O cientista Dr. José Alberto Sampaio Nunes de Mello, foi meu amigo e companheiro no INPA durante muitos anos, onde se destacou não apenas pelo conhecimento científico sólido, mas também pela aguda inteligência muitas vezes revelada por um humor fino, crítico e sutil. Lamentavelmente dia 23 de outubro último ele partiu para outra dimensão deixando um grande vazio na ciência amazônica e brasileira, especialmente na área da entomologia médica, uma especialidade na qual se iniciou conduzido pelo Dr. Nelson Leandro Cerqueira, um dos dois brasileiros que descreveu o ciclo completo de uma doença metaxênica. Nunes de Mello que era veterinário foi completar seus estudos em Sorocaba onde terminou o doutoramento estudando o grupo dos Simulideos, (piuns ou borrachudos) voltando para o Inpa onde se fixou como uma autoridade no campo dos insetos transmissores de patologia tropicais como Mansonelose, Oncocercose e Chagas, incursionando também pela área da ecologia dos sistemas aquáticos.

Para não deixar o leitor curioso informo que Nelson Cerqueira descreveu o ciclo da Mansonelose – uma doença assintomática, endêmica no médio Solimões veiculada pelos piuns – enquanto Carlos Chagas descreveu o ciclo da tripanosomíase americana conhecida como Doença de Chagas, transmitida por barbeiros.

Voltando ao cadelismo

O humor de Nunes de Mello era típico de pessoas dotadas de inteligência privilegiada e durante o período em que estive na Direção do Inpa, sempre que a pressão de uma galera sindicalista aumentava, ia até sua sala em busca de algo útil e alegre. Em uma dessas conversas ele definiu o proselitismo da “esquerda” como cadelismo, explicando que o comportamento deles é igual ao dos cachorros que seguem uma cadela no cio. Os cães se aglomeram sem qualquer motivo racional e brigam entre si, levados apenas por impulso inconsciente, instinto animal despertado pelo cheiro dos feromônios. Se alguém lhes perguntasse o que estão fazendo ali, a resposta seria um irritante au, au au. Essa definição filosófica exemplificada em fatos da vida real sinaliza o cadelismo como a animalização dos seres humanos, uma questão excepcionalmente descrita por Franz Kafka no livro “A Metamorfose” e que Nunes transplantou, com muitos anos de antecedência, para o sectarismo político atual.

Certo dia, Nunes e eu, refletindo sobre esse tema, concluímos que, quando a transformação é muito profunda, o quadro é irreversível e a pessoa transfigurada jamais encontrará o caminho da volta.

Nesse nosso tempo barbudo e bicudo, o cadelismo criou um tipo de eleitor que mesmo sem caracteres morfológicos aparentes, age como dócil animal doméstico seguindo seu dono, movido apenas pelo cheiro de um farelo de conforto e/ou uma migalha de qualidade de vida.

Uma polarização absurda

O segundo turno das últimas eleições presidenciais no Brasil criaram uma curiosa polarização entre duas candidaturas, uma das quais era apenas uma ficção, uma virtualização criada para manter os donos no comando e os eleitores no cadelismo eleitoral. Ou, quem sabe, o povo está usando ritalina, a droga da obediência, da qual o Brasil em segundo maior consumidor do mundo.

Patologia individual e social

Já escrevi aqui nesta coluna que quando uma pessoa pública tem uma rejeição acima de 70%, ele constitui uma patologia política individual que o eleitorado se encarrega de extirpar. Por outro lado, quando um governante tem uma aprovação de mais de 80%, é a sociedade que está doente, assolada pela mazela do analfabetismo real e funcional, pela incultura, pela preguiça mental, pela incapacidade intelectual de analisar as opções embasando as decisões em fundamentos mais densos ou em outras palavras com o cadelismo substituindo a racionalidade. O segundo turno da eleição presidencial em alguns municípios amazonenses revelou, em alta definição, um cenário de quase unanimidade em torno de uma candidatura, que só pode ter origem na falta de escolaridade de bom nível que envolve conhecimento formal, informal e não formal. Só duas razões justificam essa concordância quase total a favor de um lado da  disputa: 1) a falta de base educacional; 2) a cadelização do eleitorado.

Este texto que aborda os problemas decorrentes de uma grave patologia social que contamina grande parte da população brasileira faz uma homenagem à inteligência e sabedoria do médico veterinário Dr. José Alberto Sampaio Nunes de Mello a quem devo essa lição para refletir sobre a vida e a sociedade.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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