Matéria extraída do Tomo XII do Caderno de Debates GEEA (Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos), publicação do INPA, Manaus 2018.

Resumo

Este artigo apresenta um panorama sintético sobre o desenvolvimento da Medicina na Amazônia, incluindo as principais doenças, métodos de tratamento, instituições e programas de governo traçados para a região. Apesar de esse desenvolvimento ser muito complexo, com avanços e retrocessos, ele é tratado em períodos distintos e em ordem cronológica, partindo do período indígena, seguido do colonial, apogeu e declínio da borracha até os dias atuais. Cada um desses períodos apresenta características próprias, especialmente quanto aos surtos de doenças endêmicas como malária, varíola, tétano, beribéri, hanseníase e tuberculose. Ao final, é feita uma avaliação sobre a situação atual e os desafios a serem enfrentados pela Medicina e a sociedade em geral, levando-se em conta que a saúde está intrinsecamente vinculada a vários outros fatores socioeconômicos, como infraestrutura, educação, cultura e bons hábitos.

Antônio José Souto Loureiro

Médico reumatologista, historiador e escritor; membro do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), da Academia Amazonense de Letras, da Academia Amazonense de Medicina e membro correspondente da Academia Nacional de Medicina; autor de várias obras, dentre as quais: Síntese da História do Amazonas, Amazônia 10.000 anos; A Grande Crise; O Amazonas na Época Imperial; Tempos de Esperança; História da Medicina e das Doenças no Amazonas; História da Navegação no Amazonas, A Amazônia e o V Império, A Gazeta do Purus, O Brasil Acreano e outros

Introdução

De modo semelhante ao que ocorreu na Economia, o setor médico na Amazônia também se desenvolveu em ciclos ou em períodos. De um modo geral, esses podem ser estabelecidos, sucessivamente, em período indígena; colonial; ciclo da borracha, com distintos níveis ou segmentos; período de grande crise e do tempo moderno. Abaixo são fornecidos alguns dados históricos e estatísticos sobre cada um deles, incluindo uma conclusão geral e perspectivas sobre o setor médico na Amazônia.

  1. Medicina Indígena

O ciclo indígena inicia numa fase anterior ao descobrimento e vai até o estabelecimento de Missões, seguido da divisão da região entre as Ordens Religiosas, até o final do século XVII, dentro da ideologia de uma sociedade indígena cristã perfeita e igualitária e dirigida por sacerdotes. Nessa fase predomina o poliextrativismo e abrange parte da época colonial, da lusitanização e parte do período imperial (1700-1850), com ênfase na exportação das chamadas drogas do sertão e de produtos da fauna, como a manteiga de tartaruga e o pirarucu seco. Nessa fase a economia é centralizada no sítio; a sua unidade de produção é autosuficiente em alimentos, mas importadora de produtos industrializados transportados por regatões e as canoas a remo e a vela.

As práticas de cura indígenas na Amazônia são muito antigas, de milhares de anos, mas persistem até hoje, variando de povo para povo, de grupo para grupo, e em tal quantidade, que poderíamos criar uma gigantesca enciclopédia com base nesses conhecimentos primitivos e milenares.

A medicina indígena amazônica tem similitude com a dos povos das religiões xamânicas, que um dia dominaram as estepes estendidas da Hungria à Patagônia, penetrando em algumas regiões florestais das Américas e da Ásia; ela é baseada no culto aos espíritos ancestrais, às coisas e às forças telúricas da natureza, por meio de práticas mágicas, acompanhadas de músicas ritmadas e do consumo de estupefacientes.

Em sua obra sobre os uarequenas venezuelanos ou uarequenas brasileiros – povo de origem aruaque do rio Negro – Omar Gonzalez relatou que a Medicina entre eles é exercida por diversos tipos de pajés, destacando-se o soprador; este recebe o diagnóstico de uma doença mediante as alucinações produzidas por uma erva, sendo também sonhador, e que se reúne ao chupador para as curas; o primeiro, soprando a fumaça do tabaco ao ritmo do maracá, para invocar os espíritos; o segundo, chupando a parte afetada, para tirar o mal ali colocado; nesse momento, ambos cantam antigas músicas, realizando rituais secretos e usando as ervas sagradas. Terminada a cerimônia, banham-se no rio, enquanto o paciente deve jejuar.

Em seus rituais, os pajés sempre se utilizaram de plantas e pedras. Como plantas de defesa existem diversos tipos de tajás: o verde com pintas rosadas, chamado de tajá-onça, plantado diante da maloca para avisar dos perigos; o verde de folhas pequenas e de pintas brancas, o brasileirinho, plantado atrás das malocas, para dar medo aos visitantes; o verde peludo, para que o seu possuidor seja querido por todos, e o de folhas verdes, em forma de lança, para se conseguir trabalho. Além desses, vários outros tipos de vegetais, são considerados sagrados.

Para o tucano Gabriel Gentil, essas plantas são de uso muito antigo, sendo alimentadas pelos sopros dos criadores do mundo, representados por ventos, trovoadas, calores e chuvas, e que criaram a Terra, com a ajuda delas. Segundo este autor, no princípio só existiam plantas boas, pois foi muito tempo depois que o Trovão criou os venenos. Entre as plantas principais usadas nos rituais figuravam os diversos tipos de ipadú, maniva, tabaco, paricá, kahpi e centenas de outras, todas usadas para a cura das doenças, ajuda na caça, na pesca e crescimento das plantas.

As pedras também eram utilizadas e essas variavam de cores, tamanhos e formas, destacando-se as pedras-peixes, pedras-cobras, pedras-antas, pedras-onças, pedras do trovão, do sol e da lua e que tanto curavam como produziam doenças, e cuja ação positiva ou negativa delas estava no seu contato com o corpo doente.

A profissão de pajé era exercida com muita frequência pelo homem, mas não era exclusividade dele; podia ser exercida por certas mulheres escolhidas, atuando nos partos e em algumas cerimônias especiais.

O resguardo da gravidez era feito pelo homem, constituindo-se na prática da couvade, durante o qual o pai ficava de repouso na rede, com uma dieta de peixes pequenos, beiju, farinha de tapioca e caças especiais, para os filhos crescerem fortes e inteligentes. O mau-olhado sempre foi considerado importante na produção de doenças, sendo contrabalançado pela formação de barreiras protetoras, por meio de plantas e objetos apropriados.

Toda essa medicina continua viva entre as populações indígenas da Amazônia e talvez ainda traga novas contribuições para a farmacologia mundial, como já ocorreu com os curares, de onde foram extraídos relaxantes musculares e anestésicos; o cumaru, de onde saiu o primeiro anticoagulante, a cumarina; a quina, da qual resultou o quinino, o primeiro antimalárico e tantas outras mais.

  1. Medicina Colonial

Corresponde à fase do monoextrativismo, em que a economia nos seringais era baseada na compra e exportação de borracha e totalmente dependente das importações de alimentos e outros produtos industrializados e ainda utilizando-se do barco a vapor para a sua movimentação.

No período colonial, a Medicina na Amazônia, no restante do Brasil e nas demais colônias portuguesas, foi exercida legalmente por físicos e cirurgiões e ilegalmente por uma grande malta de charlatães, práticos, curadores, curiosos, pajés, curandeiros e barbeiros; Alexandre Rodrigues considerava tão numerosos quanto os políticos da Itália.

Os físicos diplomavam-se pela Universidade de Coimbra, sendo poucos os que desta formação aqui chegaram, correspondendo aos atuais clínicos gerais. Mais raros ainda foram os doutores, aqueles que haviam defendido tese após completarem os seus cursos.

Os cirurgiões, muito mais numerosos, prestavam exames nos hospitais e, se aprovados, recebiam uma carta dando-lhes o direito de exercerem a cirurgia e excepcionalmente a clínica, onde não existissem físicos. Ao lado deles atendiam os cirurgiões-barbeiros, seus aprendizes ou ajudantes, alguns com carta e realizando pequenas operações, sarjando tumores, sangrando, aplicando ventosas e sanguessugas, extraindo dentes e cortando cabelos.

Físicos e cirurgiões trabalhavam como profissionais liberais, mas podiam prestar serviços ao governo, sendo então chamados de médicos de partido, pagos pelas Câmaras Municipais, para atenderem os pobres, os presos, os necessitados e os escravos recém-chegados; também podiam ser pagos pela Coroa, para consultarem as tropas e atuarem nos problemas judiciários.

A carta informativa datada de 15 de março de 1787, do médico Antonio José Ferreira Braga, dirigida a Alexandre Rodrigues Ferreira, que a publicou, tem grande interesse para a História da Medicina Amazônica. Ela trata da insalubridade de Belém, da atuação dos práticos, dos conceitos vigentes sobre a etiologia das doenças mais comuns e dos remédios baseados na flora regional, tudo de acordo com a sua formação acadêmica europeia desse século XVIII.

O cirurgião Antonio Joseph de Araújo Braga – o grande informante dos dados sobre a Medicina da Capitania de São José do Rio Negro – frequentara o Hospital de Cádiz, por uns três ou quatro anos; trabalhara no Hospital de Évora, por outros quatro, e por mais de onze, no Hospital de São José de Lisboa, onde fora enfermeiro e cirurgião fiscal do segundo banco, praticando a Medicina e a Cirurgia, aprendendo a Anatomia e outras matérias da arte. Por estes motivos se considerava apto para exercer a profissão na Capitania, e, embora não nomeado, manipulava receitas como boticário. Em 1787, continuava a serviço da Coroa, como cirurgião da gente de guerra da demarcação de limites do Tratado de Santo Idelfonso, atuando no Hospital de Barcelos há mais de sete anos.

Para Araújo Braga, os principais causadores de doenças continuavam sendo os quatro elementos ou agentes naturais, quando atuando de forma inadequada: as águas, o calor, o vento, a umidade, o frio e as emanações palustres, os chamados miasmas; por outro lado, os principais tratamentos eram baseados nas sangrias, nos vomitórios, nos purgantes e nos clisteres, conhecimentos muito antigos adquiridos em Hipócrates, Galeno, Rhazes, Avicena e Averróis. Assim transcrevo alguns de seus princípios:

“Os miasmas decorrentes da putrefação de animais e peixes, misturados a restos de plantas venenosas, como o assacu, a erva de rato e o timbó, sob a ação do sol, nas margens dos rios, em tempo de pouca chuva e vento, produziam diarreias de sangue, disenterias, fluxos hepáticos e febres diárias, muito comuns, embora as intermitentes aparecessem mais nos rios Uaupés e Japurá; a água turva dos rios, associada às imundícies jogadas às margens pelos habitantes, ou depositadas na natureza, obstruía os pequenos vasos, produzindo palpitações, cardialgias, icterícias, hidropisias e caquexias […]”. Para evitá-las, sugeria a retirada do líquido do meio dos cursos fluviais, filtrando-o em pano e precipitando-o com alúmen.

“O forte calor aqui reinante, aumentando a transpiração e a urina, deixava o sangue seco, térreo e espesso, daí resultando a melancolia, a lepra, os vômitos pretos, as câmaras de sangue e as febres; o excesso de banhos nos rios produzia constipações, cefalalgias, odontalgias, oftalmias e otalgias; o calor e a umidade, associados às mudanças bruscas de temperatura, nos expostos ao sereno, ou ao se descobrirem a noite, com janela aberta, causava sarnas, impigens e herpes, além do beribéri; as vazantes e enchentes traziam os defluxos, sendo os catarrais acompanhados de tosse convulsa, ceifando grande número de crianças”;

“Os alimentos de má qualidade causavam grandes infestações de lombrigas; a pele adiposa dos índios e dos negros, além da má vida, ocupada em trabalhos violentos, do consumo de alimentos em mau estado, da exposição constante às intempéries e dos excessos de bebida, facilitavam um maior contágio das bexigas e do sarampo, entre os indivíduos daquela raça”.

As idéias acima citadas estão fora de cogitação da Medicina Moderna, mas servem para mostrar os esforços de Araújo Braga em dar sentido a uma interpretação sobre as doenças mais comuns e que apareciam em nosso ambiente de condições climáticas equatoriais; muitas delas continuam a influir no ideário ou inconsciente médico popular regional.

Em seus apontamentos, Araújo Braga relatou a facilidade com que aqui se infeccionavam as feridas e as úlceras, apresentando o caso da cesura de sangria da índia Margarida Josefa, que apostemara horrivelmente pela falta de fio e excesso de ferrugem, na lanceta utilizada.  Ele associou a grande insalubridade reinante em Belém à sua localização num pântano e com curtume, matadouro e forno de cal dentro do seu perímetro urbano; à existência de um ancoradouro para barcos procedentes da África; à péssima alimentação baseada em peixes secos, ardidos e podres; às farinhas; à importação de gêneros de má qualidade, como o vinho e o trigo; ao despejo de imundícies das casas e ruas e finalmente aos charlatães.

Apesar de suas especializações, não entendia da arte de curar reinante na Capitania de São José, feita por empíricos, que jamais haviam aberto um livro, sendo muitos analfabetos, mas conhecedores das “virtudes das plantas, para tudo tendo uma erva ou segredo prático”, tolerando o seu uso onde havia falta de profissionais. Como exemplo, ele citava os esforços dos comandantes das canoas que viajavam para Mato Grosso, subindo o rio Madeira; eles sabiam, por experiência, curar as doenças mais comuns do percurso, provendo as suas boticas de bordo de eméticos (tártaro e ipecacuanha), tônicos (extrato de pó da China e sal de losna), purgantes (jalapa, ruibarbo, quintilha e pinhão) e estimulantes (gengibre, pimenta malagueta, sal, enxofre e pólvora).

O médico impressionou-se com o curioso em cirurgia Joseph Soares, que se auto-operara com um aguçado prego de meia caverna, usado na fabricação de canoas, durante a viagem que fizera, em 1782, entre Mato Grosso e Barcelos; ele descreveu os acidentes produzidos por animais peçonhentos – mandis, aranhas, surubins, arraias, lacraus, osgas, tocandiras e cabas – identificando a ação anticoagulante do veneno da jararaca, que no seu entender dissolvia o sangue, fazendo-o sair pelos poros e orifícios naturais. Dos tratamentos populares em uso, no Amazonas, ele registrou alguns, que julgava válidos contra algumas das doenças e sintomas mais comuns, com as denominações daquele tempo, na Amazônia Ocidental.

Assim, para cefalalgias e hemicranias, os tratamentos receitavam vapores do cozimento das folhas de laranjeira, limoeiro, manjericão e pajamarioba, acompanhados de chás das mesmas plantas, além de compressas do cozimento das folhas do jenipapeiro e do pau-tamanca, do sumo do gengibre, abutua ou da erva teiú, nas têmporas; para as oftalmias, os colírios do cozimento da raiz do cipó gapuí, da água que destila da palmeira caraná açu, da madeira carapanaúba e das folhas dos olhos da copaibeira; para as odontalgias, a raiz do cipó ambuarembó, a raiz da mucuracaá, as flores e as folhas do jambu que têm as mesmas virtudes do piretro e o óleo do umirí; para a tosse catarral, o cozimento de alcaçuz da terra, com mel silvestre, das flores de perpétuas vermelhas, do mamão macho, do urucu e da raiz do malvarisco, com o mesmo mel.

Além dessas, também citavam os seguintes sintomas e seus remédios: para cólicas, o gengibre ralado na água quente ou na aguardente, o puxuri e as frutas da preciosa, também ralados da mesma forma; para vômitos, as sementes de copaíba raladas em aguardente, água quente ou leite de peito e de um a quatro grãos de pinhão, para evacuar; para verminoses, o cozimento de folhas de mucuracaá, com flores de crista de galo; os cataplasmas de fumo em folha, fel e azebre, sobre o umbigo, que dá ótimos resultados; o leite da cuaxinguá da folha estreita tomado pela manhã, bebendo-se depois leite, ou lavando-se a boca com água quente.

 

A lista ainda incluía o tratamento dos acidentes ofídicos usando o cozimento e lavatório de folhas de mucuracaá, da planta pau para-tudo e da casca e da fruta do paranacaxi com a erva aipana: discutíveis, segundo o nosso informante; para o beribéri, fricções de óleo de umiri, banhos de vapores de manjericão bravo e de casca preciosa; nas catalepsias, afoguear a cama, fricções quentes de vinagre e de arruda e uma beberagem de água morna, com pó do príapo do jacaré; na gonorreia, o cozimento da casca do limão azedo, com gotas de limão e copaíba; nas úlceras, o sarro de cachimbo e folhas de caapeba; para as hemorroidas, os banhos e clisteres de água morna ou cozimento de malvarisco e caamembeca, as mechas de talos da erva babosa e os fios untados em manteiga de cacau; as impigens, com aplicações das folhas do olho do mata-pasto grande, acerado da entrecasca da sua raiz, em vinagre, e das bagas do comandá açú; nas sarnas, os linimentos de azeite de andiroba, com enxofre, ou a espuma de água de timbó; como vomitório, a raiz do manacá e para purgantes, o pinhão ou cozimento de folhas de abutua, pau-moquém e ipadu.

Essas mezinhas, empregadas pelos práticos de antanho, algumas oriundas da Europa, e em grande parte próprias da Amazônia, de efeitos terapêuticos discutíveis ou por investigar, ainda continuam em uso, passados mais de duzentos anos. Por isso a carta do cirurgião Araújo Braga é um precioso documento para conhecermos as atividades médicas e práticas terapêuticas utilizadas, neste século XVIII, no imenso território da Capitania de São José do Rio Negro, hoje Estado do Amazonas.

Os Hospitais Coloniais

As mais antigas instituições hospitalares da Amazônia foram estabelecidas  no Pará, nos séculos XVII e XVIII e se destacam a Santa Casa, fundada a 24 de fevereiro de 1650; a enfermaria dos Capuchos da Conceição; a enfermaria dos Capuchos da Piedade, em Gurupá e o Real Hospital Militar de Belém, hoje denominado de Casa das Onze Janelas, datando de 1768 (Figura1).

Apesar da grande distância dos centros civilizados, o Amazonas também teve um hospital, ainda no século XVIII, de pomposo nome e modestas instalações – o Real Hospital Militar da Capitania de São José do Rio Negro (Figura 2) cuja construção foi iniciada em 1775 e terminada em 1776; ele fazia parte do quartel destinado a ser a sede das negociações da fronteira, com a Capitania da Venezuela, local onde Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador Geral do Estado do Grão Pará e Rio Negro, aguardou, por anos, a chegada do plenipotenciário espanhol. O hospital foi a pequena casa de uma porta e duas janelas, a esquerda do quartel, na pintura abaixo.

A descrição dessa obra está contida no Diário da Viagem Filosófica ao Rio Negro – Participação Primeira – Barcelos, do insigne naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira; trata-se da expedição científica destinada ao estudo da Amazônia Portuguesa, que saiu de Lisboa a 1º de setembro de 1783, chegando ao Pará a 21 de outubro daquele mesmo ano e onde permaneceria até 1785. Nas suas peregrinações pela Amazônia, gastou nove anos de sua vida, organizando coleções científicas, a serem remetidas para a Metrópole, e registrando dados econômicos, agrícolas, demográficos, antropológicos, geográficos, históricos e religiosos dos lugares por onde passou.

Neste deambular, esteve de 1785 a 1788, na bacia do rio Negro, seguindo para o rio Madeira, onde trabalhou até 1791, retornando a Belém e daí regressando ao Reino, em 1792. Após tantas canseiras, quase todo o acervo recolhido pela sua expedição, foi pilhado e levado para a França, pelo cientista Geoffroy Saint-Hilaire, quando da ocupação de Portugal, pelas tropas de Napoleão, servindo de base para as teses posteriores daquele cientista francês.

Em 1786, segundo Alexandre Rodrigues, o Hospital Militar estava anexo ao quartel de Barcelos, sendo ele “uma casa comprida, quase toda assoalhada, entijucada, coberta de palha, com uma só porta entre as duas janelas da frente; de reduzidas dimensões, com a capacidade de apenas doze leitos, aumentada, sempre que necessário, com a armação de redes, muito mais usadas do que as camas, em toda a Amazônia”.

Nele faltavam os materiais e os oficiais que os manejassem. Não havia à porta um biombo, que protegesse os doentes das correntes de ar, sendo a única proteção, nessas eventualidades, fechá-la, consistindo isto em um grande perigo, à época em que o “ar canalizado ou encanado” participava como uma das causas primeiras das pneumonias e de outras doenças pulmonares.

Pela inexistência de um isolamento, os doentes de varíola costumavam tratar-se na enfermaria geral, onde os outros enfermos arriscavam-se a adquirir esse mal que fazia tantos estragos entre os índios, principalmente entre os recém-descidos. Para se evitar este tipo de contágio, pela primeira vez, em 1784, foi acomodado em um tijupar, no quintal do Hospital, o soldado Albino Joseph que havia sido transferido de Tefé, por estar acometido de lepra; o mesmo acontecendo com o soldado Simão Joseph, em 1786, os primeiros casos registrados da doença, no Amazonas e também o primeiro isolamento efetuado aqui.

Na dieta nem sempre se servia galinha, pela sua raridade, então considerada indispensável na convalescência dos internados. A carne bovina era substituída pela de tartaruga, e o pão, pela farinha de mandioca, geralmente de má qualidade. A carestia, a escassez e o pouco cuidado no preparo dos alimentos deixavam por vezes os doentes em penúria.

O Hospital só admitia militar e índios em serviço, tratando-se as demais pessoas da vila em suas casas e às suas custas. Os medicamentos utilizados eram fornecidos pela botica da Capitania, e, na sua falta, pagos pela Fazenda Real ao cirurgião, sendo raros e na sua maior parte ineficazes, fazendo mais mal do que bem, por estarem frequentemente estragados.

Apesar de desaparelhado, este hospital muitos serviços prestou à região, como ponto de apoio às tropas encarregadas da defesa e da delimitação das nossas fronteiras; nele pontificaram inúmeros médicos e cirurgiões, um dos quais deixou registrada a sua experiência. O Hospital teve um Regimento Interno extremamente interessante, pelas suas originalidades e adequações à situação local.

Com a mudança da sede da Capitania para a foz do rio Negro, pela necessidade de proteger a região do Solimões, cuja posse estava sendo contestada pelos espanhóis de Requeña, para ali foram transferidas as tropas encarregadas desta função, sob as ordens do plenipotenciário Manuel da Gama Lobo D´Almada e o Hospital de Barcelos foi abandonado, fundando-se o novo Hospital Militar de São Vicente, na ilha do mesmo nome, no extremo oeste do Lugar da Barra, em Manaus, onde hoje está uma unidade da nossa Marinha de Guerra.

O Regimento do Hospital Real dos Soldados da Vila de Barcelos

O historiador amazonense Artur César Ferreira Reis revelou em seu livro Aspectos da Experiência Portuguesa na Amazônia o regimento do Hospital Real dos Soldados da Vila de Barcelos, datado de 4 de março de 1772 e rubricado pelo governador e pelo provedor da Capitania. Nesse regimento é estabelecida a rotina a ser adotada, com respeito à sua administração, aos livros de receituário e de dietas, ao controle da qualidade e da quantidade de gêneros, às admissões de doentes, à fiscalização do atendimento e à distribuição dos alimentos.

A direção do estabelecimento cabia a um inspetor, oficial ou sargento, que deveria ser “soldado de verdade”, isto é, autêntico, sincero e de boa fé; além dessas qualidades possuiria as da economia e da caridade, sendo o responsável pela carga dos bens, dos móveis e das alfaias registrados nos livros da Fazenda. O cirurgião estava incumbido do preenchimento de dois livros, controlados pelo provedor da Fazenda, sendo o primeiro destinado ao registro dos medicamentos receitados, pelo qual eram arrecadados, e o segundo, para as anotações das dietas diárias a serem dispensadas aos internados, quanto à quantidade e qualidade.

Um possível descaminho de gêneros era seriamente considerado, pois vários itens do Regimento disto cuidavam, tendo em vista as dificuldades de abastecimento da região, com produtos alimentares vindos de outras capitanias ou do além-mar. Por esses motivos extraia-se diariamente um bilhete com a relação dos alimentos a serem gastos, assinado pelo escrivão da fazenda e pelo inspetor, rubricado pelo provedor e pelo governador, pelo qual eram retirados do armazém, ou das mãos do fiel, que mensalmente solicitava a autorização das despesas, com os bilhetes apensos, o que era feito pelas autoridades enumeradas, sendo em seguida destruídos, para evitar uma segunda utilização.

A fiscalização dos gêneros gastos fazia-se pelo oficial da guarda, que diariamente ia ao Hospital assistir às visitas do cirurgião, ao jantar e à ceia dos enfermos, anotando os gastos do dia, como contraprova aos bilhetes e aos livros de dietas, caso houvesse alguma dúvida.  Uma internação só poderia ser feita após a aceitação do paciente pelo cirurgião e a sua respectiva confissão por um padre, quando então o inspetor levava o pedido ao governador, que o autorizava. Ao próprio governador, ou a pessoa de sua confiança, competia ir algumas vezes ao Hospital, para ali saber diretamente dos soldados se estavam ou não bem assistidos, examinando as queixas e dando providências.

No médio rio Negro, onde se encontrava Barcelos, não existiam os alimentos a que estavam acostumados os europeus. Ali se consumia com frequência a piraíba, também denominada filhote, peixe de pele desprezado no restante do Amazonas até a bem pouco tempo; o abastecimento local dependia do trabalho de equipes de pescadores indígenas, nos pesqueiros da foz do rio Branco, do lago do Rei, perto do Encontro das Águas e no do lago Grande de Manacapuru, no Solimões; esses locais supriam a sede da Capitania com grandes quantidades de pirarucu seco e de tartarugas vivas, entre as quais havia grande mortandade, no transporte e nos currais onde aguardavam o abate.

A criação de gado bovino praticamente inexistia; o trigo, o arroz, a manteiga, o vinho e o açúcar, além de muitos outros alimentos, eram importados; os esforços para trazê-los do Reino e do Pará, a remo, à vela ou à sirga, além de cansativos e penosos, duravam às vezes mais de cem dias, a partir de Belém. A farinha de mandioca aqui produzida era insuficiente e de baixa qualidade. As galinhas constituíam-se em uma raridade.

Por conta da escassez de alimentos, no final do Regimento, estavam estabelecidas as rações necessárias ao sustento de um grupo de enfermos, nas seguintes proporções: 3 libras de arroz, para cada nove enfermos; 7 rações de tartaruga e de farinha da terra, para cada sete enfermos; 3 galinhas e 6 pães, para cada seis enfermos; 2 quartilhos de vinho, para cada quatro doentes; 6 onças de farinha do reino (trigo); 6 onças de açúcar e 4 onças de manteiga do reino, para os caldos de cada três enfermos; 2 quartilhos de leite, para cada dois internados. Nessa lista notamos certa adaptação às condições regionais, como o uso da carne de quelônios no lugar da carne verde, bem como o uso da farinha de mandioca ao lado de diversos produtos do Reino, aqui extremamente raros até os tempos atuais, como o leite fresco.

Outro fato digno de nota é a existência da seguinte frase, no Regimento: “exemplar que se há de escrever em um quarto de papel”, um indicativo da raridade deste material, na Amazônia, durante o período colonial, o que explicaria a pequena quantidade de documentos antigos aqui existentes, uma vez que o papel era um bem caríssimo, frequentemente reutilizado. Acresça-se que o clima amazônico, pela umidade, contribuiu para a destruição de grande parte dos escritos então produzidos.

Religião e Farmacopeia

Desde a Idade Média e até o Renascimento os conceitos médicos sempre estiveram baseados na idéia bíblica de que Deus, na sua Divina Ira, castigava os ímpios com as doenças, mas, ao mesmo tempo, com a sua Divina Misericórdia, criava plantas ou ervas, que as curavam, conceito não muito longe do dos nossos indígenas, que consideravam as doenças e as suas curas um jogo entre as suas divindades.

Esta terapêutica fitoterápica teve grande expansão, com o aparecimento das ordens religiosas, como a dos beneditinos, e outras, pois em todas as abadias existia um horto destinado ao cultivo de plantas medicinais, sob as ordens de um irmão herbolário, também responsável pela farmácia abacial; ali se preparavam medicamentos dessas ervas, sob a forma de tinturas, óleos e xaropes, além de perfumes e licores; nelas também se produziam substâncias químicas, obtidas a partir das experiências dos alquimistas europeus e árabes.

As farmácias precursoras da indústria químico-farmacêutica dos tempos modernos eram administradas pelos boticários, ao mesmo tempo médicos, farmacêuticos, cirurgiões e comerciantes, que lidavam com o preparo, o receituário e a venda de medicamentos, diferentemente dos especieiros, que só vendiam as especiarias.  Em 1338, os boticários, médicos e cirurgiões de Lisboa, para exercerem as suas profissões, estavam obrigados a prestar exames perante os médicos do rei e, em 1461, já havia uma separação entre as profissões de médico e de boticário.

Os descobrimentos marítimos trouxeram notável impulso à farmacopeia, com a introdução de novos produtos e plantas encontrados nas Américas, África e Ásia. Neste último continente, em Goa, em 1563, o médico Garcia da Horta (1501-1568) escreveu o livro Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia, contendo as primeiras descrições científicas modernas de numerosas plantas. Mais tarde, já no século XVIII, o naturalista Rodrigues Ferreira, após anos de pesquisas na Amazônia, remeteu valioso acervo para Portugal.

As farmácias conventuais continuaram em atividade entre as Ordens Religiosas, destacando-se neste campo os agostinianos, dominicanos e jesuítas, no Reino; no Brasil, se destacavam os franciscanos e jesuítas, que possuíam boticas na Bahia, Recife, Olinda, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo, onde os remédios eram vendidos aos ricos, dados aos pobres, ou aplicados nas enfermarias.

A partir do século XVIII, começou a aumentar o uso de medicamentos químicos, que com o tempo suplantaram a farmacopeia tradicional. Assim passava a existir uma Farmácia Química, com produtos de composição definida e obtidos através de métodos científicos, e uma Farmácia Galênica, sem definição química, a dos xaropes, unguentos e extratos de cunho herborista.

O primeiro livro, em língua portuguesa, ensinando o preparo de remédios foi a Pharmacopea Lusitana de Dom Caetano de Santo Antonio, boticário do Convento de Santa Cruz de Coimbra, que teve uma segunda edição, em 1711, logo seguida pela Pharmacopea Ulissiponense, de 1716, e pela Pharmacopea Tubalense, de 1735. Contudo, a primeira farmacopeia oficial, obrigatória quanto à sua utilização em todas as farmácias de Portugal e colônias, foi a Pharmacopea Geral de Francisco Tavares, professor de Coimbra, editada em 1794.

No Brasil, o comércio de medicamentos só foi autorizado ao público em 1640, quando surgiram as primeiras boticas e também foram realizadas as primeiras sangrias. Logo em seguida as boticas proliferaram dirigidas por boticários licenciados ou autorizados, por terceiros aprovados em Coimbra, ou pelo físico mor colonial. Deste fato aproveitavam-se pessoas despreparadas, obtendo cartas de licença graciosas ou compradas, que logo se associavam aos comerciantes de secos e molhados. E por todo o período colonial momentos de facilidades alternaram-se com períodos de fiel cumprimento das leis, quando os charlatães tinham menor possibilidade de proliferarem.

Boticas Portáteis

Além das boticas fixas, que evoluíram para as atuais farmácias, existiam as chamadas boticas portáteis, usadas nos navios mercantes e de guerra, nas visitas oficiais ao interior, e, no caso da Amazônia, nas expedições exploradoras de novos rios ou nas demarcadoras de limites entre Portugal e Espanha.

Uma botica portátil era a extensão de um hospital a quem o responsável por ela obrigava-se a prestar contas. Constituía-se de uma mala de madeira, com diversas gavetas, divididas em nichos, contendo vidros com medicamentos, copos, balança granitaria para líquidos até 17,5gramas, instrumentos para a preparação de medicamentos e um pequeno arsenal cirúrgico. Sem dúvida essas boticas portáteis foram as precursoras das célebres “ambulâncias”, que até tempos bem recentes eram mandadas ao interior do Amazonas, para o atendimento dos surtos epidêmicos, ou para as campanhas políticas. Entre os instrumentos cirúrgicos podiam figurar as lancetas, tesouras, pinças, ventosas, atadura enrolada em globo, chumaços, fios, agulhas de coser e caneta com nitrato de prata, também denominada pedra infernal.

Entre os utensílios registrados nas listas encontravam-se borracha para seringa e seringa da terra – o equivalente às peras ou bulbos de borracha, até hoje usados nas duchas ginecológicas, fabricados no Solimões e as algálias. Esses produtos eram produzidos na própria Amazônia, na região do Solimões, pelos índios e brasileiros, com o látex da Simphonya elastica, o nome que então se dava à Hevea brasiliensis, em florescente indústria de utensílios. As algálias (sondas uretrais) foram um grande alívio para os prostáticos desde então.

Medicamentos

A lista de medicamentos relacionados nas boticas é bastante extensa, abrangendo produtos naturais sob as formas de óleos, extratos, espíritos, xaropes, unguentos, tinturas e produtos químicos obtidos, pela metodologia alquímica ainda predominante a época.

Dentre esses medicamentos sobressaiam-se os xaropes: soluções pegajosas de açúcar, obtidas em diversas texturas, conforme o tempo de fervura, destacando-se dentre eles o xarope de violas, feito com violetas (Viola odorata) e raízes vomitivas e béquicas ou antitussígenas; xarope emético, obtido a partir do tartarato de potassa e antimônio; xarope de papoulas ou de dormideiras – princípio ativo obtido da Papaver somniferum, da qual se extrai o ópio, usado em gargarejos e como expectorante, sedativo e narcótico; xarope de limão – nas gripes, resfriados e escorbuto; xarope de coclearia, usado no escorbuto; xarope ou mel rosado, feito de rosas e usado no sapinho (candidíase) e em embrocações das vias aéreas superiores.

Óleo ou azeite: produto líquido, untuoso e inflamável, destacando-se dentre eles o óleo de terebintina – essência extraída de diversos tipos de Pinus, a partir da sua resina. Óleo de abóboras, linhaça, copaíba, macela e de amêndoas doces – como emolientes da pele, cicatrizantes, analgésicos, vermífugos, em embrocações e amigdalites.

Espírito: substância que sofreu destilação, destacando-se dentre ele o espírito de vinho, o álcool; espírito de sal amoníaco, a amônia e espírito de corno, raspas de chifre de veado, em álcool, usado em alguns preparos como eletuário e também na impotência.

Água da Rainha: folhas de alecrim e alfazema maceradas em álcool; filtrada, após três dias, usava-se em fricções e massagens; água forte – ácido nítrico; água de milícia ou melissa e água da Inglaterra, usados como estimulante, sedativo, calmante, digestivo e purgativo.

Além desses, também havia as tinturas de mirra, cravo, tamarindo, cana fístula e losna; extrato de jalapa; ópio; extrato de saturno; vinagre branco e rosado; unguento de azougue; basilicão; alteia; calamina e unguento de espermacete e o cremor tártaro, um bi tartarato de potássio.

Os cremores eram preparados a partir do cozimento de frutas; obtinha-se da polpa do tamarindo ou dos tonéis onde amadurecia o vinho; aplicava-se em limonadas purgativas. Sal de Tártaro – o carbonato de potássio, purgativo. Registra-se que a farmácia química deste século XVIII possuía muitos produtos a base de chumbo, antimônio, mercúrio e enxofre, considerados altamente tóxicos, na medicina moderna.

  1. A Medicina do período áureo da borracha (1850-1912)

O ano que marca o verdadeiro início deste período, em que o poliextrativismo dos sítios é definitivamente substituído pelo monoextrativismo da borracha silvestre é o ano de 1858, quando a exportação do pirarucu seco, para o consumo do Pará, é superada definitivamente pela exportação da borracha, para o exterior. Dai para frente, a borracha natural tornou-se uma matéria prima indispensável para o conforto da humanidade.

Do seu uso em peras, sondas e borrachas de apagar, tornou-se indispensável na impermeabilização das capas e sapatos para os pescadores das regiões frias. A sua procura foi aumentando com modernidade de novas descobertas como a de isolantes de fios elétricos e foi substituindo a madeira das rodas das bicicletas, que ficaram menos barulhentas e macias. Finalmente chegou-se ao automóvel e depois ao avião necessitando cada vez mais de borracha para câmaras e pneus, além da sua utilização nas bolas dos esportes de massa da atualidade: futebol, vôlei e basquete, que não teriam atingido as proporções que têm, senão fosse essa capacidade elástica de vencer a gravidade, como pensou La Condamine, pela primeira vez, ainda no século XVIII.

A necessidade de quantidades sempre maiores de borracha natural, para os pneus, foi o que levou ao roubo das inadequadas sementes de seringueira barriguda, uma variedade não produtora de látex, que aumentou um pouco este período áureo, senão teria terminado 15 anos após a remessa das sementes, entre 1890 e 1900, o que só ocorreu em 1912, trinta e sete anos após o contrabando, em 1912, quando a produção da Amazônia foi superada pela do Sudeste Asiático. Mas isto é um assunto especializado para outra área de estudo.

Este período corresponde a três subperíodos distintos: quando a produção da borracha começa a crescer:

3.1. A produção de borracha começa a crescer – as doenças do primeiro período imperial (1850-1870)

Caracterizou-se pela existência das antigas doenças endemo-epidêmicas e o acréscimo da febre amarela, que se tornou endêmica e do cólera, que após uma epidemia, desapareceu; pela presença de uma maior quantidade de médicos e pela obrigação dos Relatórios dos Presidentes

da Província ao Imperador, a partir de 1850, com dados referentes à Saúde Pública. Compreende o antigo território da antiga Capitania de São José do Rio Negro, que deveria ter passado a Província, em 1823, somente se transformou na Província do Amazonas, a 5 de setembro de 1850.

A partir de então seus Presidentes foram obrigados a apresentar ao Imperador relatórios sobre a situação provincial, incluindo os dados relativos à Saúde Pública, o que trouxe melhor conhecimento sobre o assunto, do que na época anterior. São quase cem relatórios abrangendo quase meio século da nossa história médica.

No primeiro relatório elaborado, em 1852, pelo primeiro presidente da Província do Amazonas, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha havia informações sobre uma recente epidemia de sarampo, que ceifara centenas de vidas, principalmente entre os índios mura. Esta era uma virose recentemente introduzida, na Amazônia, pois o registro da sua primeira incursão datava de 1749, quando fizera numerosas vítimas entre a população indígena, sem qualquer resistência a ela. Entre outras doenças o Relatório registrou a elefantíase dos gregos, a pinta ou puru-puru, uma treponematose só mais tarde identificada, muito comum entre os índios do Purus; ela se caracteriza por manchas hipocrômicas espalhadas pelo corpo, falsamente relacionada, até os nossos dias, pela população nativa, com a ingestão de peixes gordos e nocivos, isto é, de pele e pintados; as febres intermitentes (malária), atingindo as populações das localidades do médio rio Negro, todos os anos, e despovoando-o.

Essas doenças estiveram vinculadas erroneamente à existência de “mortíferos venenos e pútridos restos de peixe, que infeccionam as águas e concorrem para a exalação de miasmas tão pestíferos”, pois ainda se desconhecia a sua transmissão, e a varíola, produzida por outro vírus recém-importado, com uma grande epidemia iniciada, em 1721, e que durou até 1733, tornando-se, desde então, mais frequente, com sucessivos surtos mantidos pelas chegadas de escravos importados nas péssimas condições dos navios negreiros. A varíola geralmente invadia o Amazonas com os passageiros e tripulantes dos barcos vindos do Pará, que ficavam ao desamparo, com a fuga dos sadios e a quarentena dos barcos, a duas léguas abaixo da Barra.

A situação nacional diante deste flagelo também era muito grave e, por isso, em 1846, foram fundados institutos vacínicos, com comissários vacinadores, em todas as províncias do Império. A vacinação, a

verdadeira solução para o problema, iniciara-se, desde 1798, no Pará, precocemente há apenas dois anos após a sua descoberta, mas encontrava sérias resistências por parte da população, que a julgava tão perigosa quanto a própria doença.

Empregada ainda no século XVIII, no Solimões, na sua forma de inoculação de pus, o seu uso estava esquecido, quando o cirurgião do navio Guapiassu vacinou trinta e duas pessoas, entre os dias 18 e 20 de janeiro de 1852, sem resultados positivos. Mais tarde foi nomeado um Vacinador Provincial, com o salário de 300$000 anuais, vacinadores municipais em Barcelos e Ega e os paroquiais de Serpa e Alvelos, que inocularam 920 pessoas, com 574 pegas positivas até julho de 1852.

A varíola continuou a ceifar vidas, principalmente entre os índios, seringueiros e caboclos do interior, na Amazônia, até a sua extinção, em 1971, da qual participei intensamente, durante as vacinações em massa então realizadas. Esta virose foi considerada erradicada da superfície da Terra, em 1977.

Em 1854, Ferreira Pena solicitou ao médico militar Antonio José Moreira e ao professor de homeopatia Mário Portes relatórios sobre a situação sanitária da Província, onde não havia um único hospital, pois o de São Vicente estava em ruínas. O homeopata relacionou a presença das seguintes doenças: febres intermitentes perniciosas endêmicas, no Alto Madeira; febres intermitentes benignas, no baixo Madeira e Autás; febres intermitentes, no rio Negro; disenterias e catarro pulmonar, no Autás; oftalmias, sarampo, coqueluche e lepra escamosa (puru-puru), no Purus, Santo Antonio, Amaturá, São Paulo e Tabatinga, e casos isolados em Ega, Fonte Boa e Tonantins. Ainda citava que 80% dos índios morriam de catarro pulmonar, disenterias, febres intermitentes e nostalgia. Para ele a Barra era um local relativamente salubre, onde as doenças epidêmicas apareciam apenas no início das vazantes e das enchentes: grippa, disenterias, colerina e angina catarral, e mesmo a varíola ficava à quarentena da cidade.

Entre os tratamentos usava hidro-sudo-terapia e tártaro emético, para catarros, anginas e febres simples; calomelano, banhos sedativos e sangrias, no hipocôndrio direito, para as febres biliosas; clisteres, banhos emolientes e suspensão de alimentos, para as disenterias; também repetia muitas das receitas dos práticos, já descritas nos capítulos anteriores. O obituário da Barra era altíssimo, chegando a 90, em 1853, o que representava quase 10% do total da população da cidade, e, para tornar o quadro mais sombrio, duas epidemias abateram-se sobre a população amazonense, pela primeira vez, nos anos seguintes: em 1855, a de cólera morbus e, em 1856, a de febre amarela.

Cólera

 A pandemia de cólera no Amazonas originou-se na Rússia, por volta de 1846, atingiu Portugal e dez anos depois foi levada para Belém, pela galera Defensor, que transportava dezessete tripulantes e trezentos e quatro passageiros, dos quais duzentos e oitenta e oito eram imigrantes.

A doença manifestou-se durante a viagem, com a morte de trinta e seis pessoas, chegando o barco ao Grão-Pará, a 15 de maio, sem que houvesse um diagnóstico da disenteria de que haviam falecido, o que só ocorreria no dia 26, quando já atingira os soldados da guarnição local; espalhou-se então rapidamente pela Província vizinha. Belém, com 20.000 habitantes, teve mais de 8.000 doentes, com 1.052 óbitos, entre maio de 1855 e fevereiro de 1856. Cametá, com 7.000 habitantes, foi uma das localidades mais seriamente atingidas, com 5.682 doentes e 1.336 falecimentos. Em todo o interior do Pará registraram-se

A doença chegou ao Amazonas pelo vapor Tapajós, saído de Belém, a 18 de maio de 1855, antes que a epidemia fosse identificada, no qual estavam embarcados doze imigrantes do Defensor, destinados a Óbidos, onde os primeiros casos apareceram a partir de 11 de junho. Dias após, a barca Marajó subia o Amazonas, com uma nova leva de infectados, que espalharam a doença, com os do Tapajós, por toda a Amazônia.

A chegada do Tapajós à Barra deu-se a 9 de junho, trazendo a notícia de que a colerina grassava no Pará, tendo a bordo quarenta soldados doentes, logo examinados e recolhidos ao quartel, pois ainda não se sabia que a epidemia paraense fosse de cólera morbus. Mesmo assim criou-se uma enfermaria no edifício de São Vicente, foi aberto um crédito de dois contos de réis para atender aos pobres, regularizouse o serviço de provedoria da saúde, sendo o doutor Moreira nomeado provedor, com uma canoa, quatro remeiros e um patrão a sua disposição; foram estabelecidas comissões de socorros públicos em Vila Bela, Serpa, Maués, Silves e Borba e se providenciou a compra de duzentos alqueires de farinha, em Santarém, e de bois, em Silves e no rio Branco.

No fim de junho de 1855, na viagem de retorno da barca Marajó, confirmou-se a notícia de que a epidemia de diarréias, que estava ocorrendo na Província, era realmente de cólera morbus, tendo a moléstia atingido os passageiros, com vítimas. O provedor de saúde visitou o navio e providenciou os enterramentos dos falecidos e o isolamento de um africano doente, na rocinha do Seminário, cedida pelo Vigário Geral.

O navio ficou fundeado distante da cidade, para onde foi levado somente no dia seguinte, pois nem os marinheiros queriam nele entrar. Apesar dos prognósticos, a doença foi muito benigna, no Amazonas, alcançando, de junho a setembro de 1855 cerca de 200 casos 3 óbitos.

O Governo Imperial, atento à gravidade do problema, remeteu para a Cidade da Barra uma comissão composta pelos médicos Joaquim Carlos da Rosa e Cassiano Augusto de Melo Mattos, e pelos estudantes do sexto ano Marcelo Lobato de Castro e Antonio David de Vasconcelos Canavarro. Embora tivessem chegado com atraso, ainda auxiliaram no tratamento de alguns doentes. O presidente Ângelo Custódio, da vizinha província, que viria a falecer da doença, remeteu medicamentos, para Manaus, e o seu substituto João Maria de Morais, trezentas galinhas, cem sacas de farinha e vinte e quatro arrobas de carne seca.

Foi essa a única incursão do cólera na Amazônia, produzida pela falta de controle dos portos, pela falta de diagnóstico imediato, pela inadequada higiene das embarcações e pela contaminação dos mananciais, principalmente em Belém e Cametá, que só consumiam água de poço. Por este motivo o cólera atingiu maior número de pessoas e foi mais letal no Pará do que no Amazonas, onde se colhia água nos igarapés correntes não contaminados e hoje sabemos por ser a água local extremamente ácida.

Mais de cem anos depois, já nos tempos atuais, a região sofreu uma nova pandemia, devido às mesmas falhas acima expostas, sendo também branda, por encontrar a maior parte das cidades com sistemas de abastecimento de águas funcionando regularmente.

Febre amarela

Mal acabara o flagelo do cólera, outro maior e mais persistente apresentava-se, no Amazonas: a primeira epidemia de febre amarela, em 1856, de uma série que só terminaria, em 1913, com o saneamento definitivo de Manaus.

A febre amarela começou em 1850, na cidade de Belém, introduzida pela barca dinamarquesa Póllux, chegada de Pernambuco a 24 de janeiro, carregada de escravos para a quarentena das Ilhas Virgens, de onde, depois de engordados e recuperados, eram vendidos aos Estados Unidos; também, pela charrua Pernambucana, vinda de Recife, local que sofria de um surto epidêmico naquele momento. Rapidamente a doença atingiu 12.000 dos 16.000 habitantes de Belém, produzindo 593 óbitos, no período de janeiro a dezembro de 1850, alcançando a seguir Vigia, Cintra e São Caetano, propagando-se lentamente e não subindo para o Amazonas, talvez pela falta do transmissor. Desde então se tornou endêmica no Pará, acometendo principalmente os estrangeiros recém-chegados, embora nesta primeira epidemia não tenha havido esta distinção, pois a população nativa ainda não adquirira imunidade.

Somente após seis anos, o Aedes Aegypti chegaria a Manaus, pois o primeiro caso apareceu a 12 de fevereiro de 1856, em um índio menor pertencente ao expresso militar de São Gabriel. Em junho de 1856, já haviam falecido 146 pessoas e dois terços da população da cidade ficaram doentes, o que corresponderia a 850 doentes de um total de 1200 habitantes, no perímetro urbano; 13 desses óbitos foram de estrangeiros, 8 de naturais de outras províncias e 121, de amazonenses, demonstrando que a população local jamais tivera contacto com a doença.

Por causa da epidemia, entrou em funcionamento uma enfermaria de indigentes, no Hospital Militar de São Vicente, e se encerraram os enterramentos no Cemitério dos Remédios, sendo aberto o de São José, na estrada da Cachoeira Grande, hoje Epaminondas, em frente à Praça da Saudade. Entre abril a maio de 1856 foi atingida Vila Bela, com 34 acometidos, dos quais faleceram 4. O número de casos reduziu-se a seguir, mas recrudesceram, em 1860, no Andirá e em Maués, com 49 mortes, e de janeiro a março de 1861, com mais 89; daí para frente a doença tornou-se endêmica na Amazônia.

Malária

Em outubro de 1856, as febres intermitentes manifestaram-se no rio Negro, de Airão a Santa Isabel, sendo o destacamento aqui estacionado transferido para o Xibarú, na costa de Lamalonga e abaixo de Tomar, antiga maloca principal dos índios Manaus, para a proteção dos soldados.

O doutor Moreira, em 1857, informava que as febres paludosas tinham instalado “o seu mortífero reino” no rio Negro, no Padauirí, o mais pestilento dos rios, no Juruá, no Içá, no alto Madeira, Purus e Japurá, regiões onde não se entrava impunemente. Pedira a retirada do 3º Batalhão da Guarda Nacional do rio Japurá, para evitar o sacrifício e a morte de mais pessoas. No Purus, onde estava entrando muita gente, ocorriam numerosos casos de febre intermitente, sendo encarregado da assistência o negociante Henrique Antonio Strauss, com a gratificação de 100$000. De 105 doentes tratados, ali faleceram apenas 3, embora o doutor Moreira discordasse desses números, achando-os inferiores à realidade. Strauss curava-os com um produto local: a caferana.

(Continua na próxima Semana)

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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