Conto retirado do livro “Uma amazonense em Copacabana”, São Paulo, 2018.

Há duas coisas sobre as quais minha querida tia Idalina mantém absoluto segredo: sua idade e seu voto. Na última vez que estive no Rio de Janeiro, tentei “jogar verde” para saber em quem havia votado nas últimas eleições, mas foi em vão. “Voto é secreto”. Fim de papo.

O único voto que se sabe até hoje, de tia Idalina, foi aquele dado ao Jânio Quadros no início dos anos 60, voto esse de que ela se arrepende amargamente. Manteve segredo durante anos. Até que numa calorosa discussão sobre política, na época das “Diretas já”, confessou seu crime. Sim, havia votado naquele crápula.

Arrependeu-se e culpa o Jânio Quadros pela derrocada política do país desde então. Saudosa de votar para presidente, torceu pela redemocratização, e prometeu a si mesma: se houvesse eleições diretas para presidente,jamais declararia o seu voto. Seria sempre secreto. E cumpre a promessa; é uma questão de princípio! Possivelmente vota em branco.

Titia me disse que os amigos e sobrinhos de “esquerda” pensam que ela vota em candidatos da “direita” e vice-versa.

De fato, a tia Idalina tem posições meio paradoxais. É favorável ao Bolsa Família, mas contra qualquer tipo de cota ou subsídio. Vai entender! Em princípio, é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas está muito orgulhosa porque foi convidada para ser madrinha do casamento de seu cabeleireiro de anos, o Duda, com outro rapaz.

A cerimônia será num centro espírita em Realengo, com recepção na casa da mãe/avó do próprio Duda. A grande preocupação de tia Idalina é como deve se dirigir ao rapaz que vai se casar com o Duda: companheiro, cônjuge ou marido? Disse-lhe que só advogado e policial usam a palavra “cônjuge”. Marido pode soar como deboche. O melhor mesmo é se referir ao rapaz como companheiro.

Outra preocupação de tia Idalina é quem vai penteá-la para a cerimônia de casamento. O que fazer, já que um dos nubentes é seu cabeleireiro exclusivo há mais de dez anos?

Titia vai fazer par com o dono do salão, que é tio do Duda. Um senhor de 70 anos confessos. Tia Idalina, que não declara a idade, diz ter mais de 65 anos e, portanto, ter todos os direitos do Estatuto do Idoso, Lei 10.741/2003.

Acho que é a única pessoa que não é advogado que sabe o número dessa lei.

– Tenho direitos – diz ela. – Não sou mais obrigada a votar. Mas voto! Faço questão. Não sou obrigada a declarar meu voto. Não falo! Também não sou obrigada a dizer minha idade. Não digo!

Tia Idalina exerce com toda plenitude a cidadania sênior. É o que os americanos chamam de seniorcitizens.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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