Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Modelo da Igreja Católica medieval de núcleo com um casal e filhos tornou as pessoas menos presas a grandes grupos familiares.

O modelo de relações familiares imposto pelo cristianismo na Europa Ocidental desde o começo da Idade Média acabou moldando a psicologia de habitantes da região e seus descendentes espalhados pelo mundo, afirma um novo estudo.

Ao insistir que as famílias fossem formadas por um único casal e seus filhos, vivendo de forma independente, e ao combater casamentos entre parentes, a Igreja medieval teria ajudado os europeus a se tornarem mais capazes de cooperar com estranhos e menos presos a grandes grupos familiares do que a média da população mundial.

Publicado na edição desta semana da revista especializada Science, o modelo, desenvolvido por pesquisadores nos EUA e no Canadá, é uma tentativa ousada de explicar porque certos aspectos do perfil psicológico dos moradores de países desenvolvidos são distintos do que se vê no resto do mundo.

A diferença entre essas populações e o restante da humanidade é significativa o suficiente para que os especialistas criassem uma sigla apenas para designá-las. Trata-se do termo “Weird”, literalmente “esquisito” em inglês, mas que contém as iniciais de “ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas”.

Testes psicológicos de laboratório, que incluem tanto questionários quanto jogos econômicos e comportamentais, indicam que os membros de populações ditas “Weird” são mais individualistas, menos conformistas (ou seja, menos propensas a seguir normas sociais e autoridades sem questioná-las), confiam mais em estranhos e tendem a favorecer menos seus parentes do que povos do resto do mundo.

As raízes das diferenças entre as populações “Weird” e as demais não estão claras. Postular, por exemplo, que elas surgiram graças ao aparecimento de instituições democráticas na Europa e na América do Norte nos últimos 200 anos poderia ser visto como uma inversão da causa e do efeito, para alguns especialistas – sem uma tendência pré-existente a questionar autoridades e cooperar com estranhos em busca de um objetivo comum, a democracia não teria chegado a surgir, argumentam eles.

No novo estudo, a equipe liderada por Joseph Heinrich, do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade Harvard, realizou uma grande quantidade de análises estatísticas, cruzando dados sobre o perfil psicológico e comportamento de populações mundo afora e variáveis históricas (a influência do Império Romano ou a ascensão do cristianismo, por exemplo) e geográficas (temperatura, fertilidade do solo etc.).

Heinrich e companhia partiram do pressuposto de que certas religiões provavelmente tiveram impacto importante no aumento da complexidade política e social. Com efeito, sociedades que formaram Estados e impérios, com cooperação complexa entre seus membros, quase sempre se baseiam nos chamados “Deuses Grandes”, entidades divinas vistas como garantidoras da justiça e da ordem.

No entanto, algumas dessas religiões com “Deuses Grandes” podem reforçar elos tradicionais no interior de clãs e tribos, favorecendo o casamento entre primos de primeiro grau, por exemplo, enquanto outras defendem a chamada exogamia (uniões entre pessoas sem parentesco claro entre si).

O segundo caso foi justamente o que aconteceu na Igreja medieval do Ocidente (que deu origem tanto ao catolicismo quanto ao protestantismo na Europa), afirma o novo estudo. A partir do século 6º d.C., papas, sínodos (assembleias de bispos) e outros órgãos da Igreja promulgaram regras que transformaram cada vez mais a formação de novas famílias num assunto relativamente individualizado.

Além de combater o concubinato e a poligamia, típicos de instituições tribais, a Igreja também proibiu o levirato (no qual o irmão do marido morto é obrigado a se casar com a viúva) e instituiu regras de incesto cada vez mais estritas. Chegou a barrar, por exemplo, casamentos entre primos de sexto grau ou entre “parentes espirituais” (uniões entre o filho de uma madrinha e a afilhada dela, por exemplo). As normas eclesiásticas também costumavam exigir que os recém-casados se mudassem para outra casa, hábito conhecido como residência neolocal.

“Os dados estatísticos mostram que, por volta do ano de 1500, já está estabelecido o que os historiadores chamam de padrão de casamentos europeu, formado por famílias nucleares monogâmicas. Dados menos quantitativos sugerem que o mesmo já valia para algumas regiões europeias séculos antes disso”, disse Heinrich à Folha.

Ocorre que há uma associação estatística estreita entre a presença das características “Weird” e o tempo de presença da Igreja nas diferentes regiões da Europa, segundo a análise conduzida pelo grupo. Isso vale tanto para o que se vê no nível dos países quanto no de regiões geográficas menores do continente, dentro das fronteiras nacionais de hoje – 440 foram usadas na análise. Ou seja, quanto maior o “tempo de exposição” às medidas da Igreja, maior a presença dos traços psicológicos “Weird”.

É claro que a associação, embora forte, não é perfeita. A correlação média entre o “efeito cristão” e esses padrões, calculam os cientistas, é de 0,63. Isso indica que não se trata do único fator em jogo que levou ao surgimento da personalidade “Weird” – se fosse, a correlação seria de 1 (o equivalente a 100%).

Os mecanismos por trás do processo também não estão totalmente claros. Heinrich diz que faz sentido imaginar que se trata de um efeito colateral. Ou seja, a Igreja medieval promulgou suas regras com o objetivo de evitar incestos e relacionamentos considerados imorais, mas a estrutura social que surgiu com essas medidas acabou enfraquecendo laços tribais e elos entre famílias estendidas, o que, indiretamente, estimulou o individualismo e as conexões sociais entre não parentes. Em 2020, o pesquisador de Harvard deve publicar um livro sobre os achados.

Como a Igreja medieval transformou casamentos — e a psicologia social também

Defesa de famílias nucleares teria influenciado como a mente ocidental funciona
1) Se comparados com populações do resto do mundo, povos da Europa Ocidental e seus descendentes nas Américas e na Oceania tendem a ter um perfil psicológico distinto:

  • Mais individualistas
  • Menos conformistas (resistência a obedecer tradições e autoridade)
  • Confiam mais em estranhos

2) Uma nova pesquisa relaciona essas características com medidas impostas pela Igreja a partir do começo da Idade Média:

  • Proibição do concubinato e da poligamia
  • Tabus de incesto impostos mesmo no caso de primos de sexto grau e parentes por afinidade (sem relação de sangue, como cunhados etc.)
  • Exigência de que recém-casados fossem morar em casa diferente da dos pais/sogros etc.

3) Essas exigências teriam criado o modelo de pequenas famílias nucleares europeias, gerando, como subproduto, as características típicas de populações ocidentais

Com efeito, quanto mais longo o tempo de presença do cristianismo numa região da Europa, maior a correlação com características psicológicas descritas no item 1

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 03/11/2019.
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