A Amazônia foi incluída social, econômica e culturalmente na chamada civilização cristão ocidental envolvida pelo mito expansionista do El Dorado: ultra aequinotialem non peccatur, não se comete pecado na linha do equador. A partir desse princípio não tem mais o que se discutir tudo é permitido para o enriquecimento rápido e fácil dos conquistadores: depredar a natureza, abusar das índias e dos índios, escravizar os negros e etc….

É nesse contexto de brutal desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos nativos por parte dos europeus que a Amazônia é inserida na sociedade capitalista ocidental. Ainda hoje, é na Amazônia o maior índice de trabalho escravo, maior índice exploração sexual de menores, maior índice de trabalho infanto-juvenil, e etc….

Inicialmente, na fase concorrencial portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses disputaram o domínio sobre os recursos naturais e humanos da Amazônia. Hoje na fase neoliberal agrupam-se as grandes potências no que chamam G-7 ou G-8 e desenvolvem estratégias para retirar do governo brasileiro e de seu povo a soberania sobre a Amazônia.

Por sua vez, o governo brasileiro precisa implementar medidas estruturantes que possam de fato dar uma base sólida para um desenvolvimento sustentável para os amazônidas. A “blindagem” da Amazônia em relação às ameaças da “cobiça internacional” e dos narcotraficantes não se faz apenas com bases militares, estas são importantíssimas para combater os inimigos fora da lei, mas é necessária também a construção das bases civis dotadas de todas as tecnologias modernas que são: as escolas, as escolas técnicas, as escolas agrotécnicas, os campi das universidades federais, para se construir a cidadania. Estas são as estratégias mais eficientes, eficazes, duradouras e sérias para a popularização da ciência e da tecnologia.

O cidadão bem assistido pelo Estado com educação, saúde, moradia, emprego e segurança é o combatente mais valoroso contra os inimigos externos. Os inimigos internos que precisam sofrer um combate rigoroso por todas as forças do nosso país são: o desemprego, a miséria, as doenças, a ignorância, e a falta de moradias e sobretudo o combate sem tréguas à corrupção dos políticos e dos dirigentes públicos.

Wangari Muta Maathai, Prêmio Nobel da Paz de 2004, nos ensina que os caminhos do desenvolvimento sustentável passam necessariamente pela formação de uma consciência humanística global, única maneira de se assegurar paz e sobrevivência para o planeta, para os países, para as cidades e para cada um de nós.

Na evolução dos últimos cinquenta anos, o planeta suportou guerras, ideologias conflitantes, explosões demográficas, destruição do meio ambiente e aumento incomensurável da pobreza. Por outro lado, assistimos a instituições que foram feitas visando à promoção do bem-estar e da justiça tornarem-se anacrônicas e dogmáticas. Das Nações Unidas à Organização Mundial de Comércio, do Fundo Monetário Internacional ao Banco Mundial e aos diversos fundos feitos pelos oito países desenvolvidos com os seus surplus econômicos, nenhum desses instrumentos foi capaz de consolidar os conceitos de sustentabilidade dos recursos naturais e da justiça social. O mundo continua pendurado na ideia de que “segurança é melhor”, e que na maior parte das vezes ela só é alcançada através de atividade militar. (Israel Klabin. JC e-mail 2638, de 01 de Novembro de 2004). 

Quando o General português Gomes Freire de Andrade reunido com o Conselho das Missões para adotar medidas contra as ameaças dos ingleses franceses e holandeses sobre a Amazônia foi muito sábio quando disse aos militares portugueses: “Os índios amigos dos portugueses são as muralhas do sertão” eestabelecida esta aliança com os caciques indígenas pôde o governo português preservar a hegemonia sobre a Amazônia. Não menos sábias também foram as diretrizes do presidente Luís Inácio Lula da Silva quando no seu primeiro mandato recomendou a seus ministros: 

“Estamos convencidos de que vencer os desafios brasileiros passa exatamente pela construção de um novo caminho: habilitar a sociedade para manejar seu potencial econômico, social e cultural de forma cada vez mais racional e solidária. Tornar a cidadania, em todos os níveis, um bem comum. Essa é a verdadeira questão inscrita no PPA 2004-2007: a escolha do futuro – o Brasil que a sociedade deseja construir no século XXI a partir dos recursos disponíveis e dos investimentos que vamos viabilizar em projetos articulados nacional e internacionalmente. Desenvolvimento com justiça social para nós é isto: parcerias criativas e transformadoras, a partir da construção de amplos consensos sociais, um após o outro. Cada um deles pacientemente conquistado. É assim que estamos construindo o Brasil dos nossos sonhos”. (Luís Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, PPA 2004-2007). 

Hoje, na Amazônia, não pode ser diferente. Somente esta aliança entre governo federal, estadual e municipal, somente a aliança entre cidadãos militares e civis ombreados e unidos pelos mesmos ideais de edificar uma grande nação poder-se-á resgatar o desejo de nossos antepassados cabanos de construir “O país do Amazonas, feliz e livre, leal entre os seus naturais, que só ama a paz com liberdade”, livres das ameaças que a todo instante são manifestadas por líderes mundiais.

Em 1981, as diretrizes expedidas pelo Conselho Mundial das Igrejas para seus missionários na Amazônia afirmava explicitamente: “A Amazônia total, cuja maior área fica no Brasil, mas compreende também parte dos territórios da Venezuela, Colômbia e Peru, é considerada por nós como um patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa área pelos países mencionados é meramente circunstancial”. É a partir dessa data que vários líderes mundiais têm manifestado suas opiniões sobre a limitação da soberania brasileira na Amazônia.

“Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. (Al Gore, ex-vice-presidente do Estados Unidos, 1989). 

“O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. (François Miterrand, ex-presidente da França, 1989).

O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes”. (Mikhail Gobachev, ex-presidente da extinta União Soviética, 1992).

Nesse contexto, após os acontecimentos de onze de setembro de 2001 e com a reeleição dos republicanos agrava-se a doutrina Bush de ataques preventivos e intervenção militar em países que contrariem os interesses dos Estados Unidos. É muito clara a sinalização dada pelos Estados Unidos aos povos do mundo inteiro que através de mentiras e falsificações invadiu o Iraque. As autoridades brasileiras todas têm colocado a Amazônia como prioridade nacional.

A Amazônia está no centro das prioridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Não apenas por sua importância estratégica nos contextos dos territórios nacional e continental. Mas também pelo que representa o patrimônio de sua biodiversidade, ainda a ser totalmente dimensionado, alvo constante de atenções internacionais. Dois dos maiores desafios da Amazônia são a exploração econômica sustentável e sua integração, interna e ao próprio País. (Eduardo Campos, Ministro do MCT, 56ª Reunião da SBPC).

No entanto, investe-se na Amazônia menos de 1% do orçamento de C&T da União. (JC e-mail 2604, de 13 de Setembro de 2004).

Já se esgotaram os discursos dizendo da importância da Amazônia para o planeta em função dos seus recursos naturais e de suas matérias primas e etc….

Mas “Você não se iluda porque não tem nenhum país que ficou rico com matérias primas. Você tem que pensar antes de mais nada, a longo prazo e pensando a longo prazo você começa com educação […] Sem educação a coisa não vai. Fica-se martelando as mesmasbesteiras (grifo nosso) de 50 anos atrás. Não se faz isso; não se faz nada. É uma tristeza. Na minha idade, você olha para trás, dá pena de ver essa pobreza que a gente cria”. (Eliezer Batista. (Entrevista) Só pela educação se sai da pobreza. Gazeta Mercantil, 16/11/04. Pág. A-4).

A UNESCO pelo Conselho Internacional de União Científica – ICSU em Budapeste e Santo Domingo, afirma que a distinção entre pobres (sejam pessoas ou países) e ricos não é somente a posse de bens, mas também o fato de que a grande maioria destes está excluída da criação e dos benefícios do saber científico.

Os dados estatísticos do CNPq e da FINEP evidenciam claramente que a maior parte de seus recursos estão desigualmente distribuídos no Brasil. Isto se traduz em desigualdade e injustiça entre as regiões e exclui as minorias pertencentes a etnias específicas, a um determinado sexo, grupo social ou localização geográfica.

A ciência deve responder às necessidades da sociedade para possibilitar a melhoria das condições de vida da maioria da população que vive em situação de pobreza extrema, e os avanços científicos devem ser utilizados por todos os cidadãos.

Este compromisso que se demanda para assegurar uma cultura científica de qualidade para todos tem um principal destinatário, que é a educação. São requeridas novas e diferentes alianças entre os setores formais, não formais e alternativos, com a criação de novos formatos e modalidades que se adequem às comunidades mais carentes desta formação.

Reivindica-se, portanto, um processo que assegure uma ciência de qualidade para todos. Este processo não deve concentrar-se somente entre os muros dos sistemas educativos ou entre os muros das escolas e instituições de pesquisa, este requer uma participação cada vez maior de novos atores e a formação de alianças com responsabilidades e compromissos compartilhados, para que possam, utilizando-se da sua ótica particular, dar a sua contribuição ao processo. Isto deve contribuir para a integração das políticas educativas e das políticas de desenvolvimento científico e tecnológico na Amazônia.

Por sua vez o Banco Mundial em suas publicações afirma:

Em uma economia global, onde o “capital humano” é crítico para a competitividade, desigualdades que resultem no não-desenvolvimento das aptidões e conhecimento das pessoas, entre outros fatores, podem de fato retardar o crescimento econômico e enfraquecer o impacto de redução da pobreza de qualquer crescimento obtido. A chave para a redução das desigualdades na América Latina é a educação. A educação é o ativo produtivo mais importante do qual poderá dispor a maioria das pessoas. 

Existe, pois uma unanimidade entre as várias ideologias de que a educação é a base para o desenvolvimento sustentável, justo e para todos e as escolas em todos os níveis são, até hoje, a melhor tecnologia social para a difusão de tecnologias modernas, inovações tecnológicas e inclusão social e etc…

O atual governo deve implementar uma política pública de Estado, otimizando os recursos, numa ação conjunta de vários ministérios que possam ter continuidade em sucessivos governos e ser de fato a base para um desenvolvimento sustentável centrado no desenvolvimento das pessoas, das comunidades, enfim, da sociedade. Ações que só transferem os recursos públicos para segmentos já organizados só concentram mais e mais os benefícios do crescimento provocando e acentuando cada vez mais a exclusão social.

As tecnologias sociais surgiram exatamente para superar as ações assistencialistas dos sucessivos governos. Não basta difundir tecnologias, construir escolas, postos de saúde, hospitais, ginásios esportivos e etc….é preciso educar e organizar o povo para assumir com responsabilidade o cuidado por todos estes imóveis públicos organizando os Conselhos Comunitários, as associações de pais e mestres, os amigos do bairro e etc., para que os cidadãos organizadamente exerçam a cidadania.

A interiorização das escolas técnicas, das escolas agrotécnicas, das escolas de pesca, entre outras e dos campi universitários das universidades federais e estaduais trarão benefícios incalculáveis para as pessoas, para comunidade e para a sociedade regional. A melhoria dos cursos de pós-graduação nas universidades e nos institutos de pesquisa será a estratégia mais eficiente e eficaz para a fixação de doutores, mestres e líderes de grupos de pesquisa aqui na região amazônica uma vez que essas pessoas já na sua formação desenvolverão os compromissos na pesquisa dos problemas regionais e hão de superar o colonialismo interno mais perverso a que a Amazônia está submetida que é o colonialismo de suas instituições de pesquisa.

Na verdade, as populações amazônicas entram em contanto com os colonizadores numa situação de profunda desigualdade técnica, política e cultural. O que identifica os amazônidas é ser um povo ao qual foi negada a oportunidade de construir a própria história. Um povo que não teve chance de afirmar os valores, a sua cultura, enfim, o seu modo de ser, entender e expressar a vida. Darcy Ribeiro sintetiza muito bem esta situação foram: nações abortadas.

Somente concentrando esforços em ações conjuntas em que cada ministério contribua com sua ação específica para toda a comunidade poderemos reverter as consequências desastrosas decorrentes do atual modelo de intervenção na Amazônia com uma política de Ciência e Tecnologia que privilegie, incorpore e desenvolva os conhecimentos secularmente acumulados pela sabedoria das populações tradicionais. Na Amazônia, a ciência não pode se separar da sabedoria.

É necessário e urgente instituir a política de cotas para os amazônidas em todas as instituições de pesquisa que tenham pós-graduação em território amazônico. Somente assim os amazônidas formarão um quadro de pesquisadores comprometidos e sensíveis com os problemas que tanto afligem os povos amazônicos acabando com o diletantismo científico e imprimindo relevância social às pesquisas em uma região que tanto necessita de tecnologias sociais.

Como em todas as partes do planeta, na Amazônia, a base para as inovações tecnológicas com inclusão social, econômica e cultural é a educação, através da interiorização das escolas técnicas, agrotécnicas, agrominerais, escolas de pesca, campi universitários e outras instituições educadoras.

Na Amazônia tecnologia tem que ser entendida como as aplicações do conhecimento na geração de produtos e processos indispensáveis à convivência e ao desenvolvimento humano nas relações interpessoais, sociais e com a natureza, estendendo-se desde as tecnologias primitivas até às de última geração.

Os institutos de pesquisa localizados aqui na Amazônia, sustentados pelo governo federal com dinheiro público, embora não dirigidos por amazônidas, tem o dever moral e o compromisso ético de desenvolver pesquisas de alta relevância social, que solucionem problemas enfrentados pela sociedade regional. Não é possível que o governo federal continue financiando diletantismo científico. Os cientistas, em uma região como a nossa devem estar preocupados também com os problemas que afligem os trabalhadores nos processos produtivos; com as donas de casa na sua luta pela sobrevivência das famílias, com os índios na superação do extrativismo e com tantos outros segmentos sociais excluídos.

É necessário e urgente realizar uma CONFERÊNCIA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARA AMAZÔNIA em que todas as instituições de pesquisa lideradas pelo MCTI definam programas de pesquisas e inovações tecnológicas para a Amazônia a partir das necessidades sentidas pelos vários segmentos da sociedade amazônida: empresariado local, trabalhadores, nações indígenas, os quilombolas e outros mais e ao final desse evento se produza um documento que oriente as políticas e as linhas de pesquisas oficiais permanentes e necessárias para os próximos anos, evitando paralelismos, repetições de projetos e etc…

Compartilhar
Roberto Monteiro de Oliveira
Natural de Manaus, AM. Licenciado em História pela FSFCLL/SP. Mestre em Geografia pela UNESP. Doutor em Geografia pela USP. Analista de C&T do INPA.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui