*Lucas Reis

Caminhoneiros parados há dias, filas de até cinco horas para ser guinchado e famílias inteiras isoladas, sem poder avançar ou recuar, numa pista tomada pelas águas.

O cenário é no trecho de Rondônia da BR-364, rodovia que começa em São Paulo, passa pelo Centro-Oeste, cruza RO e chega até o Acre.

Atravessá-la, atualmente, tornou-se uma missão quase impossível por causa da cheia histórica do rio Madeira.

Na semana passada, a Folha percorreu pouco mais de 150 dos cerca de 500 km que separam Porto Velho e Rio Branco pela BR-364, o único acesso por terra ao Estado do Acre. A reportagem usou guincho, carro, caminhão e barco.

Na altura do km 882, fim da linha: a água chegava a 1,4 m de altura, e veículos pesados naufragados no meio da pista impediam qualquer tentativa de avanço.

Caminhões e ônibus se arriscam em trecho de estrada (BR 364) alagada “Não há o que fazer, a não ser esperar. Ninguém vem nos ajudar. A gente só vê os helicópteros passando”, disse Renato de Araújo, 29.

O caminhoneiro saiu do Paraná, desembarcou sua carga de feijão no Acre e tentava voltar para casa com a mulher e as filhas de cinco anos.

“Já passamos uma noite na pista. Preocupa pelas crianças, pela comida e pela água que podem acabar”, disse.

Ele e outros 30 caminhoneiros estavam isolados na última quarta-feira no pior trecho da rodovia, onde um buraco na pista sugava quem se aventurasse a passar.

No dia seguinte, o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) bloqueou o tráfego no local, com 14 km de área alagada.

Ao longo da estrada, há vários trechos inundados. Em alguns deles, veículos pequenos conseguem seguir, mas, em outros, só é possível com ajuda de guinchos, o que acarreta novos problemas: a espera e o preço cobrado.

A 70 km de Porto Velho, surge a primeira fila de carros para a travessia. Até as 18h, a Santo Antônio Energia, cuja usina fica próxima, oferecia três caminhões para transportar veículos leves.

À noite, porém, só vencia o trecho de um quilômetro quem pagava R$ 70 a guincheiros particulares. Em trechos mais longos, rebocar um caminhão naufragado pode custar mais de R$ 250.

“O problema é que não fecham a pista. Se não fecha, as empresas obrigam os caminhoneiros a atravessar”, disse o mineiro Gilmar José da Silva, 34, parado há três dias com uma carga de batatas congeladas avaliada em cerca de R$ 60 mil.

O Acre, que sofre com o desabastecimento de alimentos e combustível devido ao isolamento, aguarda a chegada de balsas para amenizar a dificuldade de acesso.

Em diversos pontos, é impossível saber onde começa e termina a pista: tudo vira um enorme rio. Celular não pega e é difícil encontrar onde comprar água ou comida, geralmente em distritos que margeiam a pista.

A cheia do rio Madeira já completa mais de um mês sem sinal de trégua. O nível da água está 19,3 metros acima do normal. Bairros inteiros de Porto Velho e distritos da capital foram arrasados.

Mais de 3.500 famílias foram diretamente atingidas, cidades no interior estão isoladas e doenças, como a leptospirose, começam a se multiplicar pelo Estado.

*Enviado especial da Folha de São Paulo. Texto inserido na edição de 23/03/2014.
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