O Brasil, do ponto de vista da indústria cultural, é um país concentrador. Como a França, que tem Paris como epicentro cultural e político, a capital cultural do Brasil é o Rio de Janeiro, embora a cidade maravilhosa não mais exerça influência política. Para o bem e para o mal assim se formou o nosso país. Há, é claro, a presença de São.Paulo, a cidade mais rica da América do Sul, o maior mercado de consumidores culturais do Brasil, E) que por isso se outorga parte de um eixo Rio/São Paulo. A verdade é que o Rio de Janeiro ainda é a capital cultural do Brasil, o lugar em que os talentos se tornam nacionais e as carreiras de sucesso são referendadas.E os outros estados, há vida inteligente fora de eixo acima mencionado? Os estados brasileiros sempre contribuíram para as artes nacionais. Na literatura, nas artes visuais, no cinema, na arquitetura, nas artes cênicas, em todos os campos, artistas de todos os estados de afirmaram como talentos nacionais e ajudaram a construir a cultura nacional. O que não quer dizer que a produção cultural não enfrente problemas sérios, e cada um desses artistas não tenham sido obrigados a superar grandes obstáculos. Porque tudo depende do grau de desenvolvimento das políticas culturais de cada estado. Especialmente num país em que não há uma atribuição de responsabilidades entre autoridades municipais, estaduais e federais. Um dos problemas mais graves, que acomete a maioria dos estados brasileiros, é que seus programas culturais são escravizados pelos interesses políticos mesquinhos, quase sempre dominadas pelo populismo, escoando os recursos em eventos que não deixam nada. Essas secretarias de cultura gastam suas verbas contratando trios elétricos e cantores bregas, na ilusão de estarem saciando o gosto popular. No fundo, estão refletindo o baixo nível de nossa administração pública e perpetuando a precariedade de nosso sistema educacional. Aliás, no Nordeste está acontecendo uma das formas mais desiguais de concorrência, em que uma certa produção musical da indústria cultural vem esmagando as formas tradicionais, as festas sazonais profano-religiosas, com a conivência das próprias autoridades municipais. Trata-se de forma predatória com que os trios elétricos bahianos atuam naquela região. Já disse que os trios-elétricos são a cultura do latifundio nordestino com excesso de decibéis. Essas empresas volantes, montadas em carretas imensas, atravessam as cidadezinhas do sertão e estão acabando com as festas tradicionais, além de disseminarem uma forma musical degradada, Até mesmo cidades do norte do país, em plena selva amazônica, estão começando a ver á presença desses monstros rodoviários, e a reação não se fez esperar. Hoje várias prefeituras proíbem a presença de trios-elétricos bahianos em suas festas, embora isto não se inscreva dentro do bom princípio da liberdade de expressão. Mas não se pode deixar de registrar que o abastardamento e a diluição da cultura afro-bahiana, que já tinha nos dado artistas como Jorge Amàdo, Caribe e Dorival Caymi, hoje contamina de forma perniciosa a expressão popular, embora tenha se tornado uma poderosa fonte de lucros para as ,multinacionais do disco. É claro que nenhum estado está livre das mazelas nacionais, como o baixo índice de escolaridade, o dilaceramento cultural provocado pela migração interna das massas miseráveis e o alto índice de analfabetismo. Se de um lado há uma crescente ‘consciência profissional por parte dos artistas, as políticas culturais oficiais continuam em grande parte clientelistas e indigentes

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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