Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

A privacidade é um manto que protege o vício da própria degeneração.

Homens adoram ver duas gatas em ação. Muita gente já tentou explicar a razão disso. Muitas mulheres falam horrores quando esse assunto vem à baila. Usam aquelas palavras que, como “energia”, você usa quando não sabe o que mais dizer, tipo “machismo”, “sexismo”. Mas, devemos reconhecer, a favor da palavra “energia”, que ela não carrega a energia ruim de “machismo” e “sexismo”.

Talvez a razão óbvia para que os homens gostem de ver duas gatas em ação seja o fato de que ali são duas gatas em ação. Simples assim. De qualquer forma, esse é um dos mistérios que os homens levarão para o túmulo, intocado pelo ressentimento de muitos.

Outro é: afinal, por que mesmo homens inteligentes se encantam primeiro pelo corpo da mulher e depois pela sua alma? Mais xingamentos. Mas nada muda: eis outro mistério que os homens levarão para seu túmulo. Intocado. Outro: por que mesmo homens experientes não conseguem resistir a um sorriso de uma jovem linda? Mais um segredo que os homens levarão para o túmulo. Intocado.

A verdade é que enquanto as mulheres erotizam o intelecto masculino, os homens erotizam as pernas cruzadas das mulheres dentro de uma saia curta.

Mas mesmo os canalhas devem ter ética. Já dizia o grande Nelson Rodrigues, “um dia teremos saudade do canalha honesto”, aquele que confessa: quando elogio o intelecto de uma mulher, tenho, antes de tudo, as pernas cruzadas dela devorando o meu intelecto.

Há, também, o canalha deselegante. E a elegância desaparecerá antes dos golfinhos na escala ambiental. Vou contar uma cena a que assisti num hotel numa importante capital do país.

Café da manhã tipo 6h30. Um hotel de gente que vai à cidade trabalhar, logo, acorda cedo. Mesas ocupadas com pessoas diferentes, mulheres e homens. Eis que duas meninas, de uns 20 anos, acompanhadas pelo “investidor”, adentram o ambiente. Elas, claramente bêbadas, vestidas com vestidos muito acima dos joelhos, se acariciando. Ele, abraçando as duas, “se achando”.

Pecado capital. Toda virtude é tímida, mesmo aquela que faz de você capaz de comer duas mulheres ao mesmo tempo num hotel caro. Aí reside o núcleo da deselegância.

Mas há um outro fenômeno relacionado a essa deselegância. O ressentimento masculino para com a emancipação feminina vem se somar aos históricos ressentimentos que toda relação afetiva e sexual carrega desde o alto paleolítico.

Adentrar o café da manhã do hotel deixando claro que pagara e (supostamente) comera as duas gatas, com tantas mulheres ali, é um ato de profunda grosseria.

A verdade é que muitos homens esqueceram como tratar uma mulher, “mesmo” que ela seja uma médica, uma advogada, uma juíza, uma executiva. O sutil fato que a emancipação feminina não elimina o imperativo de que uma mulher deve ser tratada com elegância e cuidado escapa às almas mais grosseiras e ressentidas entre os homens. Suspeito que essa perda de percepção seja uma das catástrofes afetivas do mundo contemporâneo.

Duas gatas em ação é um sonho de consumo de qualquer homem mortal (dos deuses também). Não era isso que se via naquela cena. O desejo ali parecia falso.

Não se trata de uma condenação moral da prostituição –profissão que só cresce em demanda com o desgaste das relações entre homem e mulher–, mas, sim, como a leveza sensual de uma mulher que bebeu “um pouco demais” pode se transformar num espetáculo macabro, antes de tudo por ter perdido a proteção da privacidade. O vínculo entre vício e privacidade é como um manto que protege o vício da própria degeneração. Mesmo no vício há uma ética.

Qualquer pessoa com um mínimo de experiência, e não corroída pelas mentiras corretas de uma época idiota como a nossa, sabe que a distância entre o vício e a virtude, principalmente numa mulher, depende do número de taças de vinho que ela bebeu. Mas essa máxima, até para o Marquês de Sade, pertence à alcova (quarto secreto da vida sexual das mulheres durante séculos). Sade escreveu um famoso libelo a favor dos vícios de alcova chamado “Filosofia da Alcova”, em que ele descreve a iniciação da jovem Eugénie na vida libertina.

Se um dia a graça das deusas pousar sobre você e você ficar com duas gatas ao mesmo tempo, não as exponha a essa humilhação, nem as mulheres que estejam no recinto. No final das contas, o modo como um homem trata uma mulher em qualquer que seja a situação fala muito mais do seu caráter do que as ideias que ele vomita por aí.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 22/07/2019.
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