*Regiane Soares 

Nos 466 anos da capital, relembre os sambas sobre as mazelas e cartões-postais da cidade.

Com 466 anos de história comemorados neste sábado (25), a cidade de São Paulo serviu de inspiração para Adoniran Barbosa compor suas canções. Problemas sociais, como moradia e transporte público, e cartões-postais, como a praça da Sé, na região central, não passaram desapercebidos ao olhar sensível do maior cronista paulistano, cujo nascimento completa 110 anos em 2020.

Para o professor de história da música Daniel De Thomaz, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Adoniran aproveitou sua sensibilidade e usou os elementos urbanos como tema de sua obra. “É isso que o transforma em um artista”, afirma.

A São Paulo de Adoniran Barbosa

Foliões do bloco dos Mata-Mendigos desfilam no Carnaval do bairro da Vila Esperança, em São Paulo, em 1963 Acervo UH/Folhapress

Foliões durante desfile do bloco União de Vila Esperança, em 1980 Folhapress

O cineasta Pedro Serrano diz que Adoniran tinha as “anteninhas ligadas” para o vasto material que São Paulo oferecia diariamente. “Ele soube retratar o cotidiano de maneira artística”, afirma Serrano, diretor do documentário “Adoniran – Meu Nome é João Rubinato”, que estreou nos cinemas na quinta-feira (23).

Com cenas inéditas, o filme mostra as dificuldades de João Rubinato, nome de batismo do sambista, de se estabelecer como músico e os personagens que criou para o rádio. “O nome Adoniran surgiu como uma maneira de ele se apresentar como sambista”, diz. ​

Quem mora em São Paulo e depende do transporte público provavelmente já teve receio de perder o último trem, metrô ou ônibus para voltar para casa. Muitos passageiros vivem hoje os versos cantados por Adoniran em “Trem das Onze”.

Na canção, ele dizia que precisava voltar ao Jaçanã (zona norte), pois a mãe dele não dormia enquanto ele não chegava. Adoniran nunca morou no Jaçanã, mas participou de alguns filmes produzidos pela Companhia Cinematográfica Maristela, que ficava no bairro. Talvez daí a referência para criar seu principal sucesso.

Hoje, a maioria dos passageiros que aguardam o último trem quer mesmo é descansar após um dia trabalho. É assim com o bombeiro civil Fabio Henrique da Cunha, 39 anos, que sai às 23h do emprego, na Liberdade (região central), e corre para pegar a última viagem de trem para Jundiaí (58 km de São Paulo), onde mora. “Já teve uma vez que perdi. Aí tive de voltar para casa de Uber”, diz.

Nos últimos três meses, Cunha tem mais um motivo para não perder o trem: seu segundo filho, Miguel. “Eu fico ansioso para chegar em casa e vê-lo antes de dormir”, afirma.

O porteiro Anderson Mota, 37 anos, também sai às 23h do trabalho, na avenida Brigadeiro Luís Antônio (região central), e vai para casa em Francisco Morato (Grande SP). “É um horário tranquilo, porque não sou fã de acordar cedo. Minha mulher nem sempre me espera acordada. Na maioria das vezes acabo acordando ela.”

A atendente de telemarketing Suzana Dias, 26 anos, faz o caminho inverso: pega o último trem na estação da Luz (centro) para ir ao trabalho, na Barra Funda (zona oeste), onde entra à meia-noite. “Moro sozinha e só tenho minha gata me esperando em casa quando volto.”

Foi do apartamento em que morava na rua Aurora, na República, que Adoniran se inspirou para compor “Saudosa Maloca”. Da janela ele “apreciou” a demolição de “um palacete assobradado” que abrigava um hotel. No lugar, foi construído um “edifício alto”, que ainda resiste ao tempo no número 522 da rua Aurora. Passados quase 70 anos, a cidade revive com frequência a demolição de casas para a construção de empreendimentos imobiliários residenciais e comerciais.

Uma das mais recentes foi a demolição de quase todas as 60 casas da antiga vila operária João Migliari, no Tatuapé (zona leste), construída na década de 1950 para abrigar trabalhadores de indústrias da região.

Segundo a professora de arquitetura e urbanismo Viviane Rubio, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a construção de vilas operárias, como a João Migliari, foi a forma encontrada a partir da industrialização do país, nos anos 1930, para receber famílias que foram para os centros urbanos do país, como São Paulo e Rio, trabalhar nas fábricas.

Mas essas construções não deram conta de abrigar todos que vieram tentar a sorte na capital e aí surgiram os cortiços, as favelas e os loteamentos irregulares, diz a professora Viviane.

Na vila operária João Migliari não havia irregularidade. Moradores lembram que o local tinha vida, todos se conheciam e viviam tranquilamente. E assim como na canção de Adoniran, “o dono mandou derrubar” (todos eram inquilinos de um só proprietário). No local ainda resiste um bloco de cinco casas.

Quem vive há mais de 40 anos em São Paulo e gosta um pouquinho dos festejos de Momo vai entender porque Adoniran diz que foi feliz em um fevereiro de Carnaval. E não foi só porque conheceu Maria Rosa, seu primeiro amor.

O Carnaval da Vila Esperança (zona leste) era o mais popular e concorrido da capital nos idos do século 20. Começou a levar o povo para rua em 1940, quando a escola de samba Nenê de Vila Matilde era apenas um bloco carnavalesco, e foi assim até meados de 1970, quando a folia local começou a perdeu a magia.

Quem morava na Vila Esperança ou nos arredores vivia na expectativa de fevereiro chegar para ir às ruas com suas fantasias. Era comum os homens saírem vestidos de mulher. E as crianças brincavam com as xiringas (garrafinhas de plástico) cheias de água para jogar em quem passava.

Integrante da velha guarda da Nenê, o compositor Marco Antônio de Freitas lembra que o motivo do sucesso do Carnaval da Vila Esperança era a espontaneidade de quem ia aos bailes ou aos blocos.

“Naquela época, o objetivo era de fato brincar o Carnaval, e na rua não tinha nada muito organizado. Era o melhor Carnaval de bairro de São Paulo, tudo sem malícia e sem maldade. E na terça-feira tinha o desfile da Nenê, que todos esperavam.”

Cartões-postais da capital também estão presentes nas músicas de Adoniran. A praça da Sé, o viaduto Santa Ifigênia e a avenida São João, na região central, foram lembrados pelo principal cronista da capital.

Em “A Praça da Sé”, de 1978, Adoniran diz que o marco zero da cidade é a “madame da estação Sé”. Ele lançou a música na reinauguração da praça, já com a estação do metrô, após uma reforma de seis anos.

Na canção,o compositor fala sobre o avanço do progresso na cidade, e afirma que a Sé não era a mais a mesma de “outrora”, pois “quase não tem mais nada”, nem o relógio nem o bonde.

Passadas mais algumas décadas, se Adoniran fosse hoje até a Sé, se assustaria com as mudanças. Não há mais engraxates jogando caixeta nem namorados se encontrando. A praça está malcuidada, e há moradores de rua e dependentes de drogas em seu entorno.

Adoniran também encontraria cenário bem diferente no viaduto Santa Ifigênia. E se Eugênia, a personagem da canção de mesmo nome, visitasse o local, se surpreenderia com o comércio irregular de celulares e outros ambulantes. A estrutura de ferro continua lá, firme e forte, suportando os milhares que passam pelo viaduto. Não foi demolido, para alegria de Eugênia.

Mas o que dizer da avenida São João? Se em meados de 1950 o compositor se surpreendeu com o atropelamento de “Iracema”, hoje se assustaria ainda mais com as motos, carros e bicicletas que passam pela avenida.

Além dos dramas sociais, o que se comia na mesa do bar, na marmita ou nos encontros de família também foi cantado nos versos de Adoniran. E as comidas de influência italiana foram as mais lembradas, como a pizza e a brachola, citadas em “Um Samba no Bixiga”.

Tinha comida que ele até inventava ou comia por suas andanças, como o torresmo à milanesa, citado em “Torresmo à Milanesa”.

Segundo o professor de gastronomia Rodrigo Libbos, do Mackenzie, a cozinha paulistana recebeu diversas influências ao longo de sua história. Primeiro foram portugueses, que adequaram suas receitas aos ingredientes dos índios. Depois, chegaram italianos, espanhóis, sírios, libaneses e japoneses, que adaptaram a culinária às necessidades.

Libbos conta que a pizza que conhecemos hoje, grande e com vários sabores, nada tem a ver com a que era feita pelos italianos de Nápoles. “Lá a pizza era menor, de queijo ou aliche. Aqui, com as famílias grandes, houve a necessidade de aumentar o tamanho. E com a influência de outros grupos vieram os novos sabores, como a portuguesa.”

Já o torresmo à milanesa, Libbos acredita que vem do hábito de fazer tudo à milanesa. “Aqui a gente faz até banana à milanesa.”

Se tem algo que Adoniran entendia bem era de samba. E ele também sabia que, quando os “colegas de maloca” começavam a sambar, não paravam mais. Pelo menos no morro da Casa Verde era e continua sendo assim, segundo sambistas da zona norte da capital.

“Aqui ainda tem muito samba. Se deixar, vai até de manhã. E os vizinhos nem reclamam. Eles sambam também”, diz a presidente de honra da escola de samba Morro da Casa Verde, Laurinete Nazaré da Silva Campos, 74 anos, mais conhecida como Dona Guga.

Ela afirma que o samba está na história da família. Filha do fundador da escola, José Narciso Nazaré, o Zezinho do Banjo, ela conta que conheceu Adoniran ainda menina. “Meu pai trabalhava na rádio Tupi Difusora com Adoniran e eu estive com ele algumas vezes.”

Pelo que viveu em família, Dona Guga acredita que o samba composto por Adoniran certamente foi uma referência à Casa Verde e a toda a região norte da cidade de São Paulo, que é considerada um reduto de sambistas e a origem de várias escolas da capital, como a Unidos do Peruche, a Império de Casa Verde, Mocidade Alegre, além da própria Morro da Casa Verde.

Adoniran Barbosa

O cantor e compositor Adoniran Barbosa ao lado dos integrantes do Demônios da Garoa Acervo UH/Folhapress

O cantor e compositor brasileiro Adoniran Barbosa com Simone, José Briamonte, Clara Nunes, MPB 4, Gonzaguinha, e outros, durante gravação de disco em sua homenagem, no Rio de Janeiro Walter Ennes/Folhapress

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, de 25/01/2020.
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