“A provocação veio de Genesino Braga, esse cronista por excelência que, certa feita, descreveu com requinte de detalhes, como era do seu feitio elegante (…)”

Este artigo é uma provocação, e, ao mesmo tempo, uma conclamação musical aos proprietários de arquivos de partituras que possam ainda existir em Manaus, integrados, especialmente, por composições de amazonenses, de modo a permitir que a nossa Academia de Letras promova recitais exclusivamente com peças compostas em nossa terra.

A provocação veio de Genesino Braga, esse cronista por excelência que, certa feita, descreveu com requinte de detalhes, como era do seu feitio elegante, um sarau amazônico acontecido em casa de residência de dona Blanca Bouças, no Rio de Janeiro, preparado especialmente para estimular e engrandecer a participação do Amazonas na então famosa Feira da Providência, lá pelos meados dos anos 1960.

Em ambiente sofisticado e decorado com peças de arte de alta qualidade, por lá esteve como convidado muito especial o compositor, professor e pianista caboclo Arnaldo Rebello, pronto para abrilhantar e qualificar a ocasião. Os convivas ficaram maravilhados. O concerto reservado que Arnaldo ofereceu foi requintado, reunindo composições caboclasdas mais festejadas.

Iniciou com os “Prelúdios” de Cláudio Santoro, apresentou “Valsa em dó maior” de Lindalva Cruz, “Acalanto” de Diva Ponce, o chorinho “Pra mãe do Inácio” de Coriolano Durand, a valsa “Manaus, minha cidade” de Theophanes Monteiro de Souza, “Juriti foi e não voltou” de Ilcia Cardoso, e, para encerrar a primeira parte tocou “Travessura”, de Maximino Corrêa.

Na segunda parte foram executadas as peças do próprio Arnaldo que eram primorosas: “Toada Baré”, “Lundu do Titio loca” e “Tarumã”, seguindo-se “Uma festa na Cachoeirinha” e “Uma festa no Careiro”, ambas de autoria de Francisco Donizetti Gondim, e, logo depois, “Pela Pátria” e “O Sol da Liberdade”, composições da pena de João Donizetti Gondim. Para completar o luxo e o brilho, a própria anfitriã brindou os convidados com apresentação de canto, soprano de fino estilo que era. O jantar, servido com intimidade regional, foi preparado com esmero e para degustarem pirarucu, tucunaré e picadinho de tartaruga, naturalmente sem as inovações e condimentos atuais, portanto, bem à toda manauense tradicional.

Estimaria muito conseguir e dispor dessas partituras para colocá-las em mãos de grupos primorosos de músicos e instrumentistas que temos hoje na capital amazonense graças ao Liceu Claudio Santoro e as universidades Federal e do Estado, o que permitiria realizar saraus seguidos na Academia de Letras, não só com estas composições, mas com o trabalho artístico de muitos outros amazonenses ilustres que sonharam com escolas de música, universidade, orquestras e aproveitaram a réstia de luz e erudição deixada pela nossa “belle époque”.

Portanto, quem tiver, souber ou conhecer essas peças (claro que a do Cláudio Santoro é bem conhecida) bem poderia brindar a Academia om uma cópia das partituras para a realização de um programa dessa natureza.

Seria o máximo fazermos isso, cultivando essa memória artística de nossa terra, no tempo em que vivenciamos a exuberância de uma geração formada em nossas próprias escolas iniciadas em 1997 com a criação da Secretaria de Cultura.

Sim, porque Arnaldo Rebello e Claudio Santoro, como vários outros, precisaram sair de Manaus para estudar música no Rio de Janeiro e por lá fizeram carreira, e contavam com bolsas de estudos pagas pelo governo do Estado. Agora, não é mais preciso viajar para outras cidades porque aqui temos possibilidade de bela formação artística, desde o Liceu, escolas regulares e universidade, seja a estadual e a federal, e de alto nível. Vamos perseguir esse objetivo: saraus na Academia em 2019 com nossas composições, de membros da entidade ou não, temática regional ou não, como forma de recuperar essa memória musical singular. Afinal, eram de excelente qualidade e com muitas delas me deleitei em algumas oportunidades.

Mais do que provocação, espero que os leitores recebam como um convite à contribuição de todos visando a realização dessa proposta acadêmica.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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