“Sendo por demais interessante, resolvi recontar, do meu jeito, os fatos que o impressionaram naquela época.

Andei juntando papeis bem antigos que vinha guardando com zelo e, quando renovando as pastas de arquivo, me deparei com artigo de cronista que narra a vida na cidade de Manaus nos primeiros anos da Província, lá pelos idos de 16 de julho de 1856. Sendo por demais interessante, resolvi recontar, do meu jeito, os fatos que o impressionaram naquela época.

O contador das histórias parecia saber tratar o idioma e, ainda mais, fazer descrição perfeita dos cenários que conseguia avistar na pequena capital amazonense, publicando sob o título de “Chronica da quinzena”. Depois de falar do casamento o qual considerava “um elemento civilizador por natureza”, da chegada do vapor “Tapájós” que periodicamente vinha de Belém do Pará com as notícias fresquinhas de pouco mais de’ uma semana, de cuidar da solenidade de abertura da sessão anual. da Assembleia Legislativa provincial que sempre era precedida da santa missa rezada na capela do Seminário porque a igreja de Nossa Senhora da Conceição havia incendiado fazia pouco, ele resolveu descrever um dos bailes levados a efeito no vilarejo que ganhara foros de cidade e capital e no qual estariam seus compadres e comadres, todos em grande gala tal qual se vestiam aos domingos.

Para falar das mulheres, ao modo do que seria a crônica social como conhecemos, ele preferiu se referir aos anjos que desciam do céu “vestidos de gaze cor de rosa, azul-claro ou escoceses, trazem grinaldas de flores brancas na cabeça, e vem num baile voltejar uma cadenciosa shotish, ou brincar uma contradança francesa? É que os anjos também andam por este mundo enfeitando a vida, que sem eles não sei o que seria.”

Tratava-se do baile oficial dos deputados, sempre muito esperado, ocasião em que os parlamentares formavam par com os anjos, segundo o cronista, “trocando frases com os humildes pecadores”, em meio a música que “sendo composta de curiosos, por falta de gente da profissão, devemos agradecer a boa vontade em que se prestam,” ou seja, não era lá muita coisa mas o que estava sendo possível na ocasião.

A cidade gozava de algumas obras de melhoramento como sucedia na ponte do Espírito Santo e no quartel, tudo para tornar a capital mais formosa, segundo ele “tão lindamente colocada na margem de um formoso rio com suas esmeraldinas eminências, seu toado de verdura, seus alegres igarapés, e seus modos inocentes, parece-nos, ela, uma fada encantada dando a beijar as fimbrias do seu vestido, às mansas águas do seu rio.”

Poeticamente, na prosa, o articulista seguiu falando da Manaus que seus olhos viam encantados, mas sem desconhecer que o casa rio era simplório e sem higiene, ora com luz e sol em excesso ora com falta de luz e sol, passando a reclamar igualmente da rotina que se abatia sobre o povoado e criticava a vereança por isso, mas desejando que eles não o punissem por dizer a verdade publicada em jornal. Ao mesmo tempo, demonstrando que nem tudo eram flores naquele jardim, chamava a atenção para um menino que andava pelas ruas quase nu e descalço, alimentado pela caridade pública e correndo o risco de entrar em vício contra o qual a “sociedade lançará o ferrete de criminoso” quando foi maior, denunciando a realidade da época, por falta de quem tomasse de conta do peralta.

O que pensa o leitor depois da mais que centenária crônica ao trazê-la para nossos dias e ver passar diante dos seus olhos a atual cidade de Manaus?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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