Ana Clara Costa
*Ana Clara Costa

O economista e principal comentarista do Financial Times diz que não há solução política para o país fora do centro e que a polarização nacional poderá ter consequências “trágicas. 

“Bolsonaro me parece completamente maluco. Perto dele, Donald Trump beira a normalidade e até mesmo a serenidade. É alguém que não tem noção do que significa governar”. 

“Hoje a direita tem dado origem a mais exemplares populistas do, que a esquerda. São líderes hostis à globalização e a qualquer coisa que interfira no discurso nacionalista”. 

Pode-se medir a importância de uma economia no mundo pela quantidade de textos sobre ela escritos por Martin Wolf, 72, o principal comentarista do jornal inglês Financial Times. Formado em economia pela Universidade de Oxford e ex-economista sênior do Banco Mundial, Wolf escreve cada vez menos sobre o Brasil- o último artigo, em novembro de 2017, foi o primeiro em quatro anos de silêncio. O britânico foi crítico contumaz da chegada do PT ao poder por acreditar que o país teria seu caminho de estabilidade interrompido por um calote de sua dívida externa. Errou feio. Depois do tropeço, passou a considerar o ex-presidente Lula um bem-sucedido expoente da “social-democracia”, até o naufrágio das políticas populistas e, é claro, a revelação dos esquemas de corrupção. Hoje, Wolf vê com ceticismo os prognósticos para o Brasil, onde o cenário de polarização é, segundo ele, trágico. “É temerário que o brasileiro tenha perdido a confiança em todos os políticos, porque essa percepção abre espaço para outsiders e neófitos cuja incompetência é, em geral, muito danosa”, disse a VEJA. Um candidato de centro, segundo Wolf, seria a solução, ainda que o mundo passe por uma crise de governos moderados. “O centro falhou em entregar políticas que melhorassem o bem-estar da população. Daí o surgimento de reações tão contrárias à moderação, como o Brexit. Ao mesmo tempo, na França, houve Emmanuel Macron, o que dá certa esperança de que o centro conseguirá recuperar seu espaço.” A seguir, sua entrevista.

Na última década o senhor tem sido um crítico ferrenho da condução da economia brasileira. Com a perspectiva de retomada mostrada pelos mais recentes indicadores, sua opinião mudou?

Minha visão de médio e longo prazos para o Brasil continua pessimista. Nos últimos quinze anos,que foi um período na maior parte governado por Lula e Dilma, houve uma grande frustração. Lula herdou um país nos trilhos, com uma trajetória de estabilidade e pronto para decolar. No início de seu governo, fez coisas boas, sobretudo nas políticas fiscal e monetária, controlando gasto público e sendo cauteloso com a inflação.

Mas rapidamente perdeu a mão. E olhe que aqui só estou falando dos erros na economia. O atual presidente, Michel Temer, tem tentado ir na direção das reformas. Mas ele não consegue completar seu trabalho porque não tem legitimidade para aplicar medidas muito drásticas, já que não foi eleito. É preciso um novo presidente com capital político para fazer as reformas de que o Brasil precisa há pelo menos duas décadas e que pouco avançaram nesse período.

O senhor acha que uma mudança de governo terá o potencial de alterar o curso da economia a curto prazo?

Depende do governo. A melhora atual é cíclica, o que é bom. Mas os problemas de longo prazo continuam no mesmo lugar, esperando para ser resolvidos. Não se pode esquecer que a economia passou por uma grande recessão, com queda real de 9% na renda per capita em apenas três anos, que a situação fiscal é insustentável e que um escândalo de corrupção tragou alguns dos principais empresários do país, justamente do setor que afeta diretamente o crescimento, que é a construção civil. É preciso abrir a economia, que ainda é relativamente fechada, fazer a reforma tributária, uma reforma trabalhista de verdade, investir mais em infraestrutura e criar políticas públicas que aumentem a poupança privada. Como parte da reforma fiscal, é necessário mudar as aposentadorias para controlar a previsão de gastos do governo no futuro. Talvez a criação de um modelo de poupança para à aposentadoria possa ser a saída para ajudar na parte fiscal e elevar o nível da poupança nacional. O trabalho é grande, e eu não estou nem um pouco certo de que um próximo presidente estará apto a fazê-lo. Esse segundo colocado nas pesquisas, Bolso…. Qual é mesmo o nome dele?

Bolsonaro?

Isso, Bolsonaro. Ele me parece completamente maluco, alguém capaz de destruir o país completamente. Perto dele, Donald Trump beira a normalidade e até mesmo a serenidade, eu diria. Trata-se de alguém que não sabe o que diz e que parece não ter noção do que significa governar. Essa perspectiva é algo muito trágica e muito triste, pois significa uma grande perda de potencial, sobretudo no caso do Brasil, que tem recursos abundantes, colossais. Éumapena.

Com o intuito de se aproximar do mercado, Bolsonaro escalou um time econômico liberal. Isso ajuda?

Ajuda a parecer mais sério, mas não resolve. Tudo dependerá de quem cuidará da política econômica depois da eleição. Antes disso, só há promessas. Mas a verdade é que o Brasil poderia, com uma gestão correta, pavimentar um caminho sustentável para a retomada, com as contas mais saudáveis e os juros sob controle, além de mais emprego. O problema é encontrar um indivíduo capaz de fazer isso e convencê-lo a se candidatar.

O senhor não vê essa perspectivaem nenhum dos atuais candidatos?

Eu conheço pouco do currículo e do trabalho desses candidatos. Apenas vejo Lula em primeiro lugar e o segundo ocupado pelo senhor sobre o qual falamos. E Lula em primeiro lugar não é menos trágico que Bolsonaro em segundo. Ou seja, as perspectivas são tristes, pois há um grande fator de instabilidade política quando falamos do Brasil. O país, agora, é imprevisível. E não era assim. As duas maiores vitórias do governo de Fernando Henrique Cardoso foram a estabilidade econômica e a previsibilidade política. A má condução da economia e a corrupção reverteram esse caminho. A única coisa estável hoje em dia é a política monetária, com a inflação sob controle e os juros em queda, o que, em grande parte, é resultado do bom trabalho do Banco Central.

A prisão de Lula tem o potencial de atenuar a polarização e, consequentemente, a instabilidade?

Tenho dúvidas. É temerário que, por culpa de fatos como esse, o brasileiro tenha perdido a confiança em todos os políticos. Essa percepção abre espaço para outsiders e neófitos cuja incompetência é, em geral, muito danosa para qualquer país.

A prisão ao menos atenua o sentimento de impunidade?

Tive reações conflitantes em relação à prisão. Aomesmo tempo que fiquei impressionado com o êxito da Justiça brasileira em condenar um político tão importante e carismático, o fato de que esse mesmo indivíduo seja culpado desses crimes me deprime. Acho inacreditável que um homem em quem tantos brasileiros acreditaram e depositaram seu voto – eu mesmo acreditei -, e que teve enorme oportunidade de fazer uma transformação para melhor em um país, tenha terminado onde está. Pior: e ainda querendo ser presidente novamente. Seria ridículo se a Justiça brasileira permitisse uma candidatura nessas condições. Lula já teve seu tempo e não solucionou os problemas. Ele não é o futuro. Ele é o passado que falhou. E, preso, dificilmente conseguirá fazer um sucessor que herde todos os seus votos. É preciso alguém novo, mais alinhado ao centro, que contemple os anseios da população e tenha legitimidade para empreender as reformas que são fundamentais.

Quais características deve ter esse político de centro?

Credibilidade. Que não seja visto como corrupto e tenha capacidade de execução. Afora esse candidato, seria preciso uma nova leva de políticos no Legislativo aptos a construir uma legislação mais moderna e dinâmica, e que dê segurança jurídica ao investidor, além de um Executivo de melhor qualidade com autoridade para pôr em prática as reformas, sem aumentar impostos, que já são um fardo tão grande para a população brasileira. Esse político também precisa colocar o Brasil no caminho da inovação, reduzindo sua dependência das commodities. Mas, como eu disse em minha última coluna sobre o Brasil, é muito difícil mudar o rumo a médio prazo. Não é impossível. Mas requer muita vontade e pouco compromisso com a reeleição.

Muitos políticos centristas foram afetados pela Lava-Jato, o que prejudica o fator “credibilidade”.

Em certa medida, sim. Mas isso não significa que o centro deixou de existir e que dali não possa surgir alguém novo e limpo de acusações. O Brasil, por ser um país enorme e com muita desigualdade, requer um modelo de governo não populista de centro-esquerda, uma social-democracia, que foi imensamente atingida nesses escândalos de corrupção, em todas as suas nuances partidárias. No mundo, mesmo sem o fator Lava-Jato, o centro também falhou em entregar políticas que melhorassem o bem-estar da população. Daí o surgimento de reações tão contrárias à moderação, como o Brexit. Ao mesmo tempo, na França, houve Emmanuel Macron, o que dá certa esperança de que levará tempo mas o centro conseguirá recuperar seu espaço.

O fracasso da esquerda em alguns países, como o Brasil, também acabou nocauteando o centro de forma geral?

Sim. Tornou mais difícil essas candidaturas e, mais que isso, estimulou o populismo. As pessoas aderem a ele não por ideologia, mas porque acabam acreditando que aquele indivíduo que fala exatamente o que elas querem ouvir mudará a vida delas. Trump é o exemplo perfeito de populismo de direita, enquanto Hugo Chávez e, agora, seu sucessor jogam no lado do populismo de esquerda. Obviamente os resultados são distintos, mas a dinâmica é a mesma, de estimular o nacionalismo e prometer resolver todos os problemas com soluções simples, o que, todos nós sabemos, é impossível. Hoje, a direita tem dado origem a mais exemplares populistas que a esquerda. São líderes hostis à globalização e a qualquer coisa que interfira no discurso nacionalista. As pessoas toleram, mesmo sabendo que o nacionalismo desmedido nunca as levou a um bom lugar.

Em todos os países do chamado grupo dosBrics, em geral, a situação política não é muito animadora. Esse desequilibro pode ter sido causado porque as democracias mais jovens não souberam lidar com o crescimento?

É muito difícil compararmos os Brics entre si, porque são economias muito diferentes e que vivem momentos completamente particulares. O que está acontecendo politicamente na China, no Partido Comunista, não tem necessariamente a ver com o que vive o Brasil, nem com o que ocorre na Rússia. É certo que todos estão enfrentando problemas, e talvez a Índia seja uma exceção, mas são questões muito mais relacionadas à política interna do que a um padrão de comportamento entre os emergentes em si em resposta aos acontecimentos da economia mundial. Jim O’Neill, que criou esse acrônimo, é meu amigo. Mas não acho que ele algum dia teve grande serventia para nos ajudar a analisar esses países. O conceito de Brics foi passageiro e, para mim, não existe mais.

*Jornalista. Entrevista com o economista Martin Wolf e principal comentarista do Financial Times, na Revista Veja nº 2582, de 16/05/2018.
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