“Tenho acompanhado o cenário que vai se compondo e decompondo entre personalidades, notadamente do mundo político, no curso do combate ao problema de saúde pública que estamos enfrentando e é de alcance mundial”

Do meu retiro obrigatório e consciente tenho acompanhado o cenário que vai se compondo e decompondo entre personalidades, notadamente do mundo político, no curso do combate ao problema de saúde pública que estamos enfrentando e é de alcance mundial.

Em certo momento me ocorreram lembranças do tempo de menino, embora não tenha sido dos mais levados e rueiros, dando conta de muitas brincadeiras que ficaram marcadas na minha memória. Duas delas se sobressaíram, sobremaneira: cabo de guerra e queda de braço, com as quais costumávamos mostrar forca e habilidade, técnica, superioridade, uns sobre os outros, isoladamente ou em grupo.

Para o cabo de guerra reuníamos dois grupos de garotos os quais, cada um tomando um lado da corda, cuidávamos de procurar puxar a tropa contraria com toda a força possível, visando vencer a resistência dos opositores e fazê-los atravessar a linha limite traçada no chão. Dava-se um puxa-encolhe danado. Era uma animação bacana. Puxa, puxa… gritavam uns; vai, vai…, diziam outros, e em meio a gritaria e as escorregadas daqueles que não suportavam as arrancadas para derrubação, chegávamos ao final exaustos, mas satisfeitos, ganhasse quem ganhasse, por que o importante era brincar. E logo em seguida começávamos tudo de novo.

A queda de braço se desenrolava de forma mais direta, com duplas de calibre físico mais ou menos equilibrado, e servia para demonstração de força e habilidade, e, não raro, capacidade de surpreender o adversário com um solavanco que, quase sempre, o derrotava. Era uma disputa mais pessoal, olho no olho, do tipo personalíssima, por assim dizer, da qual muitos fugiam (eu, inclusive) porque a complexão física não favorecia entrar nessa aventura. Era divertido assistir, e, vez por outra, dar-me à pachorra de uma disputa simplória, de brincadeirinha, somente para não parecer desenturmado.

Naquele tempo levávamos uma vida saudável, com brincadeiras inocentes como carro de rolemā, macaca, manja, 31 alerta, queimado, futebol na rua, empinação de papagaio de papel, perna de pau, barra-bandeira, carrinho de lata e outras e muitas outras “engenhocas que sabíamos fazer com maestria e eram motivo de muita alegria.

De qualquer sorte, os motivos que me fizeram recordar esses dois folguedos bastante conhecidos decorreram da luta, muitas vezes insana, tomada a ferro e fogo por alguns que deveriam estar concentrados na busca de soluções harmônicas e eficazes para o enfrentamento positivo dos problemas que afligem a população brasileira, em vários níveis, mas principalmente de saúde pública.

Aqui do meu canto fico imaginando a reação dos leitores, especialmente daqueles que tem as mesmas lembranças e estiveram envolvidos em tais brincadeiras, relembrando esses folguedos juvenis e pensando nos tempos que correm. Aqueles que não tiveram essa oportunidade, também podem conseguir traçar o mesmo cenário, procurando identificar em cada personagem ou grupo de figurinhas carimbadas e conhecidas do nosso álbum político tradicional, quando e quantos se põem em cabo de guerra e fazem questão de alardear o jogo nas redes sociais (às vezes com muita potoca), e outros, mais acanhados ou sabidos, ou porque não dispõem de grande comando sobre sua turma, vão preferindo “brincar” de queda de braço.

Depois desse vai-e-vem danado, fiquei pensando o quanto ganhei e o quanto perdi com as brincadeiras do meu tempo de menino, e, sem dúvida alguma, tenho a certeza mais certa de que aprendi… aprendi… aprendi… e nada perdi, mesmo quando não sai vencedor das disputas que foram travadas com outros colegas da rua em que morava ou das escolas onde estudei. Afinal, o que mais sabíamos, desde então e era certo bem antes de começar o jogo ou a brincadeira, era que não haveria vencedor nem vencido, pois éramos todos iguais, éramos todos irmãos sonhando com o mesmo amanhã.

Se nos dias que correm há quem queira “brincar” de cabo de guerra ou de queda de braço, poderiam acertar o jogo pra que não houvesse vencedor nem vencido, tudo pelo bem comum, e todos cuidarem de soluções conjuntas para os problemas que nos afligem.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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