“[…] vem a mim, entre a saudade ea paz de espírito, a necessidade precípua do colo da mãe e mestra adorada, aquela que foi capaz de se dar de forma tão profunda e imensa que não consigo senti-la distante”

Andei ouvindo, mais uma vez, em sons que partiam da minha memória de menino, as muitas canções de ninar que preencheram meus primeiros anos de vida, tal como há de ter sucedido com muitas outras crianças. O balanço aconchegante no colo materno, o embalo encantado na rede da varanda e o leve tilintar da cadeira de vime compunham o cenário para estes gestos de amor e de carinho completados com uma música suave balbuciada quase entredentes para o acalanto desejado.

Depois, como por encanto, ainda, dei-me em outro tempo da vida e me vi procurando dar de mim o mesmo amor e carinho que havia recebido de minha mãe; dar de mim para os filhos muito queridos, e, agora, cabelos matizados pelos invernos passados, dando-me aos netos na certeza de que isso é uma das muitas expressões que traduzem meu mais profundo e puro sentimento.

Sem deixar perder a alegria incomensurável dessa oportunidade que me é concedida, – a de conviver com filhos e netos o que é uma das coisas mais intraduzíveis que experimento, vem a mim, entre a saudade e a paz de espirito, a necessidade precípua do colo da mãe e mestra adorada, aquela que foi capaz de se dar de forma tão pro funda e imensa que não consigo senti-la distante, e muito mais quando temo pela saúde do corpo físico e estremeço com a dor dos que sofrem a perda de entes queridos e amigos fraternos.

Nunca dos nunca senti tanto a precisão desse colo de afago. Verdade que todas as vezes que sobre mim se abatem as incertezas, angústias, do res, perdas e sofrimentos é nele que busco reconforto e extrair energias novas que me permitam continuar caminhando. E quantas e quantas vezes a ele tenho socorrido na hora da prece, na firmeza do pensamento, na alta madrugada silenciosa… Em todas as ocasiões me ocorrem os sons maviosos dessas canções que não se apagam da minha memória, e no profundo do ser pressinto o encanto de sua voz e a fortaleza do seu abraço.

Não poucas vezes cheguei a pensar que isso fosse um sonho fruto do desejo ardente de jámais afastar-me dela, e que o andar da carruagem bordada de ouro que nessas ocasiões sempre se apresenta indicando o caminho da esperança fosse uma forma de fantasia irrealizável…, mas depois sempre tenho tido a certeza de que Ouvi, de verdade ouvi aquelas canções de ninar, as suaves canções para fazer menino dormir ditas em forma de acalanto desejado.

Essa tradução do afeto e do cuidado mais delicado, tem sido maneira especial de cuidar dos pequenos que ainda não conseguem exprimir-se pela palavra os quais, postos sob o olhar amantíssimo da genitora, percebem o cantar, o balbuciar, o murmurar, o falar e o silenciar, após as quais, não raro, a emoção da mãe se traduzem lágrimas nos olhos.

Pareço ouvir como se fosse presente o antigo e clássico acalanto, nana-nenê, dorme-nenê, sapo-cururu, era uma vez, boi da cara preta, carneirinho… carneirão, se esta rua fosse minha, peixinho do mar, seu condutor, o cravo brigou com a rosa, cai, cai, balão, ciranda cirandinha, a canoa virou, atirei o pau no gato, capelinha de melão, escravos de Jó, fui no tororó, marcha soldado, mestre André, nesta rua, pirulito que bate-bate, roda pião, samba Lelê, Terezinha de Jesus e outras tantas, sempre apresentadas com uma sonoridade única, e até mesmo aquele simples e adorável “hum.. hum..hum..hum…hum…hum…” não consigo olvidar.

Não há maior presente que pudesse oferecer e depositar entre a luz das estrelas em hora de relembranças e homenagens do que sentir e reviver a alegria primeira de estar no colo da minha mãe, ganhando sua benção e seu beijo generoso, sentindo-me seguro em seus braços e ter a sua proteção. O que aspiro, ao lado da minha Rosa que é belo exemplo de filha, mãe e esposa, depois de tudo que se passa nesses tempos de angústia, é ver o mundo e os homens com olhos de mais compaixão, compreensão, caridade, fraternidade e amor.

Desejo ouvir sua voz por entre cânticos de anjos e arcanjos a nos acalentar e apaziguar os espíritos com canções para ninar frágeis e eternos meninos que desejam ser gente grande.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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