“Sem esquecer tão belas noitadas: em 1913 os manauenses de todas as origens queriam manter as mesmas orgias do passado rasgando cédulas de reis e queimando charutos importados (…)” 

No ano de 1913 a queda comercial da borracha no mercado internacional já estava indo de ladeira abaixo, mas os manauenses não levavam muito a sério a situação preferindo viver em orgias tal como nos tempos áureos da “belle époque”, cantando, dançando, trabalhando, e, principalmente, sorvendo os melhores champanhes franceses e curtindo o carnaval adoidado.

A imprensa humorística que circulava na capital amazonense com frequência, chamava de passatempo e de orgias bucólicas curtidas ao tempo do deus do riso e da galhofa que era o próprio rei Momo. No meio da pancadaria infernal e desconcertada do chamado Zé Pereira, com as bandas de música militares transformadas em conjunto carnavalesco, dava-se a batalha do lança-perfume levada a efeito na Avenida Eduardo Ribeiro, palco de todas as festas populares, cívicas, desportivas e sociais daquela cidade de clima ainda temperado e sem alagações.

Todos eram chamados a brincar o carnaval, fossem velhos, velhas, moços, moças, feios e bonitos como diziam as primeiras páginas dos jornais fazendo um convite bastante singular para que a maioria tivesse coragem suficiente de entregar a Momo todas as mágoas e tristezas, por todo o período, desde o sábado e o domingo magros.

Durante o dia davam-se os passeios pela Avenida que levaria ao Palácio que foi implodido pela sanha demolidora das oligarquias, e eram nesses passeios que as mulheres deveriam ir conforme Eva “singular e boa”, prontas-para promover as súplicas; durante as noites o esperado era que as damas comparecessem às ceias que costumavam ser fartas e demoradas e lavadas a efeito nas varandas luxuosas, nas quais cuidavam de, em boas conversas regadas a “Clicquot” espumante em taças de fino cristal, depenar o homem do dia cuja pelegas se escorriam rapidamente.

Afinal, ainda havia doces lembranças das festas do Pingarilho, com o carnaval e peças de teatro de bom humor como “Um marido vítima das modas” e de ouvir a rebeca de maestro Serrilha, quando as libras esterlinas começavam a tilintar junto com os bondes nos trilhos de aço norte-americano ou inglês, e o nordestino mais simples morria de fome no meio da estradas de seringa. Muitos dos foliões usavam e abusavam de máscaras comuns, narizes, máscaras de seda e de veludo, bisnagas e confetes, aproveitando as de melhor qualidade que eram vendidas na casa do Passos, na Rua de Henrique Antony.

Depois abusavam dos drinques e recordavam as noitadas no Teatro Phenix que dispunha de uma sala na qual-encontravam roupas carnavalescas para aluguel e aproveitam vinhos, licores, cerveja, capilé e doces, tendo a oportunidade de encontrar-se com o presidente de Província e o delegado de polícia que costumavam comparecer e assistiam, rejubilados, ao concurso de máscaras.

As músicas eram especiais: Helena de ópera; quadrilha Batacland; quadrilha chinesa; quadrilha Baliza; polca Jolie de ópera italiana; e polca Esmeralda, finalizando com o galope infernal em um teatro ricamente decorado com salões iluminados e faróis pelas ruas próximas.

Sem esquecer tão belas noitadas, em 1913 os manauenses de todas as origens queriam manter as mesmas orgias do passado rasgando cédulas de reis e queimando charutos importados, em trajes bastante chiques, cantarolando riqueza que já nem mais existia, mesmo que fossem somente nos dias e nas longas noites de carnaval. Tudo isso deu no que deu.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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