*Demétrio Magnoli

Ambientalistas escolhem caminho do simplismo e se fecham num gueto sueco.

Greta Thunberg, 16, sueca, filha de um ator e uma cantora de ópera, nunca passou fome, sempre tomou banho quente e conectou-se à internet antes de aprender a ler.

No seu discurso na ONU, ela acusou os governos do mundo inteiro de “roubar meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias” sobre as mudanças climáticas. Greta, porém, não representa a maior parte dos adolescentes do planeta, nem os adolescentes de tantas gerações anteriores que experimentaram carências vitais.

A história pessoal e familiar ajuda a decifrar o tom chantagista de seu discurso. Há quatro anos, movida por uma obsessão precoce pelo aquecimento global, Greta convenceu seus pais a se tornarem veganos e a renunciarem a viajar de avião, o que cortou a carreira internacional de sua mãe. Para a persuasão familiar, contribuiu o diagnóstico de que a pré-adolescente sofria de um transtorno do espectro do autismo. Da família para o mundo —no palco iluminado da ONU, Greta realiza um salto acrobático destinado a fracassar.

“Por mais de 30 anos, a ciência tem sido cristalinamente clara.” Três décadas – a eternidade para quem tem 16 anos – são nada na escala do tempo geológico e um intervalo ínfimo na história humana. A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19. O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.

A história recente pode ser contada a partir de um gráfico de temperaturas globais. As devastações das duas guerras mundiais retardaram o aquecimento. A ausência de guerras gerais está na base da anomalia positiva de 0,17ºC por década registrada desde 1970. A ascensão da China é fator crucial para entender a dramática anomalia positiva de 0,43ºC verificada entre 2008 e 2017. A nova potência tornou-se o maior emissor absoluto de gases estufa –e, ao mesmo tempo, tirou centenas de milhões de crianças da miséria.

As Gretas chinesas, asiáticas, africanas, latino-americanas não têm motivos para dizer que seus sonhos e infâncias foram “roubados” pela economia de alto impacto climático.

A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonarose escondem nas profundezas do obscurantismo. O mundo deve se tornar vegano agora mesmo, adotando a meta de saldo zero de emissões em uma década, algo que só estaria ao alcance de uma ditadura totalitária global.

O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. “Como vocês ousam?”, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: “Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?”. A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo.

A ciência está certa ao alertar para a urgência das mudanças climáticas -e as principais vítimas do fenômeno serão as atuais crianças pobres dos países mais pobres. Mas, ao escolher o caminho do simplismo, do fundamentalismo climático, da utopia pré-política, o movimento ambientalista fecha-se num confortável gueto sueco, renunciando ao debate efetivo que se trava contra o “soberanismo” negacionista.

Com quantas Gretas se faz um Ricardo Salles?

Greta Thunberg

Greta Thunberg em uma sessão sobre crise climática em Washington, EUA OLIVIER DOULIERY/AFP

Estudante em Bruxelas, no dia 21 de fevereiro, mostra cartaz que brinca com o slogan de Trump para a Presidência, “Make AmericaGreatAgain”, em alusão ao nome da ativista sueca Greta Thunberg Emmanuel Dunand/AFP

Boneco retrata a ativista sueca Greta Thunberg, na “Rosenmontag”, “segunda-feira rosa”, festejo de Carnaval de Dusseldorf Wolfgang Rattay/Reuters

*Sociólogo e doutor em geografia humana. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 28/09/2019.
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