“O mais acentuado de todos de que se tem conhecimento foi perpetrado contra o capitão de engenheiros, maranhense, negro e que “ousou” não só ser governador do Estado do Amazonas como fixar-se como o mais importante de todos, em sua história.”

 Todos os anos e seguidamente, de há muito, acompanho atentamente e participo tanto quanto possível da mobilização de setores da sociedade em busca da conscientização para o justo papel e posição da população afrodescendente no conjunto da vida nacional.

Várias gerações têm se sucedido com envolvimento nesta luta. Sem olvidar outras lideranças, naturalmente da mesma forma proeminentes, ressalto a figura de Nestor Nascimento que em 1984 atuava no Movimento Alma Negra em Manaus e juntos com Kaká Bonates realizamos eventos com este propósito, naquela ocasião.

Eliminar o ranço que grupos sociais nutrem contra os afrodescendentes não tem sido objetivo da educação brasileira que ainda guarda, aqui e ali, de forma nem sempre direta mas presente, posicionamento que contraria a realidade que se impõe que é a de reconhecimento da igualdade verdadeira entre os homens a qual não se efetiva por discursos, manifestações, leis ou política de quotas, mas pela formação de uma consciência cidadã e por igualdade de oportunidades a todos os brasileiros, sem qualquer discriminação.

De todo modo os discursos, as leis, a política de quotas e as manifestações de toda a ordem ainda precisam ser levadas a efeito, certamente porque a maioria da sociedade permanece surda aos princípios da igualdade dos povos, apesar de grandes avanços em outros campos das relações sociais.

Nesse sentido, para demonstrar a que nível chegou o desrespeito com as leis do país que pugnam pela igualdade entre todos os cidadãos brasileiros ou residentes em seu território, independente de valores morais que deveriam presidir a vida em coletividade, vale registrar o que, anos passados, já no período republicano e, portanto, depois da declaração de abolição da escravatura negra no Amazonas e em todo o País, vale ressaltar, repito, o que fez o juiz de direito do rio Purus, o dr. Estevão Paes Barreto Ferrão Castelo Branco que, tendo se apresentado em sua Vara judicial naquela região interiorana um casal constituído de pessoa branca e pessoa negra, desejando casar-se na forma da lei civil negou-se a proceder ao ato, precisamente porque um dos nubentes era afrodescendente.

Pasmem os leitores que este cidadão havia sido promotor de justiça, usufruía das benesses do governo do Estado por relações com o nerismo e foi feito juiz de direito com exercício em várias comunidades e municípios amazonenses por longos anos, inclusive em Fonte Boa, em cuja localidade teria praticado outros atos igualmente reprováveis.

Este, entretanto, embora seja fato absurdo, não é o exemplo mais gritante da discriminação racial nas terras amazonenses.

O mais acentuado de todos de que se tem conhecimento foi perpetrado contra o capitão de engenheiros, maranhense, negro e que “ousou” não só ser governador do Estado do Amazonas como fixar-se como o mais importante de todos, em sua história.

Tendo enfrentado as oligarquias, contando com a simpatia e o reconhecimento popular, detentor do maior e mais expressivo rol de realizações em uma carreira política de pouco mais de quatro anos, e ainda não igualada, Eduardo Gonçalves Ribeiro foi eliminado pelas elites que se reorganizaram após sua saída do cargo, por representar ameaça ao interesse de Silvério Neryem eleger-se governador.

Mais do que isso, como se não bastasse a morte por envenenamento que foi provocado por terceiros, seus algozes brancos passaram a atuar no sentido de desconstituir sua memória, de desmoralizar sua obra de interesse público, de ferir a sua honra e dignidade de homem, militar e cidadão anticlerical e positivista.

Estes são dois exemplos que deixo registrados em nome da importância de elevarmos a consciência social em favor da consecução da verdadeira igualdade entre os povos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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