Ao que sei, não é de hoje que aparecem contadores de “estórias” que juram veracidade em tudo por tudo que andam a propalar. Com as ditas “redes sociais” nem se fala, escondidos no anonimato ou não e até de cara limpa, há quem faça pregações tão absurdas e, infelizmente, pessoas que parecem acreditar. Manaus, então, como padece nas mãos dos “sabichões” de última hora, descobridores de “cabeças” em plena floresta no século XXI.

A cada ano que se anuncia festejos comemorativos da presença do homem dito de origem europeia na região da capital amazonense, a realçar a “fundação” da cidade em 1669, há quem se arvore a desautorizar o acontecimento, procurando basear-se em qualquer coisa, dita por alguém, em algum lugar, não se sabe muito bem quando. A respeito, pensei que tinha visto de tudo, mas esse ano surgiu outro besteirol que mataria de raiva Arthur Reis, Mário Ypiranga, Agnello Bittencourt, Anísio Jobim e outros tantos que se empenharam com responsabilidade, em tais pesquisas, bem esclarecidas em 1969.

Na esteira do despropósito, agora há pouco chegaram a pregar que até 1860 não se falava português na capital da Província e que dez anos antes tudo era apenas uma aldeia. Creio que o objetivo dessas afirmações falsas tenha sido diminuir a cidade e caracterizá-la como aldeia indígena. Orgulhosamente somos originários de índios, sem problema nenhum, e, lamentavelmente, não fomos capazes de preservar esses valores como deveríamos ter feito, mas isso não deve conduzir ao falseamento da verdade. Falava-se mais a língua geral porque a população indígena era predominante, mas falava-se português, e havia italianos e franceses.

Só para lembrar, em 1848 havia o Seminário São José ensinando latim, francês, música, canto, princípios gerais de geografia. Em 1852, aritmética, álgebra e geometria, dessa feita lecionada pelo professor E. Japiot, da Universidade da França, vindo da Corte para a província, depois substituído por Vital Gueidan. Em 1853, estudava-se geometria e história, e em 1854 se ensinava filosofia racional e moral e depois italiano, alemão e escola de ciências e letras. Verdade que eram poucos os alunos, mas era pequena a população baseada no lugarejo, pela própria tradição.

Nos anos 1880 o cenário era bem mais amplo no campo da educação provincial. O Liceu, a Escola Normal, o Seminário, as escolas públicas, tudo foi ampliado com instrução primária e secundária, e a organização administrativa da província nesse campo chegou a ser primorosa e entregue a personalidades de alto nível e responsabilidade, até que foi efetivada a fusão entre o Liceu e Escola Normal, graças ao governo republicano de Ximeno de Villeroy, que criou o Instituto Normal Superior para atender a linha de ensino pregada por Benjamin Constant.

Tenho presente que em 1969, tempo dos maiores ataques a esse fato, a imprensa abriu muitas páginas para estudos dessa natureza. E foram lançados artigos pelos mais autorizados pesquisadores, votada lei municipal, publicados livros, promovidos debates, e restou bem esclarecida a razão da data indicada e assinalada por Arthur Reis e Mário Ypiranga que se mostrava acertada. Anos mais tarde, um alcaide resolveu mudar a data, provocar confusão e o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas repôs a verdade tal como ficara no tricentenário. Novos debates podem surgir, naturalmente, mas com base em documentos reais, originais e confiáveis, estudados por quem realmente entenda da matéria, não por quem pretenda se tornar notado no meio da multidão.

Coisas incríveis vão continuar surgindo, bem sei.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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