Vale a pena voltar nossa memória para alguns dos grandes feitos culturais do Clube da Madrugada, como foram os contistas. Foram eles que fizeram ressurgir a região na literatura. Alguns com muito rancor, como Arthur Engrácio, outros, com humor corrosivo, como Carlos Gomes. Em 1960, Arthur Engrácio, jornalista, publica um pequeno volume de contos “Histórias de submundo”. Eram 128 páginas desiguais, unidas apenas pelo rancor. Por que esse rancor que exala de seus contos? Arthur Engrácio, que nasceu em Manicoré, no rio Madeira, é um homem que veio do interior: um sequestrado. Na capital, repetiu a jornada de problemas que todos os sequestrados repetem para se firmar. Conseguiu se educar, tornou se jornalista e funcionário público.

Qual o interiorano que não se contentaria com isso? Mas o escritor não se contentou, trazia muita ferocidade e só a literatura parecia oferecer uma perspectiva.

“Histórias de submundo” é a prova de que se agarrou a ela como alguém se agarra ao inimigo: pelo pescoço. Quase asfixiada sua literatura traz os dramas protagonizados por suas memórias de infância, e os melhores contos são os que refletem diretamente este repertório. Já Carlos Gomes toma a literatura com mais delicadeza, tem humor. Seu livro, “Mundo mundo vasto mundo”, editado em 1966, parece seguirá risca o título irônico, retirado de Drummond. Só que o “vasto mundo” é a Amazônia liliputiana das mediocridades provincianas. Arthur Engrácio, um sequestrado, e Carlos Gomes, um professor irônico, representa m o momento que retirou a literatura do Amazonas da passividade. Na verdade, muita coisa aconteceu entre os tempos de Álvaro Maia e o “Clube da Madrugada”. Graciliano já não produzia mais e Corpo de Baile já havia sido publicado. Ligados ao realismo crítico, muito mais próximos da necessidade direta de expressar a região, os jovens contistas retraçaram os flagrantes, depois de mergulharem pela amarga experiência do modernismo em sua versão provinciana. Tanto prova que as mudanças estruturais que ocorriam no país não eram totalmente acompanhadas no Amazonas que mesmo o Movimento Modernista, na ação de enfrentar apressadamente o destino colonizado do Brasil, chegou em Manaus como mais uma retórica preparada para reconhecer os dados do retrocesso. Clóvis Barbosa fizera publicar o único número de sua revista modernista, animado por Raul Bopp. “Equador”, editada em 1929, sete anos depois da Semana, trazia um editorial inflamado contra o passadismo, declarava “não ter vergonha do Jacaré e do boi bumbá”, e queria destruir a “velha sensibilidade dobacharel, do literato fofo e palavroso”, enfim, contra todas as “quinquilharias cretinas”; mas era um editorial estruturalmente parnasiano. Clóvis Barbosa, como o modernismo amazonense de sete anos depois, foi um escritor equivocado, malogrado, e a sua revista pouco possuía de modernista no sentido paulista do termo. Numa bizarra democracia, “Equador” publicava colaborações de passadistas, fetichistas e modernosos. O Modernismo tinha como programa a libertação da inteligência brasileira, finalidade ambiciosa demais para ser acompanhada em Manaus. O resultado e que suas experiências formais estagnaram, empalideceram, e os poucos representantes amazonenses do movimento contornaram o caráter de invenção para ritualizar a modernidade. Somente com a experiência dos anos do populismo é que o escritor amazonense estará livre dos atavismos. Arthur Engrácio já podia fazer a literatura do interior com autenticidade. Carlos Gomes podia observar com calculada crueldade a mediocridade provinciana. Os entomologistas aderiam à contestação. Com os outros companheiros do “Clube da Madrugada”, esses contistas cultivavam uma profunda admiração pela agressividade da renovação crítica e político do pós-guerra.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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