fernanda torres
*Fernanda Torres

Enquanto o mundo vive o antropoceno, era marcada pela força tectônica da humanidade, nós encaramos o ‘rouboceno’.

Optamos pelo caminho que cruza o Arco Metropolitano, a via expressa de 71 quilômetros que leva ao litoral. Inaugurada em 2014, na regência de Sérgio Cabral, a rodovia fez parte das reformas pré-olímpicas que sustentaram esquemas escusos do governador cleptomaníaco, trancafiado no complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu, desde 2016.

Na primeira vez que cruzei o arco, me espantei com os estupefacientes 4.200 postes de luz alimentados por células fotoelétricas, espetados à distância de 17 metros um do outro.

“Alguém ganhou muito dinheiro com essa árvore de Natal”, comentou meu cônjuge.

O exagero acendia a suspeita de superfaturamento no R$ 1,9 bilhão de custo da rodovia. Hipótese confirmada em 2018, com a prisão de César Augusto Craveiro Amorim, dono da empresa responsável pelo projeto de iluminação da estrada.

Só nesse quesito, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro calcularia um sobrepreço de R$ 4.000 por poste e um rombo de R$ 17 milhões nos cofres públicos; isso, fora os R$ 22 milhões gastos antes mesmo da inauguração, para conter a instabilidade das famigeradas estacas, erguidas em solo instável por erro do projetista.

Não bastasse a pilhagem dos agentes públicos em parceria com o setor privado, uma vez inaugurado, o arco sofreria onda de saques perpetrada por gatunos do crime informal, devido à falta de policiamento.

Posicionadas próximas às lâmpadas da altíssima paliçada, centenas de caixas contendo as valiosas baterias solares foram arrombadas para a rapina. A escuridão facilitou os assaltos e afugentou os motoristas. O desterro causado pela rara circulação de veículos permitiu butins ainda mais intrépidos, num ciclo sem fim.

Corrupção, ineficiência, desperdício, falta de planejamento e patrulhamento, violência e barbárie… Nada de novo aqui. Confesso, no entanto, o choque que levei naquele dia, quando, saindo da Dutra, virei à esquerda em direção à Itaguaí e dei de cara com o inimaginável.

Para quem desejava se esquecer da reforma perpétua, a degradação do Arco Metropolitano estava ali para lembrar a ruína civilizatória do meu estado.

Era como se uma hecatombe nuclear, a explosão de Angra 3, tivesse derrubado, de uma só vez, quilômetros e quilômetros de postes. Os mesmos postes superfaturados jaziam, agora, no chão, como árvores tombadas, mas de maneira ordenada, em cruz, no canteiro de grama que separa os dois sentidos da via.

Não fosse o histórico fluminense, não fosse o Brasil, eu juraria se tratar de uma instalação artística da Bienal, concebida por Rauschenberg, Richard Serra, Christo ou Chris Burden, mas não.

A bandidagem em fúria, numa movida madrileña, criara a gigantesca intervenção, serrando centenas de postes, um após o outro, com maçaricos anônimos, a fim de facilitar a pirataria das baterias restantes e bloquear a estrada durante os roubos de carga de caminhões.

Só as contorções de Charlston Heston diante da Estátua da Liberdade, no fim de “O Planeta dos Macacos”, para dar conta da assustadora visão.

Não quero ser injusta com o Rio de Janeiro. André do Rap anda rindo à toa no Paraguai; garimpeiros, grileiros e madeireiros avançam sobre a Amazônia e políticos continuam forrando as cuecas com lobos-guarás. A diferença é que, por aqui, o latrocínio virou arte.

Enquanto o mundo adentra o antropoceno, era geológica marcada pela força tectônica da humanidade, o Brasil encara o rouboceno, sem nenhuma perspectiva de guinada.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 18/10/2020.
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