*Denise Mota

Diplomata de carreira há 30 anos – e a primeira negra a haver desempenhado essa função na Argentina -, María Fernanda Silva também será a primeira mulher do país a ocupar o cargo de embaixadora no Vaticano.

Filha de pai argentino e mãe cabo-verdiana, ela já havia sido parte da delegação do país vizinho na Santa Sé e também na Venezuela e no Chile, entre outros. Outro dado muito particular da sua biografia é que teve o casamento anulado canonicamente depois que seu ex-marido decidiu abraçar o sacerdócio. O processo foi acompanhado pelo papa Francisco quando ainda era bispo de Buenos Aires. Silva tem uma filha, a cientista política Bárbara Bennardis, como fruto desse matrimônio.

Também cientista política, com especialização em relações internacionais, católica e ligada ao kirchnerismo, Silva é conhecida por seu trabalho em defesa dos direitos dos imigrantes e das minorias no país. Em entrevista de rádio dada em dezembro do ano passado ao programa da Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), disse que “o mito fundador argentino não inclui os afrodescendentes, ou nos inclui de maneira falsa. Para todas as questões, há tempo para o debate, mas esse tema fica sempre para depois”.

De branco, à frente, a diplomata María Fernanda Silva (Reprodução/ATE Cancillería)

Também no programa de televisão “Café LasPalabras”, de 2012, a embaixadora designada falou sobre a “invisibilização da população afrodescendente” na história argentina.

“Exteriorizamos e estrangeirizamos a escravidão na Argentina, como ainda hoje se continua a estrangeirizar a afrodescendência no país”, disse. Aos integrantes da comunidade negra argentina, pediu que “estudassem muito” para “destruir preconceitos”. “A militância afro é a militância do amor, porque conhecemos todas as formas da vida. Sobrevivemos ao maior genocídio que já conheceu a humanidade, que foi o tráfico transatlântico e escravagista.”

A diplomata integra o grupo permanente do Instituto do Serviço Exterior da Nação Argentina desde 1993 e considera que, “a cada passo que uma minoria dá, a sociedade inteira avança”.

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, de 03/02/2020
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