Marcelo Leite
*Marcelo Leite

Edifício do conhecimento seguro sofre abalo quando pesquisas não podem ser repetidas por terceiros.

Ia escrever sobre coronavírus crise climática, mas é bom mudar de assunto. Ainda em estado de choque com a notícia de que o impacto da epidemia na produção chinesa está reduzindo em 25% as emissões de carbono da potência asiática, de momento, pela paralisação de transportes e atividades industriais.

E tem gente que considera a covid-19 uma doença menor, que o alarme inicial teria sido injustificado, que “a mídia exagerou” etc. Talvez seja uma manifestação de insensibilidade perante o drama na China, onde se concentram 99,5% (2.348) das 2.359 mortes registradas até sábado (22). Para comparação: o surto de coronavírus da SARS, em 2002/3, causou 774 óbitos.

O restante do planeta deveria dar graças aos céus por haver uma ditadura no poder na China. Sua drástica reação, após hesitação inicial, e as restrições impostas à liberdade individual, impensáveis numa democracia de estilo ocidental, estão a provar-se eficazes ao menos para impedir que a mortífera epidemia doméstica se converta numa pandemia global.

Mudando então de assunto: a ciência biomédica de estilo ocidental também está doente. O diagnóstico aponta uma crise séria de reprodutibilidade, isto é, um de seus órgãos vitais se encontra gravemente comprometido.

A situação talvez não se afigure tão ameaçadora quanto a metástase que espalha notícias fraudulentas (“fake news”) pela opinião pública brasileira, mas faz temer pela saúde do conhecimento seguro. Há indicações crescentes de que estudos relevantes para a medicina se apoiam em experimentos que ninguém pode ou consegue reproduzir.

São requisitos básicos da boa ciência, como a conhecemos até aqui. Publicam-se os resultados, depois de passarem por revisão de outros cientistas (“peer review”), com informação suficiente para que se possa repetir o experimento em qualquer laboratório capacitado, de maneira a confirmar o achado.

Só que não: há pesquisadores escondendo os dados (para não falar dos que os falsificam ou inventam). Uma amostra clara disso surgiu num editorial de Tsuyoshi Miyakawa no periódico Molecular Brain, do qual é o editor-chefe, publicado sexta-feira (21).

Nos dois anos em que esteve na função, ele recebeu 181 submissões de artigos. Em 41 casos os resultados lhe pareceram “bonitos demais para ser verdade”. Em lugar de enviar o manuscrito para revisão especializada, devolveu-os aos autores com um pedido para fornecerem os dados brutos a apoiar suas análises e conclusões.

Metade deles (21) retirou a submissão, indicação provável de que os dados ou não existem ou não sustentariam as alegações. Outra hipótese: a negativa pode significar que o pesquisador pretende resguardá-los para aproveitamento em futuras publicações (a “tática do salame”, fatiar um estudo para emplacar mais de um artigo e, assim, embelezar indicadores de produtividade).

Dos 20 que acataram o pedido do editor, 19 tiveram o manuscrito recusado por uma de duas razões: os dados oferecidos não eram suficientes ou estavam em desacordo com as conclusões. Resumindo: de 41 artigos que levantaram suspeitas, só 1 terminou publicado em Molecular Brain.

Miyakawa verificou depois que 14 dos 40 artigos descartados por ele acabaram editados em outros periódicos. Voltou a fazer contato com 12 desses autores e pediu os dados brutos por correio eletrônico. Ficou sem resposta de 10, teve negativa de 1, e o outro só lhe enviou dados parciais.

Não faltam levantamentos como esse a sugerir que os alicerces do edifício da ciência contemporânea têm lá suas fissuras. Incomoda não saber o quanto de fato se encontram comprometidos, mas já há quem se proponha a sondá-los.

Aqui mesmo apareceu uma proposta nessa direção, a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade. O grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) obteve recursos do Instituto Serrapilheira para tentar reproduzir 50 a 100 experimentos biomédicos do país em três laboratórios.

Mais importante que os achados individuais, a iniciativa servirá para dar ideia da confiabilidade da ciência nacional e contribuirá, decerto, para melhorar as práticas laboratoriais e editoriais, de modo a reduzir a incidência de manipulações. Afinal, na comunidade científica, diferentemente das redes sociais e do Planalto, evidências e fatos concretos ainda produzem luz e consequências.

*Jornalista. Articulista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima, de 24/02/2020.
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