Sumiu um fardo de juta de dentro da casa de Manduca, morador da Ilha da Trindade. Prenderam João Crente, Bico de Pato e Mijacão, naturais suspeitos pelo histórico de travessuras na região. Juraram inocência perante à autoridade policial de Itacoatiara. Mas foram recolhidos, ficando à disposição, para o devido aprofundamento dos atos investigatórios, à falta de outros incriminados.

Decorridos três dias, o caso continuava sem solução, causando desassossego no moral de Seu Taurino, policial das antigas, atualmente afastado das funções de enfrentamento, lotado no gabinete do delegado. Afastado, sim, mas mantendo o mesmo espírito inquisitório de quando jovem, na linha de frente, levando a sério todo caso que lhe vinha às mãos. Para ele, missão policial tinha cunho de honra pessoal e a solução tinha que ser encontrada, a qualquer custo.

Durante o expediente da tarde, Seu Taurino, retornou da rua, roído por um pensamento que desvendaria o caso.

Encarou a porta do delegado.

– Licença, Doutor.

– Entre, Taurino. Alguma novidade?

– Antes de lhe falar das novidades, como está o caso do fardo de juta?

– Ninguém abriu o bico.

– É que eu tenho uma ideia.

– Que ideia, Taurino?

– Deixe o caso comigo!

– Mas você não é mais pra essas coisas.

– O senhor não quer nem escutar o que eu tenho em mente?

– Diga lá, o que você tem em mente.

– Oferecer um jantar para os presos!

– Jantar, como assim?

– É um jantar especial, doutor.

– E ainda especial? – o delegado estava pensando no custo de mais esse plano taurinesco para uma delegacia que vivia de pires na mão.

– Não sairá muito caro, não, doutor. – Assegurou o velho Taurino, lendo o pensamento do superior. – Me passe somente trinta reais, que eu arrumo o jantar – concluiu com um sorriso confiante.

Não era a primeira vez que o colaborador vinha com ideias elucidativas. O delegado abriu a carteira, recomendando, um veja o que você vai me aprontar, hein?!

Taurino saiu direto pra feira. Comprou dois quilos de ventrecha de pirarucu salgado, pegou maxixe, quiabo, cubiu, cheiro verde, e, numa euforia de escoteiro, chegou em casa pedindo a sua senhora que preparasse um cozido.

Espiritou a mulher:

– Mas não tira o sal!

– Só se for pra tu comeres sozinho, porque eu não sou boi pra comer sal. – sentenciou ela, no mesmo tom.

– Não é pra nós, não, criatura. É pra levar pra delegacia.

– Vixe! O delegado vai é falar mal do meu cozido.

– Não é para o delegado, mulher. Faz o cozido, por favor. É coisa do meu serviço.

– Mas você é engraçado!  Diz que é seu serviço, mas chega em casa dando ordens, se metendo no meu serviço, trazendo o seu serviço pra mim. Olha que eu não sou obrigada a cozinhar para a delegacia. Não ganho pra isso.

– Mulher, é só um favorzinho.

A mulher fez o favorzinho, não sem antes dizer poucas e boas sobre a dureza dos serviços de uma dona de casa, cumpridos religiosamente por ela todos os dias. Fraseados sem a mínima eficácia pedagógica ou relacional, é claro. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Taurino se acostumara a calar para não dar eco às retóricas da mulher.

Dizer que a casa de Taurino era perto da delegacia é evidente redundância, porque em cidade pequena tudo fica perto: a igreja fica perto da padaria, a padaria fica perto do açougue, o açougue fica perto da farmácia, a farmácia fica perto da serralheria. Mas, por necessária precisão geográfica ou mesmo biográfica, vamos combinar que a distância entre a casa de Taurino e a delegacia era um pulo de gato, era ali pertinho.

E foi assim, como se montado num felino, que o nosso Taurino chegou à delegacia, no início da noite, com a panela ainda fumaçando. Fez questão que o delegado olhasse. Destampou a panela. A autoridade perguntou o que era aquilo. Viu o caldo branco e afastou rapidamente o rosto, negando o corpo para os lados, quando o odor forte do sódio invadiu suas narinas e recendeu em todo o gabinete.

– É cozido de pirarucu salgado, doutor.

– Tá estranho. Esse caldo tá muito branco!

– Posso servir aos presos, doutor, foi feito pra eles? – Taurino estava doido pra pôr em prática a sua estratégia policiesca.

O delegado autorizou. O próprio Taurino, dando uma de garçom, anunciou o jantar, aos presos. Os três ficaram assustados com a gentileza, mas, como diz o ditado que fome de pobre dispensa cerimônias, consumiram num instante o manjar, acompanhado de pimenta malagueta e pirão de farinha.

Taurino saiu, dizendo aos caras que ia buscar água gelada. Saiu, mas não voltou. Meia hora depois, os presos começaram a chamar. Chamaram mais vezes e nada de Taurino. Uma hora depois, o tom da chamada já havia subido para o máximo permitido pelos pulmões dos detentos. Dava pra ouvir na rua. Em certo momento, alguém se aproximou da cela, sem se mostrar, e esclareceu:

– Taurino foi na casa dele pegar água gelada e ainda não voltou!

Nessa altura, os presos notaram que também não havia água na pia e nem em parte alguma na cela. O jeito era esperar o desgraçado do Taurino voltar com a bendita água. Esperar e, de vez em quando, gritar. Foi o que ficaram fazendo até onze horas da noite.

Às onze, silêncio total na delegacia. Os presos, com a garganta pegando fogo, com o bucho empanzinado pelas propriedades do sódio, potencializadas com o ardume da malagueta e o estofamento provocado pelo pirão, foram além dos gritos. Passaram a sacudir a grade da cela, a bater nas paredes com a pobre da panela deixada por Taurino, a pisotear contra a porta da cela na tentativa de arrombá-la. Nada adiantou. Nem sinal de alma viva.

Já passava da meia noite, quando os presos ouviram passadas se aproximando da cela: era o Taurino, com um copo de água na mão.

– Pô, parente, quer matar a gente?

– Não quero matar ninguém, não.

– Cadê a água? Só esse copo?

– Calma, minha gente. Esse copo é pra mostrar que a água tá aqui, mas tenho ordens do delegado.

– Que ordens?

– Servir a água depois da confissão do roubo!

– Isso é tortura!

– Tá bom! Vou pra casa e volto pela manhã. Até logo!

– Dá ao menos esse copo pra cá…

– Cumpro ordens! Água somente após a confissão. – disse Taurino e saiu do raio visual dos prisioneiros, ficando quieto no corredor esperando a reação dos encarcerados.

A sua estratégia investigativa estava indo bem. Quanto tempo alguém aguenta sem tomar água quando come peixe salgado, ainda mais à noite? A resposta empírica havia de ser chegar. Cabia aguardar com paciência. A cara de Taurino não cabia de satisfação. Estava a um passo de confirmar a eficácia de sua estratégia investigativa.  Permaneceu em silêncio no corredor à espera do chamamento desesperado dos presos. Tinha certeza que chamariam a qualquer momento. Taurino consultava o relógio de pulso. Não importava o tempo de espera. Iam chamar, ora, se iam. Não disse?

Um dos presos gritou perguntando se tinha alguém ouvindo.

– Tem alguém aí?

Silêncio.

– Hei, bando de merda! Tem alguém escutando?

Nada.

– Caralho! Alguém chame o Taurino, por favor!

Ninguém respondia.

– Querem matar a gente, seus carrascos duma figa! Temos nossos direitos.

Taurino aguardou mais um pouco e lá se foi se aproximando da porta da cela, com toda a calma do mundo.  Os presos logo notaram que o agente não tinha mais o copo de água na mão.

– Cadê a água, parente?

– Os passarinhos resolveram cantar? Já é de madrugada. Tá na hora de passarinho cantar.

– Deixe de palhaçada, velho escroto, cadê a água?

– A água está aí. Vou buscar agora mesmo, se o ladrão confessar.

Taurino sentiu que os prisioneiros demonstravam ainda muita resistência. Mas teoria é teoria e tem que ser levada a sério. Ele, o estrategista, não poderia afrouxar no comando dessa experiência que trazia a sua assinatura. A ciência policial haveria de reconhecer sua esperteza e a crônica local lhe ofereceria medalha de honra ao mérito. Seja forte, Taurino. Na prática, a teoria exige trabalho, paciência, persistência e… algum sofrimento das cobaias humanas.

Taurino estava voando nesses pensamentos, quando recobrou os sentidos com o grito de um dos presos:

– Fui eu!

Taurino pediu a confirmação:

– Quem falou?

– Fui eu – repetiu Mijacão.

– E onde está o produto?

– Roubei, mas joguei no rio. Pronto, falei tudo. Agora mereço ser o primeiro a receber a água.

Os outros dois falaram quase em coro:

– Vamos lá, libera a água. O cara já deu o serviço. Libera a água e solta a gente.

– Calma, pessoal. O escrivão precisa tomar o depoimento do autor do crime. O expediente começa oito da manhã.

– Porra, meu, não dá pra esperar mais não. Passa a água pra gente. O Mijacão já falou que foi ele.  Ou então, abre a cela que a gente vai embora e fica só ele pra esperar o escrivão.

– Não é assim que funciona, não. Isso aqui tem ordem. O escrivão toma o depoimento do Mijacão, e aí a soltura já é como o delegado. O delegado chega às dez e resolve a situação de vocês.

– É muita sacanagem. O cara já confessou. O trato foi cumprido da nossa parte. Você não tem palavra, não?

– Tem situações que o regulamento fala mais alto. Eu não posso fazer nada.

– Vá a merda o teu regulamento! A vida da gente vale mais que essa porra de regulamento.

–  Só tô fazendo o que precisa ser feito.

A água foi liberada, um copo pra cada um. Mas ninguém foi solto.

Pela manhã, o escrivão tomou o depoimento do Mijacão que, depois de beber mais água com antiácidos, confessou o delito. O delegado chegou às onze e soube da confissão. Mandou liberar João Crente e Bico de Pato, mas condicionou a soltura de Mijacão após o pagamento do fardo de juta. Ao meio dia, o pagamento foi feito, por alguém que entregou o dinheiro ao delegado, sem dar explicações.

Depois de mandar soltar o último preso, o delegado chamou Taurino no gabinete para confidenciar:

– Ainda tenho minhas dúvidas da autoria do crime, mas o importante é que o teu cozido funcionou. Parabéns! Para mim o caso está encerrado. Só tem um detalhe. Com esses três, o teu truque não vai mais colar. E, se eles contarem para os outros meliantes, pode dar adeus a tua estratégia.

Taurino, ouviu com orgulho o elogio do chefe, e disse à autoridade policial que sempre estaria às ordens e que ainda se sentia capacitado, era só o delegado ordenar.

Toda a cidade, no mesmo dia, soube do desfecho do caso. E, até o final da semana, apareceram várias versões, com detalhes mirabolantes, mas quero deixar claro que esta – aqui – é a versão verdadeira.

Seu Taurino galgou mais um degrau no seu status de considerado, mas se manteve o mesmo cabo velho de sempre, e nunca se enchia de pavulagem, quando pediam para ele recontar a história.

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Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor plantonista.

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