Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Desgraçado é aquele que nunca buscou deixar ninguém feliz a sua volta.

O tema da suficiência ou insuficiência da natureza humana (vou usar esse termo num sentido light pra nenhum pós-moderno se ofender) é um clássico na teologia do cristianismo.

Posições pró e contra a suficiência da natureza humana derivam de interpretações distintas acerca do pecado original. Discutir a natureza humana nesses termos é discutir se ela é autônoma e se ela detém todos os recursos para conduzir seus atos sem cometer muitos absurdos na vida.

Agostinho e Pelágio (ambos ativos entre os séculos 4º e 5º) simbolizam bem essa controvérsia. O primeiro a favor da insuficiência da natureza humana (só poucos recebem a graça contingente e eficaz), o segundo a favor da suficiência da natureza humana (todos recebem a mesma graça suficiente).

O que isso significa? Para Agostinho, só poucos são capazes de escapar do pecado, e realizar o bem, graças à graça (redundância proposital). Para Pelágio, todos escapam do pecado, e, portanto, todos são capazes de realizar o bem, porque a graça é universalmente dada a todos.

Um espírito contemporâneo mais apressado diria que Agostinho teria uma teoria da graça mais aristocrática e Pelágio mais democrática. Mas, deixemos a discussão teológica para outro dia, apesar de que a teologia nos ensina a pensar de forma muito mais radical do que as ciências sociais, por exemplo. A obsessão pela afirmação da autossuficiência do ser humano (no sentido de que ele ou ela bastam a si mesmos) é, por sua vez, um clássico contemporâneo. O leitor sabe que considero o mundo contemporâneo ridículo e cansativo na sua boçalidade narcísica.

A defesa da autossuficiência da natureza humana é derivada dos debates renascentistas acerca do humanismo e da afirmação burguesa de que somos donos do nosso destino, e, por isso mesmo, podemos decidir o que queremos comprar livremente e como queremos viver nossas vidas individualmente.

Deixemos claro uma coisa: diante de contínuos reforços negativos contra a possibilidade de uma pessoa ser capaz de ser “dona” da sua vida, justifica-se, me parece, até certo ponto, a defesa de uma leve autossuficiência como resposta contrária a repressão das potencialidades de qualquer um. Dito isso, examinemos o que me parece excessivo na repetição contínua de que somos autossuficientes.

De primeira, digamos que ninguém é autossuficiente, nem homens, nem mulheres, nem cães, nem gatos, nem plantas. A autossuficiência inexiste já no plano fisiológico. Quanto ao psicológico, nós nascemos prematuros e passamos a vida sobrevivendo graças (lá vem essa palavra de novo) a boa vontade, parceria, compreensão, piedade e aceitação dos outros. Somos seres dependentes acima de tudo.

Ao redor das justas celebrações do Dia Internacional da Mulher, ouvi algumas manifestações em que se afirmava a autossuficiência da mulher de forma equivocadamente excessiva, se me permite dizer.

Equívoco imenso que mais atrapalha do que ajuda as gerações mais jovens: essas jovens vão sofrer, desnecessariamente, acreditando que são meninas superpoderosas com carreiras profissionais de enorme sucesso, que equilibrarão a maternidade (no caso das poucas que tiverem filhos) com as horas da vida profissional, que serão amantes e responsáveis pela sua casa, e que, acima de tudo, não sofrerão ao serem, eventualmente, abandonadas por quem elas amam, não entrarão em pânico com o excesso de demandas de autossuficiência, não derreterão diante da menopausa e do medo das mulheres mais jovens.

É um perversidade ou estupidez dizer que elas são autossuficientes. Acreditar-se autossuficiente, aliás, sempre foi um equívoco crasso na educação dada aos meninos (“menino não chora!”). Uma das coisas que os homens podem aprender com as mulheres mais experientes (não com as jovens que são, muitas delas, onipotentes em sua ignorância acerca da vida) é a aceitação de que nenhum de nós é autossuficiente.

Outro absurdo que ouvi é que a mulher não deve querer ser a felicidade de ninguém. Desgraçado é aquele que nunca buscou deixar ninguém feliz a sua volta. Uma vida desperdiçada.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 16/03/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui