*Patricia Pamplona

Foi aos 14 anos que Gabriela Marques descobriu o diagnóstico de transtorno de bipolaridade, após o fim de um relacionamento. “Fiquei muito tempo mal, não saía daquilo”, lembra a jovem, hoje prestes a completar 25 anos.

A mãe a levou a médicos, que receitaram tratamento com remédios fortes. Após uma melhora, ela parou com os medicamentos. “O grande problema da bipolaridade é que, quando vai para a hipomania, o lado bom, a gente acha que está bem, não tem nada”, afirma Gabriela.

Depois disso, ela viveu “anos de luz”, como relata, durante o ensino médio. Entrou para a faculdade de engenharia elétrica e iniciou um relacionamento –cujo término gerou uma constante tristeza em sua vida. “Entrei em depressão, minha tendência é depressão bipolar.”

Fatores de risco para transtornos mentais na adolescência

 

Sofrer ou testemunhar episódios violentos, como agressões físicas, ameaças e humilhações, é frequentemente associado a quadros de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático Ilustração: Estela May

A investigação de quadros de transtorno de estresse pós-traumático, depressão e lesões autoprovocadas costuma apontar episódios de abuso sexual Ilustração: Estela May

Em 16 de novembro de 2014, porém, ela encontrou uma paixão que teria um impacto significativo em sua vida. Sem nenhum histórico de esportistas da família, a irmã, “um arroz de festa”, a convidou para participar de uma corrida de 5 km em Itaquera, zona leste de São Paulo.

“Lembro até hoje da data”, conta Gabriela, empolgada. “Acordei 3h30 da manhã, porque morava em Franco da Rocha [município 43 km ao norte de São Paulo], olhei o Itaquerão [estádio do Corinthians], o sol nascendo e eu me senti viva.”

A semana inteira dolorida por sua falta de preparo não a incomodou, e a jovem começou uma prática sem muita regularidade, intercalando com caminhadas. Os três anos seguintes foram de idas e vindas, tanto na corrida quanto na questão de sua bipolaridade.

Em 2017, quando já havia trancado a faculdade, uma cena no seu trabalho, no qual precisava lidar com pessoas, a abalou e gerou uma crise de estresse. O lado direito do corpo adormeceu, e Gabriela não conseguia completar frases.

Foi o que a jovem chama de cartada final para procurar uma psiquiatra, que deixou claro que, sem tratamento, esse seria só o primeiro de vários surtos. “Aceitei que precisava tentar o remédio.”

Alguns meses depois, em setembro, enquanto ainda tentava acertar a medicação, aceitou outro convite para uma corrida, desta vez um treino gratuito que partiria da escadaria de Sumaré, na zona oeste da capital paulista. “Aí eu me apaixonei. Passei 2018 e 2019 inteiro indo de Franco da Rocha para São Paulo para participar de grupos de rua que eram de graça.”

Motivada, ela começou a divulgar sua rotina de esportista nas redes sociais, pois acredita que as pessoas precisam saber que existem essas oportunidades, sem custo, disponíveis. Em 2019, Gabriela se superou, correu cinco meia maratonas e se tornou esportista da marca de roupas Authen.

Para o tratamento da bipolaridade, a jovem toma um remédio mais leve, justamente pela quantidade de atividades que pratica. “A psiquiatra falou que a corrida é o esporte que mais ajuda com o remédio”, afirma. “Esporte é o que me salva todo dia.”

ESTUDO LIGA EXERCÍCIO A COMBATE À DEPRESSÃO

De fato, a atividade física tem um poder crucial para gerar bem-estar, mas seu potencial para pessoas com depressão gerada por estresse pode ser ainda maior. Um estudo do Instituto Karolinska, de 2014, descobriu que o treinamento induz mudanças no músculo esquelético que podem expulsar do sangue uma substância que se acumula durante o estresse e é prejudicial ao cérebro.

“Em termos neurobiológicos, ainda não sabemos o que é depressão. Nosso estudo representa mais uma peça do quebra-cabeça, pois explicamos as alterações bioquímicas protetoras induzidas pelo exercício físico que evitam que o cérebro seja danificado durante o estresse”, afirmou Mia Lindskog, pesquisadora do Departamento de Neurociência do instituto sueco, quando a pesquisa foi lançada.

No estudo, realizado com ratos, foi injetada uma substância gerada a partir da atividade física –chamada PGC-1a1. Quando esses ratos foram submetidos a ambientes de estresse durante cinco semanas, eles não demonstraram sintomas depressivos em comparação aos que não tiveram a substância injetada.

Outra descoberta foi que os ratos com alta concentração de PGC-1a1 também tinham níveis mais elevados de enzimas chamadas KAT. Essas enzimas convertem uma substância formada durante o estresse, a quinurenina, em ácido quinurênico, que não consegue passar do sangue para o cérebro.

A transformação em ácido, que ocorria de maneira rápida em ratos com níveis aumentados de PGC-1a1, acabou sendo um mecanismo de proteção. Por outro lado, quando ratos normais receberam quinurenina, eles exibiram comportamento depressivo.

“Nossa hipótese inicial era que o músculo treinado produziria uma substância com efeitos benéficos no cérebro. Na verdade, descobrimos o oposto: músculos bem treinados produzem uma enzima que elimina do corpo substâncias nocivas”, explicou Jorge Ruas, pesquisador principal do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto Karolinska, na época da publicação.

A peça no quebra-cabeça do que são os transtornos mentais, descoberta pela pesquisa, ajuda a entender um pouco como o esporte é significativo para pessoas com essas doenças.

PANDEMIA IMPACTA TAMBÉM SAÚDE MENTAL

A pandemia de coronavírus, porém, significou um risco ainda maior além da Covid-19 em si para essas pessoas. Gabriela conta que, por ficar sem praticar esporte, teve uma recaída. “Voltei a pensar em suicídio. Pedia para minha mãe não me deixar sozinha em casa.”

Em agosto, ela teve seu pior episódio. Após ter sido diagnosticada e curada da Covid-19, não podia se exercitar por causa do condicionamento respiratório prejudicado pela doença. “Não conseguia ver esporte, falar sobre isso. Queria praticar, mas não conseguia.”

Aos poucos, pôde voltar e diz que não irá desistir do seu tratamento. “Incentivo as pessoas a voltar aos poucos, não se cobrar tanto, esquecer a performance e falar sobre lazer.”

Prova teste mostra como deve ser futuro das corridas de rua

Área da largada da Corrida Verificação de Protocolo, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, com cones para determinar o distanciamento entre os atletas Divulgação George Gargiulo 360+

Cones são usados para manter distanciamento em atletas na fila do guarda-volumes na Corrida Verificação de Protocolo, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo Divulgação George Gargiulo 360+

Gabriela garante que, quando as provas presenciais voltarem, ela estará lá. “A corrida é minha vida, ela é uma constante. Meu humor não é estável. Quando eu corro constantemente, eu entendo que meu humor também pode ser.”

O Janeiro Branco, uma campanha de saúde mental, já está no fim, mas a importância de se conscientizar sobre o assunto dura o ano inteiro. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 264 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão.

*Jornalista e corredora de rua. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Linha de Chegada de 31/01/2021.
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