*Arthur Virgílio Neto

Garimpo avança porque não teme os Poderes e conta com cobertura do tráfico.

Faz muito tempo que eu denunciava, quase solitariamente, a atividade criminosa e poluidora do garimpo no rio Madeira, inicialmente na parte que banha Rondônia: mercúrio para “lavar” o ouro; assassinatos de mergulhadores que descobriram veios e que não são investigados seriamente. Vidas que nunca importaram.

Outros delitos se agregam ao garimpo ilegal: lavagem de dinheiro e sonegação, grilagem de terras indígenas, cumplicidade com desmatadores, início de “construção” de uma Serra Pelada nas águas de um rio piscoso, caudaloso e destinado a, no futuro próximo, junto aos demais grandes rios da Amazônia, abastecer o mundo de água doce, potável e de facílima extração. Quem sabe nossas águas virarão produto de exportação! Quem sabe os países amazônicos constituirão a Opep das águas!

O garimpo tem sido tolerado e até estimulado pelo governo Jair Bolsonaro. Resultado: a ousadia dos infratores, criminosos impunes, foi crescendo ao ponto de terem descido o rio Madeira para ocupá-lo, praticamente de uma margem a outra, em frente à cidade de Nova Olinda do Norte (AM). Que audácia: sentaram praça a apenas 25 minutos de voo de Manaus. São agora “vizinhos” do aparato de segurança do estado do Amazonas. Vizinhos igualmente da Polícia Federal, do Poder Judiciário e, sobretudo, do povo de Manaus -além, obviamente, de Nova Olinda do Norte, de Novo Aripuanã (AM), com penetração ainda incipiente, e de Autazes (AM), banhada pelos rios Madeira e Amazonas, este o maior do planeta.

Trata-se de um desafio claro ao governo federal -ou de demasiada confiança no que pode ser a cumplicidade dos dois setores: um, institucional; o outro, marginal. Se o primeiro primasse pela seriedade e pela autoridade justa, o desmonte desse acinte já teria ocorrido “manu militari”. Se o garimpo avança tanto, é porque não teme o poder formal e porque conta com a cobertura do tráfico de drogas, que controla boa parte do Amazonas.

Balsas de dragagem para mineração se deslocam no rio Madeira

Centenas de balsas usadas para mineração atravessam o rio Madeira Bruno Kelly – 23.nov.2021/Reuters

Dragas usadas para mineração reviram o leito do rio em busca de metais preciosos Bruno Kelly – 23.nov.2021/Reuters

O chefe do Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas) afirmou que seu órgão instruiu as forças de segurança estaduais a agirem Bruno Kelly – 23.nov.2021/Reuters

Dragas de extração de ouro que navegam pelo rio Madeira Bruno Kelly – 23.nov.2021/Reuters

Esse quadro não pode persistir. Não bastasse o desmatamento avassalador de uma floresta que é irmã siamesa dos grandes rios, pretendem agora conspurcar as águas, como se houvesse (?) uma conspiração contra a riqueza trilionária da biodiversidade e da água que cada vez mais faltará para o mundo. Parece uma trama sórdida a favor do aquecimento global. Contra um planeta, ao fim do século, inóspito demais para nossos descendentes o habitarem.

Nessa toada, o Brasil se arrisca a sofrer uma intervenção militar estrangeira, autorizada pela ONU e tirando do nosso povo a perspectiva de prosperar com a floresta em pé, rendendo recursos para acabar com a pobreza e a fome do Acre ao Rio Grande do Sul. Querem matar a galinha dos ovos de ouro. A incompetência e a má-fé se coligam para condenar o futuro dos amazônidas e de todos os brasileiros. Pena mesmo!

Balsas de garimpeiros são queimadas no rio Madeira – Reprodução

Nosso povo e todas as nações não merecem o esbulho, a traição e a destruição da maior floresta do planeta e dos rios dadivosos que precisam respirar e ganhar a respeitabilidade internacional -parte da grandeza das nações vitoriosas e justas.

*Ex-deputado federal, ex-senador, ex-ministro e ex-prefeito de Manaus. Artigo na Folha de São Paulo.; Caderno Opinião, de 29/11/2021.
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