charges na politica

“Reuni e expus no Centro Cultural Palácio Rio Branco, durante algum tempo, um conjunto de peças de humor de teor político, eleitoral e partidário reunindo os principais artistas dos últimos anos, desse o saudoso Miranda”

Os chargistas, desde tempos muito antigos, se aproveitam dos políticos e dos fatos da política, da politicagem e da malandragem para exibirem seu bom humor e sua qualidade artística, e, mesmo sem o desejarem, fazer história. Nos meus arquivos há uma enorme coleção dessas peças publicadas por longo tempo em jornais e revistas, especialmente do Rio de Janeiro; dando conta de coisas pitorescas que aconteceram, anos seguidos, na vida do povo e no governo amazonense.

Nos dias que correm, além dessas ilustrações que continuam em voga e sendo publicadas nos jornais de Manaus, circulam com grande intensidade nas redes sociais, portais e blogs que são os meios modernos de comunicação e propaganda, as mais curiosas curtições que conseguem fazer rir e chorar, e, vez em quando, provocar indignação a quem sofre os achaques dessa boa arte.

Useira e vezeira em fazer valer o bico de pena dos caricaturistas, a revista carioca “O Malho” deu o que falar na nossa política partidária, sem dar trégua aos mais aguerridos interessados em conseguir votos do povo quando pretendiam exercer mandatos, alguns deles intermináveis. Foram vários os líderes e os quase líderes que padeceram ou comeram o pão que o diabo amassou, graças às muitas charges, inclusive, ofensivas, que foram publicadas na capital da República.

Verdade que, além das charges a revista dava a público fotos do carnaval de rua e dos desfiles dos carros alegóricos, de prédios inaugurados, de reuniões de comerciantes e de festejos cívicos e populares, porém o mais das vezes se referiam às disputas entre Thaumaturgo e Pedro Bacellar, Silvério Nery e Guerreiro Antony, Jonathas Pedrosa e Rego Monteiro, incluindo a conturbada posse do governador Bacellar que foi realizada debaixo de bala, sem falar nas denúncias de fraude e corrupção, clientelismo e nepotismo, na crise da borracha e os urubus.

A coleção da revista é primorosa e retrata muito bem boa parte das passagens que envolveram muitos políticos e gente da sociedade, retratando fatos não só curiosos e servem para divertir e conhecer a versão bem-humorada dos acontecimentos, ou as denúncias que estavam subliminares nos desenhos ou nas legendas.

Do mesmo modo como coleciono as antigas, alguém há de fazer daqui a alguns anos com aquelas que são publicadas nos dias correntes, dando conta de todas as intrigas e futricas de qualquer natureza, e até de coisas menores e sem interesse público, nas quais os mais atrevidos chargistas resolvem se envolver e meter o bedelho, com toda a liberdade que devem ter.

A propósito, não só por curtir esse tipo de manifestação artística, mas também por reconhecer elevado valor nessa forma de comunicação social, reuni e expus no Centro Cultural Palácio Rio Branco, durante algum tempo, um conjunto de peças de humor de teor político, eleitoral e partidário reunindo os principais artistas dos últimos anos, desse o saudoso Miranda. Foi um grande sucesso, somente interrompido porque o Centro

foi transformado em sede da Prefeitura de Manaus, como ainda permanece.

A politicagem não conseguia ter trégua, e tudo ecoava na capital federal para onde se voltavam, tal como sucede, ainda agora, todos os interesses econômicos e sociais à vista de ser o centro de decisões políticas: O Amazonas e as disputas internas, de todos os matizes, se transformaram, por longo tempo, em prato cheio para os chargistas cariocas que lambuzaram de vergonha vários homens públicos, mesmo que a maioria deles nem se dessem por vexado por esses fatos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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