Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Artefatos de pedra descobertos numa caverna do México sugerem que os seres humanos começaram a colonizar o continente americano há cerca de 30 mil anos, e não há apenas 15 milênios, como a maioria dos arqueólogos acredita hoje. Se os dados estiverem corretos, será preciso repensar quase todo o consenso construído ao longo das últimas décadas sobre a chegada do Homo sapiens às Américas.

Os instrumentos antigos foram encontrados na caverna de Chiquihuite (estado de Zacatecas, centro-norte do México). Trata-se de uma região montanhosa, quase 3.000 metros acima do nível do mar. As escavações e a análise dos artefatos, conduzidas por uma equipe internacional de cientistas, foram coordenadas por CiprianArdelean, da Universidade Autônoma de Zacatecas, e publicadas na revista científica Nature.

Também assinam o trabalho três pesquisadores da USP: Jennifer Watling, do Museu de Arqueologia e Etnologia da universidade brasileira, e Vanda de Medeiros e Paulo de Oliveira, do Instituto de Geociências. O trio foi responsável pela análise de vestígios vegetais presentes na caverna: fitólitos (grãozinhos de sílica produzidos pelas plantas) e pólen. Investigar esses restos ajudou a equipe a reconstruir o ambiente que circundava o abrigo rochoso há dezenas de milhares de anos.

A caverna tem sido estudada desde 2012, e dados preliminares obtidos naquela época já sugeriam que a presença humana ali poderia ser muito antiga. Depois disso, Ardelean e seus colegas exploraram sistematicamente uma área de 62 m2 (equivalente a um apartamento de dois quartos), com camadas de ocupação humana que alcançavam até 3 metros de profundidade. O trabalho permitiu que eles recuperassem quase 2.000 artefatos de pedra, que vão de pequenas lascas, resultantes do trabalho de quebra de seixos maiores, até instrumentos finalizados, como pontas de lança e lâminas.

Os pesquisadores usaram amostras de carvão, de ossos (de animais) e de sedimentos para datar as diferentes camadas do sítio arqueológico pelo método do carbono-14, o mais usado para estimar a idade de objetos que contêm matéria orgânica. As datações de carbono-14, em geral, confirmam o que indica a sucessão de camadas, ou seja, as mais profundas de fato são as mais antigas.

E as camadas mais antigas, de fato, superam em muito o que se esperava encontrar na região. Os cientistas calculam que a primeira fase de ocupação da caverna teria começado entre 33 mil e 31 mil anos atrás. Depois disso, as datações se estendem por cerca de 20 milênios, chegando a 13 mil anos antes do presente.

Se as datas mais recuadas estiverem corretas, o grande problema vai ser explicar como a ocupação do México em época tão remota se encaixa no cenário mais amplo da chegada do ser humano às Américas.

O que se sabe com base na maioria dos sítios arqueológicos, e também a partir da análise do DNA dos povos indígenas atuais e de antigos esqueletos, indica que os primeiros habitantes do continente vieram da Sibéria, possivelmente atravessando uma ponte de terra que existia entre a Ásia e o Alasca graças ao frio da Era do Gelo, que havia levado ao rebaixamento do nível do mar (pois boa parte da água do planeta estava “represada” em geleiras). Para se espalhar rumo ao sul, esses grupos siberianos talvez tivessem se aproveitado de uma abertura nas geleiras que então recobriam boa parte da América do Norte. Outra possibilidade é que esse avanço tivesse acontecido pela costa do Pacífico, o que permitiria uma migração relativamente rápida de norte a sul do continente.

Tudo isso deveria ter acontecido a partir de 16 mil anos atrás, segundo os modelos mais aceitos hoje. Mas há um punhado de sítios arqueológicos espalhados pelo continente com datas bem mais antigas. Alguns dos mais importantes estão no Brasil, na serra da Capivara (PI), com datas que também chegam a 30 mil anos, e em Santa Elina (MT), com cerca de 20 mil anos. Ambos os sítios ainda estão longe de ter suas datações amplamente aceitas pela comunidade científica internacional, em parte porque há questionamentos sobre os supostos artefatos de pedra achados neles, os quais, para alguns arqueólogos, poderiam ter sido alterados por causas naturais. Haveria razão para achar que a situação será dififerente no caso do sítio mexicano?

“Vai ser muito difícil que a maioria dos arqueólogos especializados na América antiga aceite essas datas”, alerta Ruth Grun, do Departamento de Antropologia da Universidade de Alberta, no Canadá, que comentou as novas pesquisas a pedido da “Nature”. Já André Menezes Strauss, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP que não participou do novo estudo, é mais otimista.

“A impressão que eu tenho é que ninguém vai discutir esses novos artefatos. Não só eles têm uma definição muito mais clara como eles são muito mais padronizados. E, como eles dizem, é uma indústria lítica [um estilo de produção de instrumentos] que a gente nunca viu na América antes. Então parece fazer sentido: uma coisa que é anterior com uma definição que a gente não conhecia antes. Claro que não vai convencer todo mundo, mas muda o cenário”, diz Strauss. “Agora, a grande questão que fica é: quem eram esses caras?”

A pergunta é especialmente intrigante porque, apesar de um esforço concentrado para tentar obter DNA humano na caverna, o grupo só conseguiu identificar material genético de diversos animais (como cavalos selvagens). Também não há ossos humanos no abrigo.

“Não podemos dizer se essas populações muito antigas sobreviveram por tempo suficiente para serem absorvidas pelos grupos que chegaram mais tarde. Se isso aconteceu, é provável que a contribuição delas tenha sido tão pequena que se tornou impossível de rastrear geneticamente”, diz Jennifer Watling, da USP.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 22/07/2020.
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