“Essa estrada não removerá recursos naturais de monta. Ela já existe. Só foi interditada por interesses obscuros. Com que autoridade esses grupos nos negam o direito legítimo de acessar por terra o resto do território brasileiro? Temos que exigir o direito constitucional de ir e vir dos patrícios interessados em conhecer a floresta amazônica.”

Há uma que de hipocrisia no ambientalismo que se envolve com o veto à recuperação da BR-319. Nem o espetáculo medonho das carretas enormes, retiradas do atoleiro por poderosos tratores de alta performance em janeiro, comove o ideário xiita travestido de apologia ecológica. Os riscos ambientais alegados estão imanentes ao cotidiano da Amazônia. O problema, então, não é a estrada e sim a governança ambiental do bioma. Instrumentos de fiscalização nós temos. O que faz a parafernália do SIVAM/SIPAM que não monitora a ocupação do território amazonense? Ou o INPE não pode denunciar a grilagem consentida? A conversa do veto não para em pé. E essa estrada, que exigiria providências efetivas do poder público, tem como gerar atividades econômicas que banquem sua manutenção e fiscalização. Será que a fictícia extinção do macaco de cheiro e a gralha do Rio Purus são mais importantes que os pacientes que precisam de oxigênio ou outros insumos indispensáveis à preservação de suas vidas? .

Direito de ir e vir

Essa estrada não removerá recursos naturais de monta. Ela já existe. Só foi interditada por interesses obscuros. Com que autoridade esses grupos nos negam o direito legítimo de acessar por terra o resto do território brasileiro? Temos que exigir o direito constitucional de ir e vir dos patrícios interessados em conhecer a floresta amazônica. E dos nativos que gostariam de percorrer o país com suas famílias. Já são quase três décadas anos dessa novela da mais descarada hipocrisia. Foram usados grotescos artifícios para não recuperar uma estrada que esteve em pleno funcionamento por 14 anos, de 1973 até 1987. E não há registro de desmatamento ou grilagem à solta…

E o projeto da Estrada Parque?

A conservação da BR-174, que liga Manaus a Boa Vista RR e daí ao Caribe, onde não há notícia da depredação alegada, esvazia a lenga-lenga da destruição. O que foi feito do projeto viário, com seus Estudos de Impacto Ambiental de Estrada Parque, algo muito comum nos países civilizados? Um trabalho da UFAM aplaudido nacionalmente. Os oficiais do Comando Militar da Amazônia já se dispuseram a proteger a rodovia como fazem na fronteira. Os riscos alegados de destruição florestal, na verdade, são benefícios de toda ordem, incluindo o fomento de atividades econômicas de baixo carbono para as comunidades do traçado, além da atração de indústrias de biotecnologia para extrair com inteligência – isto é, sustentabilidade- os tesouros da biodiversidade.

“Custos políticos”

O Polo Industrial de Manaus, responsável por colocar o Amazonas entre os 5 estados que mais contribuem com as burras da União, teria uma vantagem logística suplementar pois as hidrovias, embora mais lentas, são o modal mais coerente na planilha de seus custos. Em 2019, o conjunto da indústria recolheu mais de R$ 17,5 bi para a Receita, somente de IPI. Ou seja, a estrada já foi paga inúmeras vezes. Outros interesses, contudo, devem falar mais alto nas negociações de bastidor. Por que financiar um estádio – que nos custa uma fortuna de manutenção – ou uma ponte que teve elevado “custo político” em sua edificação, segundo os autos de auditoria oficial.

Taxas portuárias extorsivas 

Em “compensação”, no campo da logística dos transportes, as indústrias pagam aqui as taxas portuárias mais caras do país. Sem motivo aparente. Reportagens da Rede Amazônica veicularam, em matérias não muito distantes, denúncias de moradores afirmando que o trecho do meio foi bombardeado para evitar a recuperação da rodovia. E ninguém se empenhou em identificar os responsáveis pelo dano ao bem público e ambiental? E não consta que as entidades ambientalistas recomendem o uso de dinamite para proteger a natureza.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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