Não é comum que utilize esse espaço domingueiro para tratar de assuntos do cotidiano atual da cidade, salvo quando o tema tem realce desmedido e pode trazer consequências irreparáveis para os verdadeiros e legítimos interesses coletivos, como é o caso de hoje.

Venho acompanhado o assunto, na boa surdina, faz algum tempo. E não é de agora que tenho a impressão de que, ao modo do que sucedeu com o presidente Jânio Quadros, “forças ocultas” e sem preocupação com o desenvolvimento da capital amazonense estão atuando no sentido de sepultar ou de pôr fim com todas as pás de cal a um dos mais importantes equipamentos aqui edificados, o qual, se bem organizado e gerido, teria função preponderante na nossa economia.

A diversificação da economia amazonense, agora mais do nunca, ante as crescentes e renovadas ameaças que pairam sobre o polo industrial da zona franca, se faz necessária e urgente. Um dos vetores sempre ressaltado para cumprimento desse objetivo tem sido o turismo, para o qual todos sabemos das nossas potencialidades sem que tenham sido encontrados, ainda, os caminhos mais adequados para que essa importante atividade possa deslanchar.

O turismo de selva, de observação de pássaros, de negócios, de eventos, de base cultural e artística, de pesca, de gastronomia, enfim, qualquer que seja o conjunto de iniciativas que possam vir a ser tomadas visando com que nos tornemos polo turístico brasileiro, não há como imaginar que possamos perder equipamentos hoteleiros, que são indispensáveis para bons resultados de quaisquer dessas opções turísticas.

Neste rol de possibilidades para a implementação de ações que visem essa importante atividade econômica relevante para o Estado, principalmente a partir de Manaus como porta de entrada dos visitantes, não podemos silenciar ante a crise que se abate sobre o setor hoteleiro, de modo geral, e, em particular e com bastante ênfase, sobre o Tropical Hotel, embora saibamos que este vem atravessando alongados períodos de carência financeira para seu completo funcionamento, e que agora estão desaguando na iminente suspensão de suas atividades. Ao que leio pela imprensa de redes sociais, deverá fechar as portas.

Há vários incômodos e aspectos incompreensíveis no caso, especialmente diante da inércia (pelo menos que seja do meu conhecimento) de setores da sociedade e de governos seguidos, independente da boa ou má gestão do negócio por parte dos empreendedores responsáveis. Digo assim, porque não me parece haver dúvida de que o Tropical, construído em terreno doado pelo Município, favorecido por incentivos fiscais de várias ordens, seja federal, estadual e municipal, importante patrimônio arquitetônico, marco para o turismo local, ícone que ainda possui repercussão e expressão nacional e internacional no seu setor, possa ser abandonado às traças e ao deus dará e, ainda mais, com o silêncio, inclusive  do empresariado, que bem poderia vislumbrar bons negócios.

Custo a crer que, unidos e reunidos em derredor dos legítimos interesses de nossa capital, os governos, a classe política, os empresários, os empreendedores, as universidades, o sistema S, todos juntos, não tenham sequer sentado à mesa para debater o problema, identificar caminhos, buscar soluções, reconhecendo a importância e o valor dos investimentos já realizados pelo Poder Público em todos os níveis, além da  representatidade física, arquitetônica e empresarial do Hotel Tropical.

Será que assistiremos a essa derrocada, inertes?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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