*Luna Lomonaco

A matemática é um mundo perfeito; cabe a nós criá-lo ou descobri-lo.

Há alguns anos, eu estava num bar em Toronto escutando uma banda. Quando a apresentação acabou, um dos instrumentistas veio à minha mesa, a única cheia além daquela dos amigos dos músicos. Eu era a única mulher na única mesa ocupada, e o cara começou a dar em cima. Sorrindo, ele me perguntou quem eu era, de onde era. A terceira pergunta foi o que que eu estava fazendo na cidade. Respondi que era matemática, e estava lá para um congresso no FieldsInstitute. Antes mesmo de eu acabar a frase, o cara deu meia-volta e foi embora.

Esta foi a reação mais extrema que já provoquei ao me apresentar, mas estou acostumada a encarar uma dose de ceticismo, incredulidade, diria até decepção, quando digo o que faço. Com frequência, depois que o interlocutor da vez me confessa quanto era bom ou ruim em matemática na escola, e sobretudo quanto odiava ou amava a disciplina (não sei por que essa confissão sempre aparece, mas o fato é que ela sempre surge, e me surpreendo por esta matéria que muitos consideram “fria” despertar tantas emoções), as perguntas que seguem são do estilo: “Você é matemática? Quer dizer que você dá aulas de matemática?”, e eu: “Bem, também dou aulas de matemática, mas também faço matemática”. “Faz o quê? Faz contas?”. “Não, na verdade nem vejo muitos números no meu dia a dia, tento demonstrar teoremas”. A essa altura o interlocutor costuma dizer “Oooh”, às vezes menciona Pitágoras, mas em geral não pergunta mais nada – e às vezes começa a procurar uma forma delicada de dar meia-volta e ir embora.

O que eu faço enquanto matemática? Tento entender aquilo que fizemos até agora, mais precisamente uma parte da matemática que foi feita até agora, e tento criar (ou descobrir) mais. Por quê?

Faço matemática há dezesseis anos, e me pergunto isso há dezessete (pois comecei no último ano de ensino fundamental, quando optei pela disciplina em vez de cursar filosofia ou qualquer outra coisa). Acho que a resposta é: “Para tentar descobrir a verdade”. Quando demonstramos um teorema, aquilo que está escrito naquele teorema vira verdade, verdade absoluta: existe uma demonstração, isso quer dizer que há uns passos lógicos que podem ser seguidos para se chegar àquilo. E qualquer um pode percorrer esses passos – basta estudar para entendê-los.

A verdade não muda mudando de pessoa, gênero, raça, país, continente, cultura. A verdade é verdade, e sempre será verdade. Isso me fascina, e além de me fascinar, me convoca. Pois tem algo em mim que me faz procurar ter certeza absoluta daquilo que eu acho ser verdade, e tenta defini-lo, demonstrá-lo, e separá-lo daquilo que é mentira. Tem algo em mim que procura um mundo perfeito, coerente, consistente. E então o cria: um maravilhoso mundo paralelo onde tudo faz sentido. Por esse aspecto, penso a matemática como uma forma de arte, a expressão de uma perfeição que algo dentro de nós anseia.

Por outro lado, considero a matemática uma parte ou uma espécie de hiperurânio platônico: o mundo das ideias perfeitas (nós, aqui no mundo real, vivenciamos cópias destas ideias, e tentamos entender o mundo por meio da ciência, que utiliza matemática). E nesse sentido, este mundo perfeito e exato não é criado pelos matemáticos, mas descoberto. O teorema que estou tentando demonstrar, outros já tentaram demonstrá-lo, e se eu não chegar lá, outra pessoa chegará. O teorema existe independentemente de mim. Desse modo, a matemática é um mundo perfeito que existe independentemente de nós, já existia e sempre existirá, só está à espera de alguém descobri-lo e mapeá-lo: demonstrá-lo por meio de passos lógicos que qualquer um pode seguir, se quiser visitá-o.

Por que faço matemática? Porque não sei se a gente cria ou descobre, mas sei que, num caso ou em outro, para mim, vale a pena: se algo perfeito pode existir, eu quero que exista.

*Pesquisadora em Matemática Pura e Aplicada. Matéria na Folha de São Paulo, de 06/05/2020.
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