“Não sei de outro período carnavalesco que tenha sido tomado de tanta confusão como este nem mesmo aqueles quando os marujos dos brigues resolviam entrar nos cordões que saiam no Carnaval e no São João (…)

Como está chegando o Carnaval e o assunto do momento é a “bancada da bala”, liberação, posse e porte de armas, andei procurando em meus arquivos, que ainda não são implacáveis nem têm esse objetivo, algum festejo carnavalesco levado na base do tiro que não fosse o célebre baile do Ideal Clube no qual uma bela jovem perdeu a vida.

E dei com uma nota não tão antiga, mas do tempo em que as festas do Rei Momo eram realizadas em animadas batalhas de confete levadas a efeito principalmente na Avenida Eduardo Ribeiro, logo nos primeiros anos da década de 1930, precisamente no governo constitucional de Álvaro Maia, homem pacato e de bons costumes, intelectual e espiritualista a quem o Amazonas tanto deve e ainda não foi reconhecido devidamente.

A coisa foi preta, como dizia um bom amigo todas as-vezes que ia contar uma história verídica, e assim o fazia” para que todos acreditássemos, de saída, visto ser acostumado a algumas lorotas. E foi mais feia porque envolveu a polícia civil, membros do Exército e até lideranças políticas em verdadeira arapuca, capaz de derrubar autoridades naqueles anos que já não eram mais de chumbo, mais estiveram exprimidos entre a ditadura da revolução, a democracia e a ditadura do estadonovista.

Até parece que havia um clima de arenga entre policiais civis e militares em várias cidades brasileiras porque episódios semelhantes foram registrados em Natal e Fortaleza; com consequências ainda mais nefastas. O conflito acontecido na capital amazonense chegou às páginas de jornais, ao governo central, ao poder judiciário e quase que rompia barreiras nacionais. Tudo porque em meio à folia momesca um guarda civil manauense derrubou com tiros certeiros três soldados do Exército, provocando a morte de todos eles, gerando pânico quase incontido em parte dos foliões que se aglomeravam, até então, com grande alegria.

Por conta disso a pacata cidade ficou quase paralisada. Os veículos e bondes suspenderam a circulação; forte contingente do Exército saiu às ruas, prendeu guardas civis, ocupou a chefatura de polícia na Rua do marechal Deodoro, dominou a Casa de Detenção – a mesma que passamos a chamar de Penitenciária Central “Vidal Pessoa”, na Avenida Sete de Setembro· e um piquete de cavalaria assumiu o policiamento geral ocupando várias vias públicas.

Como se não bastasse o reboliço, enquanto o Exército promovia uma verdadeira caçada humana procurando o autor dos dispares, pintando e bordando até com certa violência e ira, o chefe de Polícia e o próprio governador Álvaro Maia compareceram ao quartel federal travando forte enfrentamento com o coronel Oto Feio da Silveira, comandante da guarnição local e ordenador de todas as medidas antes descritas. Pelo visto não conseguiram apaziguar os ânimos nem reduzir o impasse, porque as forças militares acabaram dominando as ruas como queriam, quase provocando toque de recolher.

A repercussão do problema ocupou o cenário político porque, estando reunida a Assembleia Constituinte estadual, vários deputados resolveram votar uma moção de solidariedade ao governo constitucional devidamente composto no Estado e o comandante do 27. 0 Batalhão de Caçadores não titubeou: de corpo presente e na companhia de vários outros oficiais, compareceu a sede da Assembleia Rara protestar contra a votação da referida moção, procurando constranger e, quem sabe, amedrontar parlamentares.

Não sei de outro período carnavalesco que tenha sido tomado de tanta confusão como este nem mesmo aqueles quando os marujos dos brigues resolviam enfrentar os cordões que saiam no. Carnaval e no São João, tocando horror pelos bairros. Dessa vez foram as balas que acabaram com o carnaval da Avenida naquele março de 1935 quando as esperanças de democracia plena pareciam ganhar força.

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui