Uma notícia vinda de Basileia, Suíça, sede da empresa Novartis, com data de 20 de março último, informa que a Novartis compromete-se a doar até 130 milhões de doses de hidroxicloroquina para apoiar a resposta global à pandemia de Covid-19. Embora constrangedora, na ótica amazônica, essa informação traz uma reflexão inadiável. Trata-se de uma empresa que emprega 125 mil pessoas, e alcança 1 bilhão de beneficiados com seus medicamentos, e que foi obrigada pelo Congresso Nacional do Brasil ao constrangimento público de provar que não faz biopirataria ao longo de 250 anos – idade das empresas de onde surgiu – na indústria farmacêutica. O que faria uma empresa como esta investir R$ 1,3 bilhão para produzir e distribuir graciosamente para os infectados com a Covid-19? Visibilidade, lucro e respeito. E o que levaria políticos a meter a mão no bolso para ajudar a mostrar que ela não funciona?

Deitado em rede esplêndida

Convidados pelo CNPq, órgão federal de pesquisa, em 2002, os suíços se dispuseram a investir Us$ 122 milhões para produzir medicamentos de combate a doenças tropicais, em parceria com Centro de Biotecnologia da Amazônia, o CBA. Foram, praticamente, expulsos do Brasil, e voaram para Cingapura, onde construiriam uma biópolis, uma cidade bioindustrial, com os 100 melhores biocientistas da Terra. Ali, dengue, malária e doença de chagas são patologias que os cientistas só conhecem por literatura. Eles se limitam a orientar a produção de medicamentos e, entre seus melhores clientes, está o Ministério da Saúde deste país.

CNPJ, ou o laudo da inépcia?

Na última reunião virtual do Comitê da Indústria ZFM-Covid19, uma iniciativa das entidades da indústria, CIEAM/FIEAM, para mobilizar esforços na direção de saídas que possam amenizar os dramas da pandemia do novo coronavírus, o CBA, Centro de Biotecnologia da Amazônia, foi chamado para ingressar na cruzada cívica. Vale lembrar que seus sofisticados laboratórios, pagos pelas empresas do Polo Industrial de Manaus, através das taxas da Suframa, estão produzindo testes para diagnosticar a Covid-19, entre outras soluções tecnológicas. Será que nem em clima de calamidade pública, o Brasil, em lugar de autorizar CNPJ, seguirá produzindo atestados de insensatez? Desta vez não, né?

Por que não nos levam a sério?

A fábrica de vacinas, que a empresa construiu em Cingapura, em 2005, seria em Manaus. Política partidária e burocracia excessiva foram os argumentos da empresa para explicar porque os grandes laboratórios não investem em pesquisa no país. Para se ter uma ideia, na Argentina, uma licença leva três meses para autorização de produção. Na Europa, duas semanas. No Brasil, de 6 a 12 meses, para acessar a biodiversidade e começar uma prospeção de cosméticos ou medicamentos. Em Manaus, para liberar a produção – pasmem! – da empresa Novamed, fabricantes de remédios genéricos, demorou quase cinco anos. É maçante ficar contado, volta e meia, esses descaminhos do Brasil. Tudo, porém, tem um propósito. Como sossegar, se o CBA, passados vinte anos, terá que enganar a burocracia para poder salvar vidas com os testes da Covid-19, pois, juridicamente, a instituição não existe?

Benefícios suprimidos

 Há outros exemplos de aberrações institucionais. Há três anos, sob a estranha gestão do InMetro, o CBA recebeu mais de 100 encomendas e consultas de bionegócios, vindas de gigantes da indústria de cosméticos e farmacêutica, incluindo concorrentes da empresa Suíça, com protocolos de biomoléculas bem específicas. Não havia nas encomendas a gravidade e a emergência da Covid-19. Entretanto, ali estava a chance de realizar a sonhada expectativa de, enfim, implantar um Polo de Nanotecnologia, no coração da floresta amazônica, onde aguardam 20% dos princípios ativos da Terra para responder a demandas da Humanidade. Sabe o que aconteceu, duas décadas depois que o CBA foi criado? De efetivo, nada!

Existe cura para insensatez?

Entre os medicamentos potenciais, um dos mais desejáveis seria a cura para tanta insensatez de nossos governantes. Acabou em CPI, Comissão Parlamentar de Inquérito da Biopirataria, o Caso Novartis, num teatro de scripts viciados que costumam chegar a lugar algum.  O propósito do CBA era criar uma parceria na Amazônia, uma estrutura de pesquisa, desenvolvimento, inovação e mercado, para os tratamentos de doenças tropicais, entre outras opções, para adensar e diversificar o Polo Industrial de Manaus, como insiste, há quase 10 anos, o gestor do CIEAM, Wilson Périco, com as Novas Matrizes Econômicas. A proposta da farmacêutica há duas décadas, era disponibilizar remédios gratuitos ou a preço de custo e analisar/confirmar se a Amazônia tem mesmo soluções para essas doenças, entre outras oportunidades sustentáveis de progresso científico e prosperidade social. Ou será que tudo não passa de um ledo engano?

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

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