Um dos mais respeitados cientistas brasileiros, Paulo Eduardo Artaxo Netto é um dos pesquisadores mais citados pelas mídias científicas e sociais quando o assunto é Mudanças Climáticas e Amazônia, suas especialidades. É formado em Física pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Física Nuclear pela USP e doutorado em Física Atmosférica pela USP. Fez parte de equipes na NASA, Universidade de Antuérpia (Bélgica), Universidade de Lund (Suécia) e Universidade de Harvard (EUA). Atualmente, é professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP. Com certeza, é um dos quatro cientistas brasileiros mais influentes do mundo. Sempre disposto a debater Amazônia, concedeu entrevista exclusiva ao portal Brasil Amazônia agora. Confira!

  1. Brasil Amazônia agora – O Brasil está vivenciando a politização, no pior sentido da política, da questão amazônica. São claros os interesses em jogo. O que isso representa para a região e para o clima?

 Paulo Artaxo – Os interesses dos ruralistas e do lado “destruidor” do agronegócio são obviamente predominantes hoje na política de ocupação da Amazônia. Desmatamento a qualquer custo e ocupação ilegal de terras públicas e indígenas são as estratégias adotadas hoje. Isso representa que a Amazônia está avançando para atividades ilegais como garimpos ilegais e grilagem de terras de modo acelerado. Isso certamente afasta empresários que atuam na legalidade e possam dar um futuro para a economia da região amazônica. O impacto negativo local do desmatamento é muito grande, pois não traz benefícios às populações locais e incentiva a ilegalidade. No caso do impacto global, esta atividade acelera as mudanças climáticas globais, que já entraram em fase de emergência.

  1. BAA – Bioeconomia virou uma panaceia para todos os males da política ambiental vigente. Que consequências isso deverá trazer para o fator socioambiental amazônico?

P.A. – Não faço parte do time que coloca a não definida Bioeconomia como a solução máxima para a Amazônia. A região é tão grande e diversa que irá exigir estratégias diferenciadas para cada sub região amazônica. O que pode ser uma boa estratégia no Acre, pode não funcionar no Pará ou no Mato Grosso. Não acredito em uma única rota de desenvolvimento, mas temos que encontrar soluções locais para cada parte desta vasta região. A exploração econômica da imensa biodiversidade pode ser uma das novas atividades a serem implementadas diferencialmente para cada região da Amazônia. Mas acho que não deve ser vista como a única e nem como a mais importante no futuro próximo na Amazônia.

Paulo Eduardo Artaxo é um notável cientista brasileiro, portador de um grande currículo e autor de diversos trabalhos Foto: USP

  1. BAA – Além do contigenciamento das verbas para C&T&I, a Ciência não escapou do maniqueísmo dominante. O que significará para o país, no médio e longo prazo, esse modo de conceber o papel da Ciência?

P.A. – Governos de extrema direita usam a ciência quando lhes interessa e rechaçam a ciência quando suas conclusões não vão de encontro a seus interesses econômicos, religiosos ou sociais. É um péssimo uso da Ciência, e um desrespeito à sociedade. No médio e longo prazo, espero que possamos voltar a ter governos civilizados que governem voltados aos interesses da população e não de acordo com interesses de ruralistas, sistema financeiro ou milícias. Acredito que o Brasil vai voltar à civilidade como governo.

  1. BAA – O Acordo de Paris, costurado a duras penas em 2015, teve a presença protagonista do Brasil na questão climática. Hoje somos motivo de escárnio no debate internacional. Como poderíamos reverter esse estigma?

P.A. – Já explicitei minha convicção de que este governo não vai estar presente quando o Acordo de Paris for realmente negociado, que deverá ocorrer durante o próximo governo brasileiro. A renegociação com metas vinculantes deveria ter iniciado neste ano, mas estes planos foram adiados por causa da pandemia. Muitos países como o Japão, Nova Zelândia e Inglaterra, além da União Européia, já colocaram em leis em seus países a descarbonização de suas economias nos horizontes de 2030 a 2050. A China tem um plano ambicioso de descarbonizar a economia em 2060. O Brasil tem como meta zerar o desmatamento ilegal em 2025, e reduzir suas emissões em 32% em 2030, entre outras metas. Com a aceleração do desmatamento da Amazônia no atual governo, não iremos cumprir nossos compromissos e metas, e a pressão internacional sobre o Brasil vai aumentar.

  1. BAA – Aqui lhe pediria para fazer considerações adicionais daquilo que você considera relevante/preocupante com relação ao futuro do planeta?

P.A. – Desmatamento de florestas tropicais corresponde a 13% do total de emissão de gases de efeito estufa enquanto combustíveis fósseis emitem 87% do total. Nosso planeta está caminhando a passos largos para um aumento global de temperatura de 3.5 a 4 graus até 2050.  Isso irá afetar fortemente a economia mundial, a produção de alimentos e fortes migrações irão desestabilizar o frágil equilíbrio mundial. As desigualdades certamente aumentarão significativamente entre os países e dentro dos países. Na questão amazônica, é importante salientar que a Ciência cada vez mais explicita que a floresta pode sair de sua condição de funcionamento ótimo se a temperatura média global aumentar 4 graus e a chuva na Amazônia diminuir 30%, como previsto nos modelos climáticos. Isso é importante,  pois mesmo se zerarmos o desmatamento, se continuar a emissão de mais de 40 bilhões de toneladas de CO2 por ano, pela queima de combustíveis fósseis (87% do total de emissões) principalmente pelos países desenvolvidos, a floresta em grande área não terá condições de sobrevivência e perderá carbono para atmosfera, agravando o efeito estufa. Repito: A Floresta pode perder sua capacidade de se manter como floresta tropical úmida, mesmo que o Brasil consiga zerar o desmatamento. Portanto, reduzir a queima de combustíveis fósseis é tão (a ou mais) importante quanto zerar o desmatamento de florestas tropicais.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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