*Djamila Ribeiro

Há muito trabalho pela frente e a luta da população negra brasileira por novas páginas na história continua.

“Por uma vez, o povo negro irá se servir das palavras de que tem vontade de se servir, e não já somente das palavras que os brancos estão dispostos a ouvir; e é o que farão, quaisquer que sejam os esforços da imprensa para deter a utilização desta palavra de ordem, fazendo dela sinônimo de racismo e de separatismo.” (Stokely Carmichael, “O Que Nós Queremos”, The New York Review of Books, setembro de 1966).

Nesta sexta (19), a Folha completa 100 anos de vida e coube a mim a tarefa de ocupar esse espaço nesta edição histórica.

Pensei durante a semana no que escreveria —de uma certa forma elogiar a história do jornal me pareceria um tanto quanto artificial, uma vez que faço parte de um povo apartado das páginas da imprensa brasileira a não ser em páginas policiais, nas tiras de humor para manifestação do racismo e nas páginas de Carnaval.

Imagens da escritora Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro Instagram/djamilaribeiro1

Djamila Ribeiro com a filha Thulane Instagram/djamilaribeiro1

Ao longo do tempo, distante das atenções da imprensa em geral, as mais velhas e os mais velhos lutaram pelo direito de coexistir na sociedade brasileira fundada em séculos de escravidão e na completa ausência de inserção social da população que aqui estava.

Jornais negros impressos na militância datam desde o Império, como bem aponta, em sua tese de doutorado, a pesquisadora Ana Flávia Magalhães Pinto.

“O Homem de Cor” ou “O Mulato” foi publicado pela primeira vez no Rio de Janeiro em 1833 e outros se sucederam na luta abolicionista, na luta por direitos no pós-abolição, como também, já no século 20, na resistência ao Estado Novo, regime que perseguiu imprensas negras, as quais reagiram em periódicos, como o Alvorada, em 1945. Uma história de rebeldia e resistência, em longa caminhada permeada pela perseguição racial, pelo apagamento e por momentos de ampla repressão à liberdade de crítica.

Em 1978, em São Paulo, o feirante Robson Silveira da Luz foi acusado de roubar frutas onde trabalhava. A ditadura militar o prendeu, o torturou e o assassinou. As notícias mal explicadas da época aumentaram ainda mais a revolta na juventude negra, que se organizou na criação do Movimento Negro Unificado, o MNU, com a presença de milhares de pessoas nas ruas e atenções midiáticas nacionais e internacionais.

Nos anos seguintes, proliferam publicações negras fundamentais para formação política de autoestima, cultura e luta. Jornegro, Tição, Cadernos Negros, Jornal Abertura, o Capoeira, muitas destas lançadas em 1978. Seria impossível em um texto citar todas, foram anos de profunda efervescência: Vissungo (1979), a revista Ébano (1980), Nêgo (1981), Africus, (1982) e Nizinga (1984).

Nos anos 1990 e 2000, na era de inovação digital, lá estavam as mulheres negras mais uma vez. O Geledés – Instituto da Mulher Negra foi um dos primeiros, arrisco dizer o primeiro, a manter um site de ONG da internet brasileira e que até hoje publica mulheres negras.

Organizações construíram seus espaços e, na imprensa, tivemos uma revista de larga distribuição, a Revista Raça, até hoje em circulação, que foi um oásis em muitas famílias negras, como a minha. Aos poucos, intelectuais negras e negros foram ocupando colunas em jornais de massa.

De trincheira em trincheira, a população negra resistiu na imprensa como pôde e avançou. A organização impressa em espaços da militância, com distribuição suada foi a arma encontrada pela população apartada da existência em sociedade. Graças às trilhas abertas, vimos o sol nascer e podemos hoje nos somar.

Na era das redes sociais, o funil que nos impedia de acessar o grande público foi alargado, possibilitando uma nova era de questionamentos, com muitas possibilidades de inspiração e surgimento de novas mídias negras.

Em um brevíssimo e insuficiente resumo, eis que chega esse centenário, em que, neste jornal, o maior em distribuição no país, ocupo uma coluna de destaque. Ao lado de companheiros e companheiras,

como Cida Bento, Marilene Felinto, Thiago Amparo, Dodô Azevedo, Silvio Almeida, a ombudsman Flavia Lima, entre outras e outros, fazemos nossa parte em colunas de opinião nessa luta histórica. Com nossas multiplicidades, convergimos na visão crítica ao bolsonarismo, assim como o jornal, o qual tem desempenhado um fundamental contraponto.

Somos poucas e poucos nesse espaço e na imprensa em geral. Na televisão, sobretudo. Contudo, este jornal tem ocupado um lugar de destaque entre seus pares na publicação de vozes negras que se servem e dizem o que querem e não apenas o que o poder colonial quer ouvir.

Folha, 100

Ao entardecer de 19 de fevereiro de 1921, circula pela 1ª vez a Folha da Noite. Comandada por Olival Costa e Pedro Cunha, que até então trabalhavam para O Estado de S. Paulo, a Redação ficava numa sala emprestada na praça Antônio Prado, no centro de São Paulo. O jornal era impresso nas gráficas da rua 25 de Março Reprodução

A Folha da Noite ia para as ruas à tarde e pretendia ser diferente dos outros jornais da época: mais leve, com menos textos rebuscados, com artigos mais curtos e mais espaço para esportes. “Povo não lê artigos. Povo quer notícias”, dizia Olival Costa (com bigode, ao centro). O jornal se engajava na defesa dos direitos de trabalhadores urbanos e afirmava que, sempre que necessário, iria se transformar para estar “ao lado do povo e da pátria” Folhapress

Há muito trabalho pela frente e em honra aos que vieram, por nós e pelas próximas gerações, a luta da população negra brasileira por novas páginas na história continua.

Frente a esses tempos, a Folha começa seu centenário com um horizonte à vista. Se irá desafiar seu passado e equilibrar a coexistência de vozes, bom, viveremos para saber. Podemos dizer que há esperança. Parabéns à Folha por seus 100 anos.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 19/02/2021.
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