Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Por que diabos deveríamos pôr nossas cabeças na boca do leão em nome de uma festa qualquer?

Devemos ou não fazer Carnaval em 2022? Na minha visão, não. Mas os argumentos a favor são sui generis quando se olha a pandemia sem medo de ser infeliz.

Os mortos da pandemia já foram esquecidos. A memória social tem a profundidade de uma asa de mosca. Todas as manifestações melosas pelos mortos se perderam no voo das moscas.

O primeiro fato óbvio é que encher a cidade com gente bêbada, mijando nas ruas, é a cara do luto, não?

Claro que não. Atenção para o conteúdo de ironia. Comemorar o Carnaval agora é cuspir nos mortos. Acho bem feio, depois de tantas juras de afeto, a moçada mijar por aí ao sabor dos bloquinhos. Por que não mija logo nos túmulos?

Outro detalhe é que muito se xingou Bolsonaro durante a pandemia, com razão. Mas como fica a aglomeração no bloquinho? Agora pode?

Carnaval de Rua de São Paulo 2020

A cantora Anitta apresenta seus maiores sucessos durante desfile pela avenida Pedro Álvares Cabral, próximo ao parque Ibirapuera Edson Lopes Jr./Secom/Prefeitura de São Paulo/Edson Lopes Jr./Secom/Prefeitura de São Paulo

Bloco Ilú Obá De Min durante desfile próximo ao bairro Campos Elíseos Leon Rodrigues/Secom/Prefeitura de São Paulo/Leon Rodrigues/Secom/Prefeitura de São Paulo

Os mesmos que xingaram o presidente agora defendem o Carnaval porque é uma festa democrática. Será mesmo? O Carnaval sequestra a cidade, ele é zero democrático.

A pandemia, caso tivéssemos memória, poderia ser o túmulo de muitos especialistas. Muito se afirmou de coisas que não aconteceram. Verdade que pouco se sabia no início, mas há algo de novo nessa pandemia mesmo. O quê?

O desalento quando a delta não nos levou de volta aos 4.000 mortos por dia era sentido da mesma forma como sentimos o vento. Invisível, mas material. A nova variante ômicron pode ser, enfim, uma nova esperança. Especialistas e mídia estão cheios de tesão por uma nova chance de ampliar engajamento e negócios.

Veja o que já se sabe sobre a variante ômicron do coronavírus 

Quando a ômicron foi detectada? Em 23 de novembro de 2021, cientistas começaram a chamar a atenção para uma variante com um grande número d Tom Nicholson – 28.nov.2021/Reuters

Onde ela apareceu? O sequenciamento foi feito na África do Sul, o que não quer dizer que a variante tenha surgido lá: o país tem investido  Asad – 28.nov.2021/Xingua

Uma nova “chave especialista” de análise é: será esta pandemia um divisor de águas da humanidade?

Talvez, se ela voltar com muita força e matar 1 bilhão de pessoas e destruir a economia. A gripe espanhola -que segundo estimativas matou algo entre 30 a 50 milhões de pessoas- não foi um divisor de águas, voltamos a ser o que éramos antes de 1918.

Mas o que há de novo? O mercado em si. Uma grande diferença entre o mundo da gripe espanhola e o de hoje é que em 1918 o mercado era bem menos globalizado e profissional. Ele era uma criança em sua concupiscência por novos negócios e tinha pouca inteligência especializada.

Hoje sabemos que a pandemia é uma commodity de marketing. A gripe espanhola não foi um mercado em si, a Covid é. Interessa saber se esse mercado terá força para se impor e transformar a pandemia em um motor de startups.

De volta ao Carnaval. Agora especialistas afirmam que se pode fazer a festa com máscaras e exigência de atestado de vacina. Eis o fim da picada. O oportunismo credenciado foi longe demais. Nunca viram o que é o Carnaval? Bebe-se muito. Transa-se muito. Nenhuma noção de risco. Ninguém vai usar máscara e ninguém vai pedir atestado de vacina para ninguém.

E mais, com o idiota antivacina do Bolsonaro -todo antivacina é idiota, não só ele-, turistas europeus e americanos sem vacina poderão vir aqui em busca de sexo. Sexo é o que buscam aqui no Carnaval porque as europeias e americanas são umas azedas. Mas tudo bem, porque o Carnaval é uma festa democrática? Na verdade, o Carnaval sempre foi em grande medida turismo sexual para estrangeiros. Pago pela hora ou não.

Mas tudo bem, porque o Carnaval é uma festa popular? Os europeus fecham as portas para nós -menos para os nossos ricos-, mas nós abriremos as portas para eles sem que eles tenham tomado vacina?

Desfile Vila Isabel

Desfile da escola Vila Isabel, no segundo dia do Grupo Especial na Sapucaí Sergio Moraes – 24.fev.2020/Reuters

Desfile da escola Vila Isabel, no segundo dia do Grupo Especial na Sapucaí Mauro Pimentel – 24.fev.2020/AFP

Desfile da escola Vila Isabel, no segundo dia do Grupo Especial na Sapucaí Carl de Souza – 24.fev.2020/AFPMAIS

Há um elemento a mais. Muitos que pregavam o lockdown absoluto neozelandês num país de motoboys e operadoras de telemarketing o faziam porque tinham empregos públicos. Nunca podemos chegar ao padrão neozelandês, mas algum confinamento foi feito e ele era sem dúvida necessário. O comércio agonizou nas quarentenas. Os empregos públicos, não.

Por que justo agora o comércio que ganha com o Carnaval teria aliados entre especialistas? Quem responde essa pergunta de milhões de reais?

A pergunta final é: se estamos nos arrastando, tentando escapar da boca do leão da Covid, por que diabos deveríamos pôr nossas cabeças na boca do leão em nome de uma festa qualquer?

Os políticos, de olho nas eleições, podem sucumbir à pressão em nome da festa democrática. Em matéria de política, quem aposta no pior sempre acerta.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 05/12/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui