*Marcelo Coelho

Punido por frase racista, William Waack expia velhos pecados do jornalismo da Globo desde as Diretas-Já. 

Muita gente adotou o hábito, um bocado irritante, de falar marcando algumas palavras com os dedos como se fossem aspas.

O sujeito diz, por exemplo, que estamos numa democracia – mas usa o indicador e o médio de cada mão para questionar o uso do termo: “democracia”.

Hum, espertinho, hein?

Implico igualmente com quem condena esse hábito em qualquer situação. O gesto das aspinhas é um recurso expressivo interessante, e sempre convém ter mais, e não menos, instrumentos de comunicação a nosso alcance.

Sem gestos, é também possível falar de um jeito irônico, em que algumas palavras ou expressões se revestem de uma tonalidade equivalente ao itálico, ao negrito ou ao sublinhado do texto escrito.

Convido, por exemplo, um amigo para jantar numa pizzaria. “E aí”, digo, “vamos detonar uma calabresa?”.

Enfatizando o “detonar”, faço uma espécie de ventriloquismo.

Não é palavra que eu use normalmente. Dou a entender, pela entonação, que estou só imitando humoristicamente um personagem imaginário, que de fato detona calabresas e, sem dúvida, encara sua expedição à pizzaria com mais seriedade e, talvez, com mais prazer, do que eu.

Há algo de “classista”, por certo, na construção desse personagem, mais simplório e menos sofisticado do que me considero ser.

Há também, quem sabe, uma aspiração secreta por me transformar, numa pessoa que pudesse realmente detonar calabresas com mais gosto, com menos reservas mentais do que eu.

Nos versos de Álvaro de Campos, o poeta inveja a menina da confeitaria: “pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!/ Mas eu penso, e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho/ Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.”

Essa “falta de verdade” ainda se mostra maior quando sabemos que, afinal, nem Álvaro de Campos existiu – era só o heterônimo de Fernando Pessoa. Mas atinge, acho, quem quer que intelectualize (isto é, complique) as próprias experiências, em vez de ter com o mundo (a pizza, os chocolates) uma relação mais direta, mais perpendicular.

Talvez, no fundo, ninguém seja tão simples assim. Impossível saber. Se formos perguntar, já estaremos contaminando nosso interlocutor com o vírus da análise, da minúcia, da incerteza.

Assisti várias vezes ao vídeo fatídico de William Waack, falando nos bastidores sobre uma “coisa de preto”. No começo, não entendi o que ele dizia, de costas para a câmera. Mas a legenda tirou as dúvidas: era isso mesmo.

A frase é racista, obviamente. E não foi pronunciada com os grifos, as aspas, os ventriloquismos a que me referi, que poderiam atenuar o caso. Mas foi dita com nítida intenção humorística.

Isso não ajuda muito William Waack, pois piadas racistas ainda assim são racistas. Acho indesculpáveis piadas que se refiram à morte de judeus em câmaras de gás –e há muitíssimas. Associar negros a algum comportamento tosco não é a mesma coisa, mas é grave também.

Gostaria, em todo caso, de entender melhor o contexto. Se o episódio se deu, como sugere Reinaldo Azevedo, no dia em que Trump ganhou as eleições, há paradoxos a analisar.

Waack estaria francamente irritado com as buzinas que comemoravam a vitória da direita nas eleições americanas – cabendo lembrar que Trump recebeu, e não repudiou, o apoio do chefe da Ku Klux Klan.

Racistas, portanto, comemoravam a vitória do republicano com um buzinaço. Ocorre a Waack fazer a piada –”Isso é coisa de preto”. Quá, quá, quá.

Interpretação benigna: “Veja só, esses racistas exibem a atitude que condenavam nos negros, quando Obama ganhou”. É como se ele usasse aspas duplas: olha aí, uma “‘coisa de preto'”.

Interpretação negativa: “Esses caipiras brancos se comportam com a mesma algazarra que um grupo de negros faria”. Ele não estaria usando aspas nenhumas: olha aí, coisa de preto também.

Escrevo isto para dizer que a frase de Waack não configura um caso tão simples como seria o de um comentário racista a sério, num contexto mais fácil de identificar.

A punição da Globo foi imediata e drástica, entretanto, por uma razão bem clara e compreensível.

Já escrevi sobre isso. Desde as Diretas-Já, o caso Proconsult e a edição do debate Lula-Collor em 1989, o jornalismo da emissora paga o preço de ter tido a credibilidade reduzida a migalhas.

Não pode mais brincar em serviço. William Waack, muito menos. Foi sacrificado. Ele expia, sobretudo, os velhos pecados da Globo –que retoca o pó-de-arroz.

*Jornalista e escritor. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C6, de 15/11/2017
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