas vendo só água e floresta. Lá pelas tantas despontava, entre os galhos das árvores lavados pelo rio, uma casa com a marca da presença do homem. Ou do homem trazendo às costas a herança da Cultura Ocidental, com o seu relógio de pêndulo marcando as horas com o som dos carrilhões na parede, ou o homem de pés descalços com os seus cachorros magros, mas bons de caça…

Esses homens construíram o universo da nossa cultura, sem jamais se desvincularem da floresta e do rio, nem os nativos dos cachorros magros, nem os adventícios dos relógios de carrilhões.

E assim foram criando as imagens que brilham na poesia e na prosa, na música e na dança, nos ritmos do canto, na luz da pintura, enfim, no modo de ser da nossa gente, nas atitudes, no comportamento, na forma de se vestir, na hora de elaborar a deliciosa cozinha, os suculentos refrescos, nos momentos consagrados ao amor.

Nota: Capítulo I da primeira parte intitulada CULTURA: a Amazônia Ocidental, do livro “Vim de igarité a remo”, edição da Academia Amazonense de Letras, Manaus, 2018.

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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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