fernanda torres
*Fernanda Torres 

Em nome de Deus foram cometidas as maiores atrocidades da história humana. 

Insatisfeito com o silêncio de Buda, quando confrontado com as 14 questões sem resposta, o monge Malukyaputta exige que o mestre esclareça as dúvidas a respeito da eternidade e da finitude do Universo, da similaridade entre a alma e o corpo e da vida após a morte ou que o mestre admita ser incapaz de elucidá-las.

Buda se vale, então, da parábola da flecha, narrando ao discípulo a história do homem que, ferido, impede que extraiam a flecha de seu corpo enquanto não descobrir de que arco ela partiu e qual tipo de corda o vergou; a que família pertencia e de que ave foram recolhidas as penas da arma que o atingiu…

O homem, é claro, morre antes de obter as respostas.

O caso, segundo Buda, é semelhante ao do monge que se recusa a seguir na vida espiritual sem resolver certos problemas filosóficos. Nada disso é útil, afirma o Iluminado, no caminho que conduz ao desprendimento, à eliminação do desejo, à tranquilidade e ao nirvana.

Em vez de ludibriar o seguidor com visões do inferno e do paraíso, Gautama incita-o a agir no sofrimento. O absoluto só pode ser vivenciado por meio do estudo da doutrina e da prática da meditação. O nirvana é uma experiência pessoal e intransferível.

E o silêncio de Gautama, um baita sinal de caráter.

Li a passagem no segundo volume da trilogia “A História das Crenças e das Ideias Religiosas”, de Mircea Eliade, justo na semana em que Deus se fez tão presente no noticiário.

É curioso que o escândalo envolvendo, até o dia em que escrevo, 506 mulheres que acusam o líder espiritual João de Deus de tê-las assediado e estuprado tenha vindo a público no mês que antecede a posse de Messias.

Nunca antes, na história deste país, tantos candidatos se valeram da palavra de Deus para angariar votos. Nunca se rezou tanto e se tomou tanta hóstia para atingir a graça de uma cadeira no Executivo e no Legislativo.

A prisão do médium é um alerta, talvez divino, para a importância do segundo dos dez mandamentos, citados no Êxodo, 20, 3-17, e no Deuteronômio, 5, 7-21: Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.

A exigência, seguida da ameaça de retaliação, vem logo abaixo do amar a Deus sobre todas as coisas. Moisés e o Nosso Senhor sabiam dos riscos que envolvem todo e qualquer mediador.

Em nome de Deus foram cometidas as maiores atrocidades da história humana. Em nome do bem, muitos Joões se investiram de um poder que não lhes pertencia, usando-o para silenciar, achacar e oprimir. O segundo mandamento existe para que o fiel se mantenha atento.

Acredito que Damares Alves, no seu desespero de criança vítima de abuso, tenha, de fato, visto Jesus Cristo de olhos azuis na goiabeira. A salvação, assim como o nirvana, se manifesta para cada um à sua maneira. Sua história triste tem como algozes dois pastores, sendo que um deles a culpava pela tara da pedofilia.

Damares conhece a manipulação vil dos falsos profetas.

A futura ministra diz que trocaria anos de oração pelo afeto e o diálogo com os pais. À frente do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ela tem a chance de promover esse diálogo nacionalmente, separando a fé dos problemas relacionados à pasta, buscando ações práticas, laicas e administrativas para diminuir, como aconselha Buda, o sofrimento humano.

Quanto a João de Abadiânia, as acusações são tão terríveis e convincentes que só resta à defesa alegar que a lascívia é do espírito e não da carne, botando a culpa em Inácio de Loyola.

É isso, ou a constatação que meu clínico geral ouviu de uma kardecista: o problema é que não dá para confiar no cavalo!

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C5, de 22/12/2018.
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