Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Pessoas não vacinadas geneticamente resistentes ao coronavírus começam a ser objeto de estudos.

O telefone tocou numa segunda-feira às 23h. “Meu marido acordou com febre, fez o teste PCR, e deu positivo. O que eu devo fazer para não pegar?”

Expliquei que seria preciso isolá-lo num quarto, os dois deviam usar máscara o tempo todo e guardar o máximo de distância um do outro.

PUBLICIDADE

Ela quis saber se era fundamental manter o isolamento com rigor. Respondi que sim, que o período em que a transmissão acontece com mais facilidade é o que vai de dois dias antes dos primeiros sintomas a três dias depois do aparecimento deles. Ela acrescentou meio sem graça: “Pois é. Nós tivemos relações no sábado e no domingo”.

A doença do marido evoluiu com comprometimento pulmonar, ele foi hospitalizado, mas não houve necessidade de transferi-lo para a UTI. Ela permaneceu assintomática, com testes repetidamente negativos.

Como explicar esses casos de contato íntimo com uma pessoa infectada, sem ocorrer transmissão? Alguns indivíduos são naturalmente resistentes ao SARS-CoV-2?

Esse fenômeno é descrito em outras viroses. Pessoas que dividem a cama com alguém resfriado ou gripado nem sempre ficam doentes. Num inquérito epidemiológico que realizamos na Casa de Detenção, o Carandiru, encontramos uma travesti presa havia vários anos que tivera mais de mil parceiros sexuais no ano anterior à pesquisa, com os quais tinha praticado sexo anal receptivo, desprotegido -a prática sexual de maior risco. Era HIV negativa. O teste foi repetido e o resultado confirmado três vezes. Naquela época a prevalência do HIV no presídio era de 13,7%.

Numa publicação na revista Nature Immunology, um grupo internacional de cientistas iniciou uma pesquisa para estudar pessoas geneticamente resistentes ao coronavírus. O objetivo é identificar os genes que as protegeram da infecção.

A dificuldade numa pesquisa com essas características é encontrar participantes que foram expostos, sem proteção, a uma pessoa infectada, por tempo prolongado, mantendo o teste negativo, como o da paciente que me ligou na segunda-feira.

O surreal da pandemia

Homem transporta cadeira na região da Consolação , zona central de São Paulo Karime Xavier/Folhapress

Parque de diversões vazio no bairro Itaim Paulista, zona leste de São Paulo Karime Xavier/Folhapress

Máscaras cobrem estátuas do Monumento às Bandeiras, do escultor Victor Brecheret, na região da Vila Mariana Karime Xavier/Folhapress

No caso do estudo em questão, eles vão se concentrar em casos semelhantes: pessoas não vacinadas que dividem a casa e a cama com alguém infectado, situação definida em medicina como pares discordantes. Em dez centros de pesquisa, um dos quais no Brasil, já foram recrutados 500 candidatos em potencial.

Desde a publicação do estudo, no entanto, surgiram mais 600 que se apresentaram como voluntários. O objetivo é chegar a mil participantes. A dificuldade será saber se o parceiro infectado eliminava quantidades altas do vírus na época do contato.

Em pesquisas anteriores, outros grupos detectaram algumas mutações genéticas que são candidatas a exercer o papel de reduzir a suscetibilidade à infecção. Uma delas seria uma mutação rara no gene ACE2, que codifica o receptor no qual o coronavírus se ancora para penetrar na célula.

Esse tipo de mecanismo foi descrito nos anos 1990, quando foi achada uma mutação rara capaz de inativar um receptor -CCR5- na membrana dos linfócitos, que o HIV utiliza para entrar na célula. É provável que a travesti do teste negativo, depois de tantos contatos sexuais, apresentasse essa mutação.

Na época, essa descoberta conduziu ao desenvolvimento de uma classe de medicamentos contra a Aids. Amplamente noticiado nos jornais foi o caso de um paciente com leucemia e Aids que recebeu um transplante de medula óssea de um doador que apresentava essa mutação no CCR5.

Dia Mundial de Combate à Aids

Aluno exibe o rosto e a mão pintados com mensagens no Dia Mundial de Combate à Aids em Chandigarh, Índia Ajay Verma/Reuters

Homem coloca um cartaz enquanto prepara uma mensagem durante uma campanha de conscientização sobre HIV/AIDS em Kolkata, na Índia Rupak De Chowdhuri/Reuters

Pessoas colocam velas em torno de uma fita durante uma cerimônia conscientização sobre a Aids no Dia Mundial de Combate à Aids em Ahmedabad, Reuters

O paciente adquiriu a mutação do doador e ficou curado da Aids. Foi a primeira cura documentada da doença no mundo.

Outro mecanismo de resistência ao SARS-CoV-2 pode ser explicado pelo desenvolvimento de respostas imunológicas potentes, especialmente nas células que revestem as fossas nasais.

A presença de mutações nos genes dessas células poderia impedir que o vírus se instalasse e se replicasse para formar novas partículas virais.

As dificuldades de uma pesquisa como essa foram resumidas por Isabelle Meyts, imunolgista pediátrica da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica: “Se existir resistência genética ao SARS-CoV-2, deve haver apenas algumas pessoas com esses genes”.

No caso da Aids as mutações em CCR5 também eram raras, mas a identificação delas levou a descoberta de medicamentos que ajudaram controlar a doença.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 03/11/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui